BICHAFORK: Mariah Carey – Caution

Quando Mariah Carey abriu a boca pela primeira vez na televisão americana em 1990, com o debut single Vision of Love ninguém imaginaria uma carreira que sobreviveria por vinte e oito anos. A skinny girl quase adolescente, bela, recatada e do lar (lar do Tommy Mottola, é claro) dominou a década de 90 como ninguém. Não há nada que Mariah não tenha feito até o início do novo milênio, a não ser um breakdown emocional e maior flop da história, que rendeu essa semana uma campanha dos fãs (#justiceforGlitter) levando a soundtrack ao topo do ITunes nos EUA. A cantora retorna ao cenário musical com seu 15° álbum de estúdio, Caution, que talvez seja o seu melhor trabalho desde The Emancipation of Mimi em meados de 2005.

Longe de apenas um anseio por sucesso, o disco pede cautela para uma Mariah que ainda tem muitos “get the f**ck out” a dizer. A faixa de abertura, “GTFO”, é uma balada sexy de um R&B antigo para os poucos remanescentes de uma festa regada a muito vinho. “WITH YOU” já é uma balada com mais corpo e força de uma We Belong Together mais madura para convergir em “CAUTION”. A faixa título é o que Mariah sabe fazer de melhor, muitos melismas e runs, com um gostinho de dançante, mas não chega a tanto.

Conhecida também por, desde Butterfly (1997), mesclar o Hip Hop e rap em suas composições, o álbum conta com parcerias que dão muito certo. A açucarada “A NO NO” é a mais divertida do projeto e intensifica uma tendência que vai se repetir na ótima “THE DISTANCE”. Com participação de Ty Dollar $ign, é difícil acreditar que tenha sido a primeira colaboração de ambos. A química é admirável em uma canção que tinha tudo para ser lead-single, projetando o álbum e a própria Mariah para o contexto pop atual.

De todos os trabalhos mais atuais da cantora esse é o menos nostálgico. E que bom. Finalmente estamos diante de uma Mariah, que sem arriscar vai pela zona de conforto em o que parece ser seu álbum mais honesto em 13 anos. A longuíssima “GIVING ME LIFE” traz elementos quase latinos em um R&B morno, mais uma vez é natural a presença de Slick Rick e Blood Orange. “ONE MO’GEN” retoma a suavidez de um sexo divertido. “8TH GRADE” é a que mais parece com tudo que ela já fez, mas os ótimos vocais agradam os fãs loucos por uns whistles registers.

Em “STAY LONG LOVE YOU”, Mariah e Gunna embarcam em uma trip gostosinha de batidas sensuais que tem tudo pra entrar nas playlists de sexo por aí. O álbum de dez faixas fecha com “PORTRAIT”, a mais intimista, repetindo a dose de baladas melancólicas que só uma cantora com material de muitos relacionamentos conturbados pode fazer.

Para um 15° álbum de uma carreira já consolidada, é impossível evitar a comparação com o que Mariah Carey já fez. Mas o fato é que ela continua fazendo, e muito, para a indústria musical. Ser relevante por quase trinta anos não é tarefa fácil, ou se cai no reflexo do passado ou se inova numa receita perigosa de fracasso. Mariah já experimentou os dois e hoje se apresenta como uma cantora, compositora e produtora trabalhando naquilo que parece acreditar, fazendo música sem muitas pretensões. Que bom que ainda temos Mariah para poder dizer #justiceforMariah.


Mariah Carey, “Caution” (2018)

Gêneros: r&b, hip-hop, pop

Destaques: GIVING ME LIFE, CAUTION, A NO NO

Nota: 8.3