Festival do Rio 2018: 'Rafiki' desenha a incansável busca por ser "real"

Diante de tantas proibições em seu país natal, “Rafiki” vence um Quênia dominado pelo ódio saindo vitorioso de uma censura sem sentido. As duas amigas que buscam um lugar onde elas possam ser “reais”, pintam para nós – brasileiros – um cenário tão atual que toca nossa alma. A diretora queniana cria uma épica história de amor lésbica envolta em um ambiente homofóbico, onde ambas protagonistas se veem obrigadas a desafiar não apenas os costumes do seu meio social, mas também as regras de um governo autoritário. E é com muita coragem e amor que “Rafiki” grita a sua mensagem aos quatro cantos – até mesmo no Cannes -, deixando bem claro o que o outro lado ainda não entendeu: ninguém há de suprimir o amor de Julieta e Julieta.

Inspirado no conto vencedor do prêmio Caine de 2007, “Jambula Tree”, de Mônica Arac de Nyeko, “Rafiki” é uma história a lá “Romeu e Julieta” do século XXI, com duas meninas protagonizando um romance impossível. O filme conta a história de Ziki (Sheila Munyiva) e Kena (Samantha Mugatsia), meninas quenianas que são filhas de duas famílias inimigas políticas. Por conta disso, o romance que já não seria fácil pelo fato da proibição da homossexualidade no Quênia, torna-se ainda mais impossível quando Ziki e Kena florescem uma amizade, instigando não só as suas famílias, mas também todos os moradores do seu bairro, olhando curiosos para saber um pedaço do que acontece.

Dirigido por uma mulher queniana, Wanuri Kahiu, vencedora do Africam Movie Academy Awards pelo seu primeiro longa metragem “From a Whisper (2008)”, “Rafiki” – o primeiro filme da diretora em muitos anos – expõe uma perspectiva necessária em momentos turbulentos como os que vivemos com toda a sensibilidade contida em seu roteiro. “Rafiki” assim como o vencedor da categoria de “Melhor Filme do Ano” de 2017 do Oscar, “Moonlight”, também nos mostra um romance de riscos, levanta questões e usa das mesmas técnicas para passar uma sensibilidade de se admirar. Através de suas cores, seus diálogos e a paixão emanada a partir dos olhares entre as duas personagens – tática também presente no longa metragem citado de Barry Jenkins -, o filme nos envolve no próprio romance, como se fosse possível uma nova experiência cinemática de sentir na pele as mesmas dores, e os mesmos amores que as personagens principais, é um símbolo de esperança para os habitantes do seu país natal, onde a homossexualidade é proibida por lei.

O romance lésbico protagonizado por Ziki e Kena começa em uma inocente amizade, da forma mais pura possível, onde a diretora tenta deixar sempre muito claro o que ela quer: explicitar que o amor é o único fator levado em conta entre essas duas meninas. O barulho externo não as incita à nada, seus nomes na língua de outros também não, no lugar dessa resposta, é notável que elas duas fecham uma bolha entre si, onde tudo que não for entre as duas é apagado. A representação do que elas são para elas mesmas, e o que elas são para os outros, sempre aparece muito claramente, mas nunca repercute. Em uma promessa elas definem o tom de todo o resto do filme: “promete que seremos algo diferente? algo…real?”

Se identificar com um filme queniano, onde a homossexualidade é proibida por lei, é tão bizarro quanto pode parecer. Há séculos que vivemos, resistimos e existimos, assim como em “Rafiki”, parece que essa busca incansável de sermos reais não termina nunca. Em momentos como os de agora, onde nos encontramos encurralados com nossa existência, postos contra a parede, filmes como os de Wanuri Kahiu servem de conforto. A realidade nua e crua, de milhões de LGBTs é exposta à nós, mesmo que em uma fotografia esteticamente linda. Mesmo duro de ver, a mensagem de esperança diante de até cultos religiosos que expulsam “o demônio” dentro de nós impera, e por isso “Rafiki” foge dos clichês.

Kahiu mostra para sua audiência exatamente todas as pedras no meio do nosso caminho, mas também mostra essas mesmas pedras jogadas contra nós. A nossa superação está no conforto de saber exatamente o que somos e porque somos. Em Ziki e Zena o conforto é outro, a pureza de seu amor não pode ser abalada. Em anos tão trágicos para os desenvolvimentos sociais como o de 2018, nada seria melhor do que uma verdadeira mensagem de amor e esperança, sem apagar a parte da nossa vivência que mais nos dói, mas sim explicitando o sangue que suja as mãos dos que nos julgam menores, colocando-nos como superiores e sempre priorizando o que realmente deve ser priorizado: nossa sobrevivência. Wanuri Kahiu marca-se pela sua excelência como “inimiga do Estado”, mas pela mensagem de seu trabalho, isso pouco a importa.

O conforto de “Rafiki” surge dos lugares mais inesperados, está no aspecto sonhador de Ziki que infecta Kena e a faz almejar mais alto, está também na pureza dessa história de amor entre duas mulheres negras, assim como também se faz presente no toque mais singelo entre as duas. Do começo ao fim, a vencedora do prêmio da Academia Africana de Filmes nos apresenta um cenário composto do mais puro amor, onde sua história não se faz repetitiva e muito menos clichê. O romance “Romeu e Julieta” torna-se “Julieta e Julieta”, onde nem mesmo toda a adversidade do mundo pode derrotar a força que uma transmite para a outra.

“Rafiki” nos apresenta uma história de amor, infectada de esperança e com o propósito de deixar o Quênia colorido. Por esse fato, Wanuri Kahiu merece todas as palmas do mundo, sua coragem em enfrentar as ideologias do governo que ferem os direitos humanos é maior do que qualquer soldado em guerras sem sentido, sua arte fala por si mesma e ela tem seu poder. Para aqueles que tentam nos apagar, saibam que estivemos desde antes de Cristo. Já para Ziki e Kena, o legado do romance de “Julieta e Julieta” deve-se fazer para sempre presente, a busca por sermos “real” só acaba quando entendermos que realmente somos, para sempre seremos. O filme se encontra em circuito no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, mas não tem previsão de estreia no circuito comercial.