O Ódio Que Você Semeia: a adaptação de uma sociedade colérica.

Com roteiro baseado em livro homônimo de Angie Davis, “O Ódio que Você Semeia” é retrato avassalador da sociedade americana. Em o que de início parece mais um coming of age adolescente, o longa flui em ritmo de suspense com traços de ação. Starr (Amandla Stenberg), é testemunha de um crime, seu melhor amigo Khalil (Algee Smith) é assassinado por um policial branco. O drama se desenvolve a partir do olhar da adolescente que agora tem que lidar com a perda e lutar por justiça.

A personagem vive uma crise de identidade, onde se divide entre morar em um bairro pobre da periferia e estudar numa escola de elite branca. Fonte de racismo velado, Starr sente que não pode ser ela mesmo naquele ambiente cheio de brancos bem intencionados, mas privilegiados, que acreditam que ouvir rap, usar gírias e comer frango frito o tornam “negros de alma”. Seu namorado branco, Chris (K. J. Appa) é o bom moço que todos sonham, apesar de atuação nem um pouco memorável. O fato de ter que lidar com problemas pessoais e ainda decidir se deve ser testemunha em júri do crime que presenciou levam-na ao limite.

Apesar de ter tudo para ser melodramático demais, o longa consegue se equilibrar bem. A família é muito bem construída em personalidade e traz fôlego e alívio cômico em momentos de tensão, mas a violência e seriedade sempre estão em segundo plano, mesmo quando parece está tudo bem. O filme parece querer atingir um público mais jovem e consegue não cair em vícios do gênero.

Com trabalhos não tão significativos como “Rápida Vingança” (2010) o diretor George Tillman Jr. atinge um ponto alto na carreira com uma produção necessária e importante em tempos de Black Lives Matter e #MeToo. O elenco composto por atores negros de calibre dá o tom do recado, com destaque para a própria protagonista, que realiza belíssimo trabalho, assim como Russell Hornsby e Regina Hall.

A fotografia não deixa escapar a diferença de um mundo para outro na visão de Starr, que alterna entre tons saturados e frios em cada locação. Com narração em off o filme cai no didatismo narrativo, deixando claro a intenção de ser o mais acessível possível, sem espaços para interpretações. O que tem pra ser dito e mostrado é mais importante do que a obra em si.

O cinema que funciona como objeto social é importante a medida que seu discurso consegue chegar a todos, o filme segue o propósito muito bem e figura na lista de produções notáveis do ano como “Infiltrado Na Klan” de Spike Lee e “As Viúvas” de Steve McQueen, todos diretores negros, ocupantes de cadeira em Hollywood, que tem muito a dizer enquanto houverem Trumps por aí.