Chungha – "Gotta Go"

Se tem uma coisa interessante no circuito da música pop sul-coreana é que esse é um mercado plenamente funcional nos primeiros dias do ano. O comecinho de janeiro é conhecido por ser uma época com pouca concorrência entre os artistas do gênero, mas exatamente por isso acaba sendo um espaço temporal apropriado para alguns lançamentos definidores durante o resto do ano, rendendo desde sucessos virais a momentos apoteóticos de carreira. Dessa forma, janeiro acabou sendo um mês interessante também para as solistas do K-pop, que geralmente acabam sendo “engolidas” pela grande concorrência com girlbands e boybands durante os outros meses do ano – é só perceber como janeiro recentemente abarcou lançamentos sólidos de artistas como Suzy e Sunmi. Tendo isso em vista, não é de se estranhar que a Chungha tenha aproveitado essa época do ano para voltar com seu lançamento mais bem-acabado até então e que provavelmente vai representar o primeiro ponto de virada da sua carreira, o single “Gotta Go“.

Os lançamentos anteriores da Chungha nunca me agradaram completamente e passam por níveis de produção oscilantes que vão do tropical house genérico de “Why Don’t You Know” à tentativa insatisfatória de hino electropop de “Roller Coaster” e o hit de verão quase porcamente produzido de “Love U” (uma música safadamente feita só pra pegar o hype do verão coreano mesmo). Muito além disso, um elemento negativo é marcante nas faixas da artista: ela SEMPRE canta em tons muito altos e quase esganiçados e isso consegue estragar o potencial de qualquer coisa que ela venha a gravar. Ok, eu entendo que talvez isso seja uma questão de falta de experiência – já que a Chungha é uma pós-ninfetinha de 22 anos que está no mercado há pouco tempo e ainda precisa se encontrar vocal e artisticamente (eu discuti isso aqui) – …mas não dá pra negar que isso é um fator irritante e que de uma forma ou de outra me afasta um pouco do material dela.

Em “Gotta Go” a Chungha não mudou nada: a voz esganiçada continua lá e ela parece que não aprendeu vocalmente muita coisa com os singles anteriores… porém… a música é surpreendentemente decente. Produzida pela dupla Black Eyed Pilseung, especializados em criar canções duvidosas do TWICE e do SISTAR com um tecladinho yamaha e um drum kit baixado no 4shared, “Gotta Go” é um electropop classudo que visa tirar a Chungha de seu passado recente de produções genéricas ensolaradas e a colocar num status de solista mais séria mas ainda assim com capacidade atingir um público abrangente. Abrindo com um synth agudo feito com algum preset básico de teclado (e que soa como uma flauta tirada diretamente daqueles packs de samples usados em funk carioca), a faixa vai se construindo solidamente com versos atmosféricos e depois ganhando batidas meio trap não exatamente super criativas mas que fazem o bom papel de segurar a canção. A música cresce normalmente até dar uma respirada no refrão, que a torna mais suave e dá aquele slow-down que anda virando comum em músicas de solistas coreanas, como em “Blue Moon” da Kyungri (apesar de que nem de longe o slow-down de “Gotta Go” é tão interessante quanto o debut da gata das Nine Muses).

Apesar de começar lento, o refrão dá uma acelerada logo depois em uma construção musical provavelmente feita para render o momento de destaque da coreografia do single (já que, sejamos sinceros, tudo no K-pop é planejado meticulosamente para privilegiar performance de palco). Se formos analisar bem, o refrão funcionando em dois ritmos diferentes é realmente o trunfo da canção: dando uma dimensão ainda mais legal quando a ordem dele é invertida nos minutos finais, transformando a parte rápida em um break e a parte lenta no último refrão de fato. Por outro lado, a letra não é exatamente o destaque aqui e provavelmente representa a parte mais dispensável desse lançamento como um todo, mas descreve de forma simples e relatable um romance atrapalhado por falta de tempo que deixa a Chungha com… uhn… blue lips.

“Gotta Go” pode não ser nenhuma faixa exatamente primorosa – ela ainda repete alguns dos erros que a Chungha já devia ter corrigido há bastante tempo -, mas ao menos ela parece ser o começo de uma movimentação da artista para algum canto. Tudo o que nos resta é torcer para que ela e sua equipe entendam isso e invistam em canções desse nível pra cima… além de um bom treinador vocal, é claro.