BICHAFORK: El Mal Querer – Rosalía

Em meio ao monopólio da música eletrônica, onde os grupos dominantes da indústria soam da mesma forma, Rosalía floresce com suas raízes. “El Mal Querer” não soa nada como algo que você já ouviu, e quando o faz – com samples de hits pop dos anos 200 – reformula as normas criando suas próprias regras. A verdade é que com a ajuda de um espanhol carregado, a inspiração em um romance do século XIV e as palmas do flamenco, Rosalía embarca em uma jornada artística que a leva ao mesmo paraíso de Kate Bush.

Incorporando a obra “Romance da Flamenca”, de um escritor anônimo do século XIV, Rosalía conta uma história em seu álbum de amor e tragédias, onde prevê o seu próprio destino embarcando em uma jornada de autoconhecimento, necessitando retomar seu poder para si própria. Por isso mesmo o experimento em “El Mal Querer” vai do pop ao flamenco, fui entre os gêneros da forma mais fiel que possa retratar os sentimentos conflituosos de sua protagonista. Definindo-se e redefinindo-se, em uma brincadeira com muitas palmas e as cordas agitada de um violão.

Separando suas faixas em “capítulos” – respeitando também seu projeto visual que até agora conta com três vídeos -, a artista latina mostra o cuidado que ela tem com um trabalho redondo, onde nos propõe uma protagonista (ela) enfrentando todos os seus medos, sem contar com a ousadia por entrar de cabeça em um projeto extremamente experimental: temos uma prévia da Rosalía popstar (“MALAMENTE”) até a lembrança da Rosalía do tango (“QUE NO SALGA LA LUNA”). Mas em todas essas facetas da cantora, conseguimos sentir a preocupação da artista em não se afastar daquilo que à trouxe até o projeto “El Mal Querer”, suas raízes.

Convidados à uma viagem pessoal, somos obrigados ao embarque com toda desenvoltura que Rosalía nos mostra em “MALAMENTE”. O smash hit que repercute de todas as maneiras na mídia internacional desde seu lançamento, ganha plano por uma razão singular: une o pop/trap à uma sucessão de palmas derivadas do flamenco, seu ritmo original. O abre-alas do álbum prevê um fim pessimista à jornada que a cantora acaba de embarcar. Assim como o “cap.2 Boda”“QUE NO SALGA LA LUNA” – nos sugere o momento onde um romance acaba de começar, e um relacionamento é selado. As “bodas” são maravilhosas, mas Rosalía avisa em uma entrevista para a beats1: “às vezes você perde algo em você durante o processo”.

Outros sentimentos também são retratados na jornada de crescimento próprio de “El Mal Querer”. Ciúmes e as agressões físicas derivadas dele, são retratadas respectivamente em “PIENSO EN TU MIRÁ” e “DE AQUÍ NO SALES”. A primeira faz da união entre o flamenco, ao hip hop e ao urban pop, seu playground. As palmas de El Guincho – produtor da maioria do álbum ao lado da própria cantora -, ecoam de forma envolvente em todo o refrão, sustentando os lamentos de Rosalía de ciúmes e insegurança, em um conflito de vozes que retratam dois narradores: o homem e a mulher. As mesmas palmas aparecem menos espaçadas na segunda citada. “DE AQUÍ NO SALES” é curta, com menos de três minutos de duração, contendo apenas um verso, mas a agressividade de um homem que está prestes a agredir sua parceira, representada por motores de motocicletas e o auto tune nos agudos da intérprete. A jornada da própria artista em seus experimentos musicais prossegue através de uma orquestra quase-mágica, tradicional do flamenco, e uma interlude simples – “RENIEGO” e “PRESO”

Rosalía parece abraçar suas duas facetas – a popstar e a flamenca – para alcançar o capítulo 7 de sua jornada: “BAGDAD”. Pelo ápice divino da faixa, construído a partir da hook da música pop “Cry me a River” – de Justin Timberlake -, Rosalía aproxima-se do nível de Kate Bush em “Hounds of Love”, especialista em produzir atmosferas espirituais com seu pop rock. A artista reformula o pop da estrela dos anos 2000 em um lamentar espiritual, usufruindo de aspectos católicos – como o unir das palmas da mão -, prezando as trabalhadoras da região erótica de Barcelona – com o mesmo nome -, podendo ser interpretado também como “o prazer de deus”. Iguala-se à Kate Bush exatamente por criar uma atmosfera espiritual – semelhante a presente na faixa “Waking The Witch” – ainda se mantendo fiel ao objetivo de sua obra.

