Festival do Rio 2018: 'Viúvas' e a superação de traumas como pólvora

O novo longa de Steve McQueen transcende barreiras entre o drama e a ação. Desenhando um cenário de lágrimas pólvora, “Viúvas”, transforma o luto, em luta e Viola Davis em uma grande criminosa. Mas não fica por aí, ela também está armada de um grande arsenal, usufruindo dele para mudar um panorama político e social, dentro da camada da sétima arte.

Veronica Rawlings (Viola Davis), Linda (Michelle Rodriguez), Alice (Elizabeth Debicki) e Belle (Cynthia Erivo) não tem nada em comum, exceto uma dívida milionária deixada para trás pelas atividades criminosas dos seus maridos. Obrigadas a pagar um preço que não cabe em suas contas bancárias, as mulheres decidem tomar controle dos seus destinos e reproduzem uma história de sua própria autoria.

Diretor do vencedor do Oscar, “12 anos de escravidão (2013)”, Steve McQueen faz com “Viúvas” um outro trabalho político. Dessa vez pondo em pauta um cenário contemporâneo, o filme mais recente de Mcqueen o coloca como um grande observador das nuances da sociedade norte-americana. Sem contar o fato de dialogarem diretamente com a porcentagem negra de lá, uma camada social que precisa ser ouvida nesses tempos sombrios.

O roteiro de Gillian Flynn ousa em determinadas maneiras. Ele nos presenteia com um híbrido de ação e drama, alcançando seu objetivo em todas as propostas postas sobre a mesa. Flynn nos desenha a história de um destrito norte-americano de Chicago imerso em violência, não só a criminal, como a social também, e banha-se diversas vezes na mesma água. As vidas das nossas “Viúvas” são distintas em vários aspectos, mas intersectam em prol de um: fazer para elas mesmas o que as políticas sociais deveriam ter executado. E é isso que ocorre do início até o final.

Violência doméstica e brutalidade policial são dois tópicos pertinentes. Assistimos de perto o “sistema” ser corrompido, sempre com um olhar social vazio no cenário do filme. E dessa vez essas mulheres tomam a frente para si, através de um crime, conseguindo de fato quebrar as amarras feitas pela sujeira de “grandes poderosos”, políticos ou não. Afinal, nada é mais político do que revolucionar o seu próprio ambiente, tocando as vidas que te rodeiam.

A ação em “Viúvas” dá lugar para as consequências dela. O drama do luto, e a forma como temos que deixar certos momentos para trás diz muito sobre suas personagens. Nessas duas horas de filme as vemos crescer e abraçar consciências não pertencentes a elas, onde uma superação de traumas acontece das formas mais sutis em seus diálogos.

Viola Davis entrega mais uma performance espetacular, doando um pedaço seu para o papel tão visivelmente que arranca lágrimas de que a assiste apenas com seu silêncio. Mas também pega emprestado de trabalhos passados dela como na série “How To Get Away With Murder” e o filme “Esquadrão Suicida”, ambos trabalhos onde Davis mostrou ser uma mulher forte, chegando até a soar autoritária. Mas aqui vemos a vencedora do Oscar incorporando a complexidade de uma personagem sem nada a perder, cheia de camadas.

O que parece, pelo seu trailer, ser um filme recheado de ação, onde há apenas uma transição do gênero central da história, é na verdade um drama tocante e extremamente necessário para os tempos em que vivemos. A fluidez presente na o ritmo da história a permite ser completa, sólida e emocionante. Não por talvez ser uma isca feita para as grandes premiações de cinema, mas sim por contar histórias cruzadas de vizinhos seus, amores perdidos e mulheres fortes, lutando pela sua sobrevivência apesar dos apesares. A força que esse filme tem, é a força da mulher negra, da latina e da vítima da misoginia. Unindo-se em um grande ato de solidariedade.

“Viúvas” abrange mulheres comuns que quebram o sistema e mostram que elas podem ser capazes de tudo, mesmo que isso envolva bolar um plano mirabolante para assaltar um grande cofre. E como as próprias colocaram durante o longa: “vamos fazer isso porque eles acham que não temos os colhões.” O filme vai estreia no Festival de Cinema do Rio de Janeiro 2018 hoje (01/11), com direito à uma sessão aberta ao público logo depois, e entra em circuito comercial, aqui no Brasil, dia 29 de Novembro.