Festival do Rio 2018: Torre das Donzelas retrata uma ditadura de solidariedade

Atrás das barras de ferro de uma torre gélida, em meio ao ódio e a tirania, a solidariedade floresce como uma flor do campo regada constantemente por mulheres guerreiras. O documentário “Torre das Donzelas” resgata uma história perdida dos tempos da ditadura sobre um prédio derrubado, onde presas políticas durante o período do regime militar foram mantidas afastadas da civilização – inclusive nossa ex-presidenta Dilma Rousseff. Em tempos onde gritam aos quatro cantos que um dos maiores torturadores da ditadura “vive”, “Torre das Donzelas” se faz mais do que necessário, para que se lembrem e não repitam as mesmas atrocidades desse período sombrio.

O documentário de Susanna Lira passa-se 40 anos após a ditadura militar, onde ela tem o objetivo de contar a história de um grupo de mulheres que foi mantido preso na “Torre das Donzelas” – como era chamado o presídio feminino -, por suas posições políticas e organizações contra o regime autoritário. Carregadas de emoção, os relatos que encontramos são de guerreiras que sobreviveram meio ao ódio e misoginia do grupo de torturadores, mas que para além disso, são relatos de amigas que encontraram no ombro da outra, a humanidade que lhes foi roubada.

Com uma hora e meia de filme, “Torre das Donzelas” conta com depoimentos incríveis das militantes que foram consideradas “terroristas” pelo governo em 1964, no Brasil. Sempre que a frente da câmera em um fundo preto, as companheiras de cela da ex Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, contam as dificuldades daquele período enquanto elas acreditavam em ideais que defendiam a sociedade como um todo – mesmo que por sua vez, a sociedade desejava à elas as piores das coisas.

A emoção na voz de cada um dos discursos quebra qualquer coração. Essas mulheres foram presas enquanto ainda grávidas ou ainda amamentando, tiveram uma vida dupla onde defendiam a democracia brasileira – sempre tão frágil – e mantinham as suas famílias sempre protegidas. Pegaram em armas quando foi necessário, mas sempre frisando que a maior arma de todas é o conhecimento. Constantemente batiam na tecla dos livros, e como foram bons durante o período do aprisionamento.

O importante de um documentário como esse é a memória que ele visa manter, a memória de mulheres que foram brutalmente torturadas, física e psicologicamente, e estiveram afastadas de suas vidas normais por muito tempo. Em tempos onde o nome de um dos maiores torturadores é aclamado pelas nossas ruas, onde a desumanidade parece imperar, “Torre das Donzelas” nos lembra de uma das coisas mais importantes: existe uma rede de pessoas que lutam pelo mesmo, acreditam no mesmo e estarão ao seu lado quando o pior acontecer.

Para todos que assistem o documentário, a grande estrela – mesmo que essa fale pouco – é nossa ex Presidenta Dilma Rousseff. Ela recorda tempos onde sua coragem foi a sua melhor amiga. Recorda uma Dilma inexperiente e que ao mesmo tempo tinha toda a experiência do mundo. Há até mesmo um momento onde a Presidenta lembra na entrevista da vez que ela negociou com seus carcereiros de manter livros “não subversivos” dentro da cela delas.

Além disso o documentário também conta com a recriação do espaço, onde as ex-presas são convidadas a visitar. Nesse espaço também temos atrizes simulando a época em que se passam os discursos, tudo muito bem filmado, passando exatamente a emoção da fala de cada ex-presa.

“Torre das Donzelas” é um documentário mais do que necessário. Conta uma história perdida e que precisa ser lembrada. No Brasil, em um cenário político como o que vivemos em 2018, o filme de Susanna Lira faz-se atual, para que os gritos de “Ustra vive” não sejam perpetuados, e que a imagem daquilo que é desumano seja apagada para sempre. “Torre das Donzelas” atualmente se encontra no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, mas entrará em circuito comercial em breve.