Aquaman é versão subaquática de Indiana Jones e Star Wars

Nas profundezas do universo cinematográfico da DC, um novo herói ressurge. “Aquaman” não é qualquer filme de super-herói de quadrinho, muito menos um dos filmes que fracassou em seu propósito, pelo contrário, James Wan nos dá um banho de narrativas frescas e emotivas, com uma avassaladora construção de mundo marcando uma nova era para a empresa: a fase de novas caras. Sem “Batman” ou “Superman”, Aquaman (Jason Momoa) brilha como um herói maior que um rei, em um filme onde o sci-fi e a fantasia épica se entrelaçam, provando que a DC ainda tem muito a oferecer.

Fruto de um cruzamento de destinos improváveis, Arthur Curry (Jason Momoa) é meio homem, meio atlante que pode ser a única esperança para unir o povo da terra e do mar mais uma vez. Mas será que ele é o verdadeiro herdeiro? “Aquaman”, o seu nome de herói, é posto à prova todo segundo quando sai em uma jornada de auto aceitação e desafios, tentando impedir com que mais catástrofes naturais – o que é revelado como “vingança” do povo do mar ao povo da terra – de acontecerem. O herói dos sete mares também descobre que não chega a lugar algum sozinho, quando Mera (Amber Heard) o auxilia na mesma jornada que definirá o futuro do seu povo.

Sendo o primeiro filme do universo que se passa nos dias atuais após as catástrofes de “Liga da Justiça (Joss Whedon)” – e o filme por si só sendo uma catástrofe -, James Wan consegue fazer um ótimo trabalho ao sintetizar seu possível brainstorming de referências sem parecer uma grande bagunça. “Aquaman” tem claras influências do histórico de terror de James Wan no seu roteiro, mesmo que por um livro do H.P. Lovecraft ou pelas poucas cenas simulativas de um “Jump Scare”, mas isso também não impediu que o filme tivesse outras camadas que dialogam mais diretamente com seu público-alvo. O primeiro filme de Wan no universo da DC fez maravilhas, construiu uma fantasia tão extensa e épica cujo único equivalente seria os próprios sete mares.

A mitologia de “Aquaman” também não deixa a desejar. A história central intervém em tantos ambientes que é impossível sua curiosidade não se formar ao redor de vários outros. Com o filme mergulhamos de cabeça no laço tão forte que nosso personagem principal tenta negar, com sua mãe – interpretada por uma Nicole Kidman impecável – e por assim com o mar. Para além disso, esse aspecto mestiço coloca em pauta discussões políticas existentes não só nos Estados Unidos, como em todo mundo.

“Aquaman” não é apenas um show de ação e aventura deslumbrante, existe uma mensagem política que James Wan – diretor de cinema malaio – fez questão de não esconder nas profundezas do mar: uma grande necessidade de falar sobre mestiços e imigrantes. O destino de Atlântida recai nas mãos de um herdeiro cujo sangue não é “puro”, a xenofobia que é praticada em muitos momentos pode soar como algo sem respaldo, mas as metáforas do cinema sempre existiram para levantar debates, e essa não seria diferente já que afeta diretamente as dúvidas pessoais do herói – de ser “válido”, de ser “nobre” e de ser “querido”.

A xenofobia não é a única pauta em questão. James Wan não poderia deixar de abordar a poluição humana feita diariamente, sendo incrivelmente trabalhada como um incentivo para a grande ambiguidade levantada nessas duas horas de filme: os vilões de Aquaman. Seguindo o que já pode ser chamado de um certo “padrão”, o filme mostra dois vilões que fazem paralelos certeiros para o paradoxo do nosso herói. Enquanto um age na terra plana, outro está trabalhando nas profundezas oceânicas. Dessa forma, James Wan consegue colocar camadas diferentes em cada um, pois ambos são justificados pelos erros que Arthur tem ou pelo histórico familiar deles. Mestre do Oceano (Patrick Wilson) consegue capturar exatamente os sentimentos conflituosos de Arthur sobre pertencer ou não nessa vida marítima que ele tem. Enquanto Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II) tem a dosagem perfeita de vilania vingativa, ao mesmo tempo que normaliza atores negros interpretando vilões – uma vez que ele é justificado o tempo todo. Juntos formam o par de vilões mais bem trabalhados do universo DC até então.

E isso é apenas a superfície da vasta bagagem de acontecimentos no filme. A personagem de Amber Heard é quase que um guia para Arthur (Jason Mamoa), assim como a relação maternal com Atlanna é central para o seu comportamento. Mera (Amber Heard) inverte os papéis de dama em perigo, salvando o herói de diversas situações, ela é a cabeça de tudo e tem grande participação nos eventos que acontecem. Mas não de uma forma que ela seja tratada apenas como fusível para a história seguir, muito pelo contrário, ela faz a ação direta do filme. Assim como o laço forte entre Arthur e a sua mãe é revisitado diversas vezes. Por crescer boa parte da vida sem ela, sua negação para com a “profecia” do seu “destino” é apresentada em camadas diferentes e todas derivam dessa infância perdida com a sua mãe, ele aprende a lidar com a dor da perda dessa figura em uma jornada mitológica.

James Wan chega como uma tsunami na franquia da DC. Suas referências são certeiras, não são idênticas mas sim transformadas junto com uma característica própria do diretor, por sua vez criando cenas de fantasia épica, onde a grandeza de tudo realmente funciona mesmo não tendo um enredo sobre “salvar o mundo”. Seu cartel de referências vai de “Star Wars” e “Tubarão”, à “Indiana Jones” e “Pinóquio”, sem perder seu ponto e se pondo originalmente em sua marca visual: um filme debaixo d’água que trabalha seus elementos ao redor disso.

Por essas grandes narrativas de novos super-heróis, nos afastando do circuito Marvel ou Batman-Superman, é que “Aquaman” se faz bem sucedido. Inesperadamente sua história vai presentear o espectador com uma extensa mitologia e um mundo futurístico debaixo d’água. O lançamento desse filme só prova o que já era esperado, “Mulher-Maravilha (2017)” e “Aquaman” lideram uma nova era de super heróis que nunca tiveram suas histórias contadas no cinema antes. O filme de James Wan, “Aquaman”, estreia dia 13 nos cinemas de todo Brasil.