TRACK REVIEW: CLC – No

Não é surpresa pra ninguém que o CLC é um grupo que apresenta sérios problemas de identidade, com um histórico recheado de conceitos conflituosos e uma impressão geral de que o grupo simplesmente atira pra todos os lados no mar de possibilidades sonoras e estéticas que é o K-pop. Essa questão (que já foi amplamente discutida no blog em oportunidadesanteriores) inclusive é o maior empecilho para que a girlband de fato “aconteça”, já que é impossível fidelizar um público ao redor de um produto que se mostra inconstante e sem uma marca bem-definida. Eis que diante desse panorama nada positivo e da maré de azar que varre o grupo desde sempre (rendendo até um comeback engavetado recentemente), alguém da equipe criativa que gerencia as garotas resolveu que seria interessante brincar com essa perspectiva de identidade frágil na tentativa de reafirmá-la – e assim nasceu “No“.

É difícil traçar uma linha lógica de sonoridades do grupo dada a bagunça de conceitos que elas apresentaram até agora, mas “No” soa como algo fresh na discografia do CLC, mesclando um deep-house classudo com elementos do trap de uma forma fluida e intercalante. As dimensões sonoras da canção vão de momentos mais “low key”, com batidas simples e um bass pulsante nos primeiros versos, para momentos mais expansivos, como o refrão sintetizado e o break que surge de surpresa próximo ao final (uma das melhores características do canção aliás). No geral, o instrumental cresce progressivamente e tem algumas “quebras” interessantes, que comportam com maestria o maior trunfo desse lançamento: a letra da música.

“No” é audaciosa no âmbito lírico: ela parece estar bem ciente das críticas sobre as mudanças bruscas do CLC ao longo dos anos e ironiza essas críticas enquanto propõe “algo novo” ao mesmo tempo. Escrita em um tom meio conversacional (vide a parte principal, que é basicamente um jogo de perguntas e respostas), ela rejeita convenções datadas de estilo e beleza, onde o eu-lírico demonstra que os padrões sociais relacionados à imagem do feminino são simplistas demais para defini-lo. Claro que tecer essas críticas mais profundas talvez nem seja a intenção principal da música, mas, por trás da atitude de “eu sou diferente” presente em vários momentos da letra, dá pra perceber que ela serve como a farpa perfeita para cutucar as expectativas em torno do grupo e também as ideias engessadas de padronização do K-pop – e alguns trechos deixam isso bem perceptível, como a parte “Sexy? No! / Aegyo? No!”.

O conceito no geral parece mesclar os elementos mais “maduros” de “BLACK DRESS” e um pouco da atitude de “garota má” de Hobgoblin, mas apresenta essas ideias com um visual muito mais apurado, além de uma aura de suavidade e fluidez, o que previne esse lançamento de soar forçado como os esforços anteriores da girlband. “No” realmente parece ser um investimento num “reboot conceitual” necessário para o grupo, sendo um novo ponto de partida para que o CLC enfim possa brilhar com suas próprias cores e progredir de forma coerente após tantos percalços, mostrando ao público o talento das garotas e a boa dinâmica delas como septeto que até agora passou despercebida no K-pop. Ah, claro, a gente não pode esquecer de cruzar os dedos para que a CUBE não estrague tudo mais uma vez.