Festival do Rio 2018: Com ares de caricatura, ‘Domingo' é retrato de uma classe média decadente

Drama familiar, comédia, tensão, sexo, gravidez, álcool, cocaína e poder. Domingo a certo modo se assemelha a Festa de Família (1998) de Vinterberg, mas vai além ao trazer para o seio das questões familiares discussões políticas. No dia 1° de janeiro de 2003, quarta-feira (ué, mas não era domingo), uma família do Rio Grande do Sul se reúne no ano novo para um churrasco. Luiz Inácio Lula da Silva toma posse no mesmo dia como Presidente da República. O casarão, no interior do estado, caindo aos pedaços sugere uma certa importância com sua quadra de tênis, uma lancha, algumas taças de cristal e, claro, os empregados. A festa começa quando Laura (Ítala Nandi), a matriarca da família, chega a casa na qual sempre reconheceu como dela. Embora seja certa a decadência da personagem não perde a pose de seu status social.

O diretor de Gabriel e a Montanha (2017) e Casa Grande (2015), Fellipe Barbosa retorna à crônica social, dessa vez com a cineasta Clara Linhart. A parceria alavanca um dos melhores filmes do ano, com uma trama rica, atual e interpretações impecáveis. Bete (Camila Morgado) merece destaque por sua naturalidade em cena, que traz muitas vezes o alívio cômico necessário, sendo uma mulher desestabilizada pelo álcool, cocaína e o meio familiar a qual está inserida. Além dos demais personagens que realizam um trabalho único, difícil de ser comparado. Ainda que a figura interessante de Mauro (Chay Suede), poderia ter sido melhor explorada.

A maioria das cenas são gravadas em planos de conjunto, dando uma certa simultaneidade das ações, criando um longa de muitas protagonistas. Cabe aqui encarar o fato do cinema ocorrer dentro e fora do quadro. A pluralidade do filme se manifesta nesse sentido. A casa está sempre em movimento, personagens se esbarram com facilidade, a câmera ora num tripé registrando tudo, ora na mão pronta a revelar uma situação constrangedora. Preciosidades são encontradas, como cenas de sexo grotescas.

A beleza do gesto do filme se encontra na tentativa de trazer a tona a situação política do país em confronto com a realidade daquela casa. Inês (Silvana Silvia) interpreta a empregada doméstica cansada da exploração e esperançosa em dias melhores com o novo presidente. Sua filha é constantemente assediada pelo filho mais velho da família. Ao tocar em temas como desigualdade social, concentração de renda, assédio e até mesmo sexualidade, Domingo marca presença no que o cinema brasileiro tem de melhor: autocrítica social.

De uma comicidade nervosa, o filme se apresenta como uma caricatura exagerada, mas nos faz refletir e se identificar com uma classe média com medo. Medo de perder privilégios. A posse de Lula é pano de fundo para que a trama se torne tão atual, em eleições onde o medo continua, só que de coloração bem diferente. De qualquer forma, Domingo é uma joia rara do cinema nacional, que merece os aplausos daqueles ainda esperançosos com o futuro, assim como Dona Inês.