Festival do Rio 2018: 'Faca no Coração' é uma fantasia pornô gay mesclada com suspense italiano

Em uma metrópole quente e úmida, onde as luzes neon se sobressaem à sensualidade constante, assassinatos e surrealismo são mesclados em um ritual pornô estrelado por Vanessa Paradis (sim, ela mesma da versão original de “Vou De Táxi”) e embalado por uma trilha sonora pulsante assinada pelo M83: essa é a receita de “Faca no Coração”, segundo longa metragem do diretor francês Yann Gonzalez e um dos concorrentes à Palma de Ouro em Cannes esse ano. Tendo uma proposta bastante diferente de “Os Encontros da Meia-Noite”, esforço anterior do diretor, “Faca no Coração” capta perfeitamente essência dos filmes setentistas em um thriller cativante, onde as expressões criativas de uma diretora de pornô gay podem ser consideradas quase uma metalinguagem para o surrealismo de Gonzalez – que faz uma homenagem insana e kitsch aos filmes de suspense policial italianos.

Tomando o verão de 1979 em Paris como cenário, o longa nos apresenta de cara a uma série de crimes brutais: os integrantes de uma produtora de filmes pornô gays começam a ser misteriosamente assassinados um a um. Anne Parèze (Vanessa Paradis) é a diretora dos filmes, e acaba ficando automaticamente incumbida de caçar o assassino diante de uma investigação infrutífera pela apática polícia parisiense. Muito além da tensão sobre os crimes, Anne também vivencia um turbilhão emocional após o término do relacionamento de 10 anos com a sua editora, Löis (Kate Moran) – e a partir daí, vendo o interesse da ex-parceira em seus filmes, Anne decide ganhar seu coração de volta, unindo-se ao seu parceiro criativo Archibald (Nicolas Maury) para criar sua obra cinematográfica pornô mais ousada até então.

Yann Gonzalez vai fundo em sua pesquisa dos pornôs nos anos 70. Seus cenários e produções tangenciam do mesmo instinto “brega” derivado das obras dessa época, levando em consideração que a década de 70 foi o auge da indústria pornográfica para cinema (tanto hétero quanto gay) e fomentou a maioria dos fetiches que são populares nos filmes pornôs até os dias de hoje. Com ajuda de elementos apropriados para a comunidade gay da época (BDSM; shortinhos curtos; etc) e referências que vão de Peter Berlin a Peter de Rome, o diretor faz questão de focar nos bastidores de uma indústria que, apesar de seu tom promissor, funciona de forma capenga e muitas vezes baseada no improviso. Isso é passado principalmente pela forma de trabalho da protagonista, que lida com os vários detalhes mínimos de suas produções eróticas por conta própria, se envolvendo firmemente nos filmes e até aliciando garotos para a profissão de ator pornô. Anne aliás possui uma relação dual com os outros profissionais da produtora, indo da afeição à tirania no set, o que rende uma ambiguidade de sentimentos no filme quando já não entendemos se a personagem quer resolver os crimes ou simplesmente se aproveitar cinematograficamente deles.

Enquanto as cenas “pornográficas” de “Faca no Coração” não são exatamente tão gráficas – bem mais gráficas que “Boogie Nights”, por exemplo, mas não chegando ao nível explícito de um “Super 8 ½” do Bruce LaBruce -, não podemos dizer o mesmo de suas mortes. Gonzalez faz questão de instaurar um desconforto imagético provido do “gore” durante as cenas de assassinato, onde mostra a arma do crime, a “faca”, perfurando friamente corpos masculinos jovens em locais muito mais imaginativos que o coração sugerido no título. Mas não se engane: todas as mortes de “Faca no Coração” provém de uma beleza estética imensurável, são pinturas bem calculadas e montadas, onde disputam espaço com uma sequência agoniante minutos antes de acontecerem. O sangue, o dildo com lâmina escondida que serve de apetrecho criminal e as luzes neon synthwave, criam uma sensação atmosférica de um grande terror provido de um humor trágico, muitas vezes extraindo risadas de situações constrangedoras.

As mortes e parte da atmosfera do filme são diretamente inspiradas pelo gênero cinematográfico italiano “Giallo”, que surgiu na literatura como um gênero policial e depois se moveu para os filmes, onde rendeu clássicos como “A Maldição do Demônio”, “Prelúdio para Matar”, “Inverno de Sangue em Veneza” e “Suspiria” (o Dario Argento aliás é um dos grandes nomes do Giallo). O gênero ficou conhecido por suas sequências de assassinatos geralmente comandados por um único assassino de luvas pretas, unindo isso ao erotismo, arrojo visual e forte terror psicológico, o que influenciou diretamente outro gênero popular do terror, o “Slasher”. Com “Faca no Coração”, Gonzalez tenta subverter o Giallo para um contexto bem mais homoerótico, trocando as beldades femininas perseguidas nos filmes italianos por beldades masculinas, fazendo do filme quase um grande fetiche gay cinematográfico violento em si. Para alicerçar esse homenagem temática, a narrativa brinca com tons surreais que remetem muito diretamente aos esforços recentes de outros diretores prolíficos do cinema queer, como Alain Guiraudie e João Pedro Rodrigues.

Além disso, o humor constrangedor de “Faca no Coração” só pode nos remeter a uma coisa: os trabalhos de David Lynch. O longa não se parece com a obra do Lynch apenas pela presença de seu surrealismo cinematográfico, mas também pela forma como ele consegue fazer sua audiência rir em momentos que seriam considerados socialmente constrangedores ou inadequados. É como se “Twin Peaks”, série mais famosa de David Lynch, fosse uma das referências artísticas e narrativas que Gonzalez tomou ao longo de seu processo criativo, bebendo muito dos elementos absurdistas e da atmosfera misteriosa fortemente característicos nos episódios da série americana. A sensualidade latente e o aspecto desconfortável do filme também remetem a “De Olhos Bem Fechados” de Stanley Kubrick, o que dá uma ideia de que “Faca no Coração” poderia ter sido facilmente parido por Kubrick e Lynch em conjunto, mas sem perder a originalidade e poder criativo que Gonzalez já demonstra desde “Os Encontros da Meia-Noite”.

Talvez o maior defeito do filme seja como o diretor idealiza as personagens femininas centrais a partir de um olhar inadvertidamente gay – Anne e Löis não são apenas cineastas lésbicas, elas são divas pop com visuais altamente arrojados pontuados por sobretudos de couro brilhante, saltos plataforma e adereços neon. Ao mesmo tempo, Gonzalez pelo menos busca um entendimento e validação do meio lésbico como algo palpável, o que é notável ao nos depararmos com um dos cenários mais interessantes do longa: um bar lésbico onde Anne vai para esquecer Löis e que dá toda uma dimensão de que a comunidade lésbica não é isolada e que possui um senso forte de existência.

Apesar dessas questões, “Faca no Coração” nos apresenta a uma Paris “refrescante” com personagens únicos, providos de características e personalidades que conseguem convencer num curto espaço de tempo, criando adições para o grupo principal ao longo de sua duração ao ponto de que você sente o que todos sentem. O diretor também escreve seus objetos com uma complexidade admirável. Nossa personagem principal consegue ser vítima, vilã e heroína em questão de minutos, onde seus atos são duvidosos, mas, uma vez que ela envolve o telespectador na sua narrativa, não há escapatória.

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