TRACK REVIEW: Jolin Tsai – Ugly Beauty

Depois de anos retraída em seu próprio esconderijo, onde se graduava como boleira e confeiteira para suprir suas longas horas de ócio, Jolin Tsai faz o seu tão esperado comeback ao mundo da música com a impactante “Ugly Beauty”. Empenhada em nos mostrar que a espera agoniante pela sua volta valeu à pena, Tsai reuniu produtores de alguns de seus grandes hits como “Play” e o house LGBT-friendly “Fantasy” para nos presentear com um lead single forte o suficiente para se sustentar sem um refrão extremamente marcante, onde ela incorpora um “alter-ego” que combate a hipocrisia da sociedade em não assumir que há sempre dois lados da moeda: o lado feio e o lado bonito do indivíduo. #ATENÇÃO #MILITÂNCIA.

Não é surpresa para ninguém que as músicas de Jolin Tsai sempre acompanham uma mensagem social forte (o que é amplificado pelo fato de que em sua língua natal, o Mandarim, frases longas e com muitos sentidos podem ser encaixadas em construções musicais curtas), e com o lead single de seu novo ciclo não seria diferente: “Ugly Beauty” nos mostra o lado visceral de Tsai, mesclando seus pensamentos obscuros com um heavy bass, os elementos do hip-hop flertando abertamente com o dance pop e uma leve surra de synth. Em um refrão um tanto “desconstruído” onde sua voz dá lugar a efeitos sonoros que emulam beijos ao ouvinte (mwah), a cantora deixa claro que está aberta a experimentar novos arranjos e sair um pouco da caixa-comum de padrões musicais que a música pop asiática sempre traz.

Se no seu antigo hit “Play” ela já flertava com a ideia de batidas frenéticas em destaque na canção no lugar de um refrão “formal”, em “Ugly Beauty” ela leva essa ideia a um novo patamar, com beats sólidos e muito mais bem-produzidos enaltecendo o produto-final da canção. A fórmula do single inclusive é perfeita para que a cantora possa brincar com certas possibilidades até então pouco exploradas em sua música, como o rap no final da canção que possivelmente deixou 2Pac orgulhoso em algum lugar na pós-vida.

Mesmo que já familiar ao hip-hop e ao trap, não é do feitio da cantora deixar que esses sejam os gêneros que sua base de fãs irá ouvir a primeira vez que marca um novo ciclo musical, mas com “Ugly Beauty” isso foi diferente. Representando uma nova faceta, um novo alter-ego, Jolin Tsai através de sua composição junto com Wu Qin Feng – responsável pela famosa “Fantasy” – mostra-se pronta para combater o paradoxo da sociedade, fazendo uma crítica direta ao que ela chama de beleza feia e sua coexistência.(“O bonito e o feio, todos tem sua própria necessidade de existir”).

A jornada da Jolin como artista e pessoa pública em Taiwan e na China definem bem a escolha dessa temática para a canção: assim como qualquer figura midiática feminina, a artista já foi inúmeras vezes zombada e ridicularizada por sua aparência, seja de forma mais “informal”, sendo chamada de “feia” por internautas ou tendo suas performances transformadas em piada na internet, seja de forma “formal” ao ser criticada inúmeras vezes na imprensa asiática por seus looks ou seu corpo, tudo isso é explorado de forma ainda melhor pelas sátiras e escárnios do clipe.

O clipe por sua vez, sendo o mais caro da carreira de Jolin, personifica todos os rumores envolvendo o nome da cantora, ao mesmo tempo que eleva sua persona “feia-bonita” a um patamar para além dos padrões em que está inserida – inclusive nos presenteia com uma ótima versão do single que é até melhor que a versão original. O alicerce cultural e social atribuído a ele é grande o bastante para colocar Jolin como uma das maiores artistas do ano, mesmo que sua aparição em 2018 tenha sido breve – já que estamos na porta de 2019 -, ainda que impactante. A obra visual capta a nudez da música e a mensagem de Tsai em um esquema de cores vívidas, cenários luxuosos e muitas referências ao seu passado. É como se “Ugly Beauty” fosse a versão que deu certo de “Do What U Want” de Lady Gaga – clipe engavetado que não vazou até hoje.

“Ugly Beauty” é provavelmente a faixa de divulgação principal mais nua e crua da cantora até hoje, e ela não anda em círculos quando o quesito é sua mensagem, fazendo questionar qual a relevância dos padrões estéticos da sociedade atual e quem os cria. Sumarizando sua carreira desde “The Great Artist” até o momento em que se encontra, o single parece ser o ápice de suas críticas. Jolin Tsai é um grande ícone de causas sociais em Taiwan, reconhecida por representar seu público LGBT de todas as maneiras, assim como a independência feminina antes mesmo desse tópico virar tendência na música ocidental – o grupo da militância esteve on -, sendo assim, não é surpresa para ninguém que ela queira algo tão grandioso e impactante enquanto artista, usufruindo de seu papel de produtora de conteúdo para levantar questões a uma sociedade que precisa cada vez mais de entretenimento que inspire reflexão.