Seus experimentos com a estrutura da música pop se traduzem melhor no capítulo 8 do álbum, onde “DI MI NOMBRE” arrasta-se em um ritmo natural do tango, carregado de referências às raízes de Rosalía que trazem a originalidade à faixa, além de um refrão extremamente cativante que remete ao nome da parte da história em que se localiza. Rosalía tem uma enorme preocupação em encaixar seus ritmos e ideias em estruturas do “El Mal Querer”, clama sua criatividade e se esparrama em todas as vertentes do seu “pop”. Os capítulos em si são remetentes à algo na sonoridade de seus trabalhos, tanto a parte alucinógena no capítulo 8, chamado “Ecstasy”, tanto a melodia lenta e triste carregada no capítulo 5, “Lamento”. A criatividade de Rosalía flui para todos os espaços que ela clama como seu, dominando sonoridades experimentais enquanto surge em uma narrativa criada por si própria.

Os capítulos 09, 10 e 11, o último ato da jornada de Rosalía, encerram seu álbum em lamentações e despedidas – mas também em recordações. O romance que antes era amor, traduz-se em tragédia e a nossa protagonista toma poder disso. Os frutos de um relacionamento tóxico, fazem-se presente no corpo de uma criança, e menções à “porta do céu”. “NANA” tem referências à músicas tradicionais do flamenco como “A la puerta del cielo”“Encarnación Marín La Sagallo” -, e faz menção direta à dar a luz à uma bebê vindo de um relacionamento abusivo. Assim como em “MALDICIÓN” há samples modificados de “Answer Me” – Arthur Russel, também presente em “30 hours” de Kanye West -, ao lado de sons típicos de um jogo. É o momento doloroso onde Rosalía toma para si a consciência de estar em uma situação de abuso, e também do último verso, extrair o nome do álbum, “El Mal Querer”. Fechando essa jornada com a primeira música que escreveu, “A NINGÚN HOMBRE”, onde discorre sobre o poder da mulher de forma simplista, apenas com um instrumento que aos poucos dá lugar à potência vocal de Rosalía.

A autora de “MALAMENTE” nos presenteia com uma jornada cheia de referências e inspirações, explorando um mundo desconhecido até então. Rosalía soa nova, mesmo que obedecendo estruturas de certas músicas pop, pois impõe sobre essas estruturas as suas raízes, não as nega em nenhum momento. Por isso, o hip hop de “PIENSO EN TU MIRÁ” e as palmas que ressonam por todo o álbum são toques intrínsecos de sua música, pois carrega sua raíz no flamenco guardada debaixo de suas mangas.

As semelhanças com a jornada espiritual – e também redonda – de Kate Bush em “Hounds of Love” fazem-se presente de todas as formas, se não pelo vocal admirável, pelas ameaças que um romance podem mostrar, e também pela própria divindade embutida no trabalho de Bush, cuja missão nas faixas da obra parecem ser invocar todas as divindades presentes sem esquecer as suas raízes mas também incorporando-as à novos ritmos, assim como a autora de “El Mal Querer”. Rosalía brinca com as possibilidades, com o destino da nossa personagem e com os ritmos que tem em sua frente. Ousada e corajosa, entrega um trabalho sólido e coeso, uma evolução clara desde seu primeiro trabalho, mas que poderia ter sido um pouco mais longo.

“El Mal Querer” põe Rosalía em uma liga criativa de autoria própria. A artista que escreve, produz e segue em uma jornada ao estrelato, conclui sua narrativa com maestria, provando – sem nem ao menos precisar – ser uma cantora que consegue traduzir ritmos diversos ao seu som do flamenco. Há quem diga que o bater de suas palmas não faz o barulho necessário, mas a verdade é que Rosalía marca seu nome em meio à gigantes da música, consolidando-se como uma força a ser reconhecida. “El Mal Querer” já está disponível em todas as plataformas.

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Rosalía, “El Mal Querer” (2018)

Gêneros: Pop, hip hop, flamenco, trap.

Destaques: “BAGDAD”, “DI MI NOMBRE”, “QUE NO SALGA LA LUNA”, “PIENSO EN TU MIRÁ”

Nota: 9,3