TRACK REVIEW: Grimes – We Appreciate Power (feat. HANA)

Sabe aquela sua amiga otaka que se interessava por Hentai e animes de luta pra impressionar os garotos e que eventualmente teve uma fase Wicca durante a adolescência? Bom, ela aprendeu a usar o FL Studio e hoje em dia atende pelo nome de Grimes. E a Grimes é uma força no mercado alternativo: ela suprime tanto a necessidade do público LGBT por mais uma “diva indie” (risos) quanto a necessidade do público underground por uma artista feminina aclamada por seus flertes musicais com a música experimental. Se bem que no fundo eu acho que a própria Grimes não almeja nenhuma dessas duas coisas.

Depois de experienciar camadas e estruturas musicais relativamente mais alinhadas à música pop em seu último álbum, o Art Angels, o que se poderia esperar da gata era exatamente uma abertura ainda maior de seu trabalho às estéticas e sonoridades do mainstream, mesmo que isso ainda viesse com um pouquinho da identidade quirky que ela sempre teve. Mas bem, em “We Appreciate Power” a Grimes prova que a gente andava bem enganado: a música ainda mantém alguns dos elementos eletrônicos comuns ao catálogo da artista, mas agora dá uma guinada sonora que mira sem muita vergonha o som rígido e barulhento do rock industrial. O synth está morto.

Passado o susto inicial, é perceptível que esse gênero não lá muito convidativo contribui para que “We Appreciate Power” funcione: a canção é uma trip provocativa e irônica sobre domínio político e inteligência artificial que cria uma narrativa muito inspirada por obras distópicas e cyberpunk… e bom, nenhum som é melhor para emular as sensações de opressão e hipertecnologia típicos do cyberpunk do quê as guitarras abrasivas e baterias cruas e metálicas do rock industrial. Com base nesse instrumental distorcido e que incorpora não só guitarras mas também elementos eletrônicos aqui e ali (como os gritinhos de fundo herdados de “SCREAM” do Art Angels), a Grimes cria toda uma composição que não é exatamente pop, mas que ainda exibe um nível enorme de catchiness, englobando passagens que emulam discursos de poder, divagações poéticas e diversos momentos tensos que levam a musicalidade da gata a terrenos inexplorados.

É estranho adentrar ao universo criado pela letra de “We Aprreciate Power” sem achá-lo ao menos duvidoso: o que é ironia, o que é narrativa ficcional e o que é a vontade da própria Grimes no meio disso tudo? A própria artista credita a inspiração para a letra à Moranbong Band, um girlgroup norte-coreano que funciona como instrumento de propaganda do governo de Kim Jong-Un, sendo quase uma fusão totalitarista do Girls’ Generation com as Wonder Girls (é sério). Nesse caso, a Grimes escreve da perspectiva de sua própria girlband propagandista do futuro, que funciona para ela como instrumento de divulgação não de um estado totalitário, mas sim de um avanço totalitário da tecnologia e inteligência artificial – que estão cada dia mais iminentes e só precisam da cooperação do governo para atingirem seus objetivos de dominação global.

É tudo tão interessante quanto desconcertante, parecendo em alguns momentos que a letra realmente faz uma alusão bem desmedida ao totalitarismo e opressão… mas como levar à sério uma faixa cujo refrão literalmente fala “elevar a raça humana colocando maquiagem no meu rosto”? Pois é. De qualquer forma a criação de uma narrativa cyberpunk aqui é bem sucedida em vários aspectos, se consolidando quase uma evolução mais pop e pós-moderna de outros momentos narrativos musicais pautados por paranoia governamental e especulação tecnológica, como “Monitor” do Siouxsie and the Banshees.

Ah é, a HANA participa do single mas não se sobressai exatamente nele até pelo menos o terceiro minuto de rotação da faixa. A participação dela é inclusive pontuada por tretas de bastidores e muuuuita rivalidade feminina, visto que a colaboração inicial de “We Aprreciate Power” seria nada menos que a youtuber e ocasional cantora Poppy – mas isso é questão pra outro momento. Com os visuais certos (e que já foram semi-apresentados num lyric video), a música pode atingir com ainda mais afinco os seus objetivos de storytelling: resta saber se todo esse universo tecnologicamente fascistinha vai ser ampliado nas outras faixas do próximo álbum da Grimes… quem sabe dessa vez com a surra de synth que nós gays merecemos.