Anitta estava errada ao decretar o fim dos álbuns no Brasil

Há mais de um ano atrás o pop brasileiro vivia a sua primeira fase de renascimento. Liderados pela garota propaganda do funk carioca e uma drag queen novata cheia de paródias, a música pop nacional mostrava a sua diversidade e uma possível reformulação nos moldes de fazer sucesso. Éramos dominados por uma MPB de singles sertanejos avulsos, com DVD’s ao vivo e sem nenhuma obra de fato a ser trabalhada, e em uma declaração infeliz Anitta mostrou que seu posicionamento enquanto artista não seria diferente: não via sentido em lançar álbuns porque “o povo ouve o que é trabalhado nas rádios”.

O papel de um artista no cenário musical é completamente diferente do que Anitta desejou para sua carreira, ou que ela quis que seu legado fosse. Claro que em seu projeto “Checkmate” – modelo importado dos States feito por outros como Justin Bieber – ela foi revolucionária, ninguém havia feito isso antes no Brasil e a ideia de várias formas de consumo sendo lançadas uma atrás da outra, dentro da era do streaming, foi completamente benéfica, mas em um cenário musical popular brasileiro onde esses lançamentos já eram feitos em várias esferas, não abalar essas estruturas com um modelo novo foi uma oportunidade perdida.

De fato existe um fundo de verdade na fala da nossa nova cantora internacional, mas inferir que o “povo” só ouve o que é “trabalhado nas rádios”, impõe uma visão um tanto elitista em cima da sociedade brasileira. Óbvio que a visão de mercado de Anitta também influenciou bastante nessa decisão, mas o que é ser uma artista se não uma figura cultural que reformula as estruturas do cenário e impõe como vai ser o consumo de música? E também o que há de errado em produzir um álbum enquanto persona mainstream e levar a música até outras pessoas? E menos de um ano depois dessa declaração, Anitta é completamente provada errada por artistas como IZA e Pabllo Vittar.

Vivemos em uma nova era da música pop brasileira, com ajuda de plataformas como Deezer e Spotify – recentemente chegando a 170 milhões de usuários -, qualquer indivíduo monta a sua própria rádio, e no Brasil isso não seria diferente. Enquanto esse serviço de streaming cresce, o número das rádios diminui lentamente, não faz mais sentido taxar o público brasileiro pelas rádios que temos, já que estão entrando para o passado. E mesmo que tenha tentado deixar um impacto e incentivar os outros artistas a continuarem nesse modelo de lançar “só” singles, Anitta só consegue diminuir a longevidade do seu impacto artístico se marcando como uma máquina de fazer hits – e vamos ser sinceros que em meio a tantas polêmicas, essa máquina pode estar mostrando um péssimo funcionamento aos poucos.

Enquanto tivemos lançamentos sólidos como “Dona de Mim” e o “Não Para Não”, álbuns que foram extremamente bem sucedidos e o primeiro indicado ao Grammy Latino, Anitta continuou insistindo em sua fórmula de lançar “hits atrás de hits”. “Medicina” e “Indecente” não foram tão bem sucedidos quanto “Paradinha” e “Vai Malandra”, marcando um desgaste muito claro na fórmula quase elitista da cantora. Mesmo que com números muito bons para a sua carreira, essas músicas não tiveram grande impacto cultural quanto as lançadas no começo dessa trajetória de músicas avulsas.

Artistas que estão pouco a pouco redefinindo as barreiras culturais de como devemos estar consumindo música, ou como queremos que nossos artistas sejam, recebem em troca grande admiração. “Dona de Mim” já acumula mais de 56 milhões de streams apenas no Spotify, enquanto o “Não Para Não” de Pabllo Vittar, é o álbum mais ouvido desse ano em sua primeira semana de lançamento. É importante que tenhamos esses trabalhos para dar mais visibilidade a quem quebra paredes para lançar sua arte – mesmo que ela seja mainstream -, e dar continuidade ao renascimento do pop brasileiro.

Não há dúvidas que esse renascimento também deve bastante aos projeto “Checkmate” de Anitta, mas até a própria cantora percebe um desgastamento de sua fórmula. Sua nova empreitada internacional foi lançar um “EP” com três músicas (Solo) em línguas diferentes – “Goals”, “Não Perco Meu Tempo” e “Veneno” -, uma flertada com a ideia de lançar álbuns logo depois do sucesso dos dois citados mais cedo. Lógico que não seria a primeira vez que ela lançaria um disco, “Bang!”, “Ritmo Perfeito” e “Anitta” foram primeiríssimos álbuns pop na sua carreira, na transição entre o funk e o ritmo que canta hoje em dia, mas na época em que foram lançados não existia essa demanda por novos trabalhos que falem com o ouvinte de forma íntima.

O modo de consumir músicas do povo brasileiro mudou, e havia mudado mesmo na época em que Anitta deu sua declaração. Talvez seus álbuns não tenham sido tão bem sucedidos em suas respectivas datas por questões qualitativas, talvez Anitta realmente queira se marcar por uma cantora que lança hits atrás de hits, desgastando seu nome e o ritmo “latino” que ela ajuda a popularizar no país, mas uma coisa é fato: por inferir que o “povo” não escuta álbuns, a cantora foi um tanto elitista.

O cenário pop brasileiro continua crescendo cada vez mais, a cena independente começa a surgir com mais força e a indústria fonográfica é a que mais cresce no país, graças ao Spotify não estamos presos a uma hierarquia das rádios, o cidadão brasileiro consegue desfrutar muito bem de grandes músicas escondidas dentro de um pacote musical com autoria de qualquer artista. Cabe aos artistas levar essa arte à outras camadas da sociedade.