TRACK REVIEW: EXID – I LOVE YOU

A trajetória do EXID no K-pop é uma das coisas mais estranhas que já aconteceu com um girlgroup “mainstream” desse nicho: as garotas já foram do ostracismo ao sucesso (astronômico ou moderado), sempre rendendo um material às vezes muito bom e às vezes muito genérico: nunca um meio-termo. Essa variedade de qualidade também trouxe uma variedade de sonoridades no catálogo das garotas – aventuras sonoras que, com o tempo, foram filtradas e lapidadas pelo Shinsadong Tiger no intuito de se conseguir algo próximo de um som próprio do grupo, o que começou a tomar forma principalmente após o terceiro mini-álbum do quinteto, “Eclipse”.

Sintetizadores retrô, baterias reminiscentes do hip-hop dos anos 80 e um humor “funky” nos versos (que é geralmente substituído por um tom mais melódico e impactante nos refrões) é a receita de bolo básica dos singles mais recentes do EXID, e em “I LOVE YOU” elas já estão confortáveis o suficiente com esses elementos para levá-los a um novo nível, com experimentações que tornam a experiência da canção uma das mais interessantes do grupo até então.

Abrindo com um beat infeccioso e um sample vocal que provavelmente deve ser a coisa mais facilmente grudenta que o K-pop já rendeu esse ano (o “I love you like likelikelikelikelikelike” é simplesmente impossível de tirar da cabeça mesmo depois de uma só ouvida), a faixa segue um pouco os padrões normais de distribuição de linhas do grupo, com Hani e JungHwa entoando os primeiros versos e depois sendo atropeladas por um rap da LE (que nesse caso nem é tão interessante ou abrasivo como os esforços anteriores dela nessa área em “Up & Down” ou “DDD”, mas a gente aceita).

Naturalmente “I LOVE YOU” evolui para um refrão dramático mas iluminado, com sintetizadores super agudos e sininhos oitentistas abraçando os vocais quase estridentes (talvez até demais) da Hyerin e Solji – a última agora definitivamente reintegrada ao grupo após um hiato que parecia inacabável. A letra fica no meio termo entre ser histriônica e abraçar esse drama lançado pelo refrão ou ser mais sutil e contemplativa nos versos, que se utilizam de um jogo de comparação entre o interesse amoroso expresso na letra com uma série de sabores e sensações.

O aspecto de experimentação da música vem no segundo verso, onde o instrumental dá uma volta de 180 graus e vira um deep house lânguido e noturno, culminando também em um tom mais assertivo das garotas na letra, saindo do âmbito contemplativo e tomando uma atitude mais incisiva (felizmente pois a gente já anda um pouquinho cansado de letras de girlbands cheio de tom passivo e comedido).

Estranhamente o K-pop já chegou em um ponto em que essas mudanças bruscas de ritmos em uma só música são mais que aceitáveis (um mérito das finadas Girls’ Generation até), e isso é algo em que o EXID já se aventurou com resultados mistos – a variação de ritmos funcionou em “Up & Down”, começou a capengar em “Ah Yeah” e atingiu o fundo do poço em “DDD”, onde as partes instrumentais dos versos e refrões não se encaixam como deviam. Nesse sentido, a escolha de colocar a variação de ritmo de “I LOVE YOU” restrita a apenas um trecho bem específico contribui para que a fluidez da música não seja quebrada, mas sem perder a dinâmica que uma faixa de K-pop necessita.

Esse single é, para todos os efeitos, uma continuação daquilo que as garotas haviam feito em “Lady”, mas agora com uma proposta menos nostálgica e mais alinhada às dinâmicas da música atual, além de uma estrutura que remete diretamente aos hits clássicos do grupo. Ah, e em se tratando de K-pop, a certeza é a de que as estéticas impecáveis do clipe deixam a música ainda melhor.