TRACK REVIEW: Rina Sawayama – Flicker

Em uma trajetória que tangencia os padrões convencionais da indústria musical, Rina Sawayama se firma cada vez mais em seu próprio elemento. Seu pop clássico trazendo os anos 2000 à atualidade não para de evoluir, tomando formas diferentes resultando em uma sonoridade viva, e cheia de camadas para cada música lançada. Com “Flicker” esse padrão não seria diferente. O single sucessor de “Cherry” nos presenteia com um feeling estrutural clássico, com versos mais calmos e um refrão “pulsante”, ambos sustentando uma mensagem forte embalada por guitarras distorcidas e sintetizadores 8-bit que nos transportam diretamente para as OSTs de jogos do Super Nintendo ou Mega Drive – tudo isso enquanto a Rina grita frases que tornam “Flicker” um verdadeiro hino de autoafirmação.

O que seria o segundo single do álbum de estreia da cantora – previsto para sair no próximo ano (2019) se ela não skyferreirizar – é uma canção pop imediata de autoconhecimento, orgulho próprio e estabelecimento em seu status quo. Com produção assinada por Clarence Clarity – produtor já familiar aos trabalhos da cantora -, “Flicker”, apesar de ter um som levemente dissonante das canções antigas da Rina, ainda traz aquele humor nostálgico, iluminado e pungente que permeia a maioria das faixas da artista (especialmente após o seu primeiro EP), dando destaque ao estilo vocal da artista que flutua entre camadas mais ásperas ou mais doces.

Chamando todos os mal interpretados, os renegados e aqueles que não se encaixam muito bem em qualquer lugar ou não se sentem representados por aquilo que a mídia costuma apresentar, Rina criou um manifesto para confortar as pessoas que são acostumadas a se sentirem inapropriadas. “Quando as pessoas da TV/ Elas todas parecem as mesmas / Eu sei que eu posso / Posso fazer melhor que elas”, ela canta em um pré-refrão que constrói todo o clima uplifting da mensagem que ela quer passar: um refrão grudento e cativante onde ela celebra a diversidade e o aspecto de ser diferente. É meio que uma versão antêmica e relatable e não-raivosa do icônico discurso da glorificação da diferença da Lu Schievano (mentira).

Hinos de autoaceitação são criados todos os dias, mas eles geralmente tendem a usar uma dialética que é somente concessiva. “Você é lindo / não importa o que eles digam”, “Você é lindo do seu jeito / Porque deus não comete erros”, “Se você se sentir como se não fosse nada / Você é perfeito pra caralho pra mim” – canções como essas dificilmente abraçam totalmente a diferença, eles só aceitam a diferença e meramente exprimem uma mensagem clichê de que não há nada de errado com ela, tudo em prol de tornar a mensagem mais “universal” e inofensiva. No caso de “Flicker”, o incomum e o diferente são celebrados como fatores essenciais e que merecem ser enaltecidos muito mais do que apenas aturados. Talvez esse seja o aspecto mais importante do single, já que ele joga totalmente pra escanteio as definições hipócritas de aceitação das diferenças e brada a plenos pulmões que ser diferente não é só plausível, ser diferente é tudoãnnnn.

Mergulhada em um mercado de incertezas, a artista acha forças no seu próprio nome (“Quando você está mal, se sentindo para baixo / Só lembre do seu nome”), sua origem e sua experiência pessoal para se autoafirmar. Quem conhece a Rina há algum tempo sabe que essas questões remontam diretamente à trajetória dela na indústria musical, onde a gata nippo-britânica se sente uma “outsider” por sua origem asiática – especialmente diante de um público ocidental que, sem grandes rodeios, é bastante xenofóbico e possui uma resistência enorme em lidar com personalidades, estéticas e origens que não estejam nos moldes americanizados ou europeus que eles já estão acostumados. Rina felizmente traduz tudo isso em uma canção pop/rock que só adiciona ainda mais à sua trajetória de autoaceitação (“Cherry” era um single onde a cantora cantava sobre sua bisexualidade), criando um clima de coesão em seus lançamentos até então e também um material emblemático e que demarca muito bem a sua identidade artística.

Os riffs de guitarra no refrão da música – e que às vezes remontam um pouco dos refrões antêmicos de aberturas de anime – criam o ápice necessário para a faixa ser tão grande como ela é. A repetição de Rina suplicando ao seu ouvinte para que ele se lembre do seu nome, gruda na cabeça de uma forma explicitamente subliminar ao ponto da mensagem de aceitação ressonar ao mesmo tempo em que a música pop serve seu propósito: ser um grande hit com uma lição por trás. “Flicker” é uma mensagem de resistência social tão grande que fica ao lado de “Hair”, música de Lady Gaga, quando o objetivo é reunir grupos marginalizados por características próprias. Ambas marcham na sua própria liga musical, criando conteúdos sonoros retrôs traduzidos para uma abordagem mais contemporânea.

O glitch pop de Clarence Clarity desfaz sua união com o r&b dos anos 2000, até então uma marca sonora de Rina Sawayama, para criar um som que ao mesmo tempo que seja diferente sem apagar a originalidade da cantora. Como twist instrumental interessante, a faixa incorpora as batidas rápidas do Miami Bass, ritmo que recentemente sempre rende bons momentos na música alternativa como em “Rewind” da Kelela. Para fãs de música como “Alterlife” e “10-20-40” – ambas produzidas por Clarity -, “Flicker” vai soar como algo novo. O glitch-pop da música transita magistralmente entre gêneros para criar um feeling retrô mais consistente, dialogando com sua antecessora “Cherry” e dando as bases para um futuro musical promissor da artista (quem sabe com um álbum de estreia fresquinho ainda no início do ano que vem).