BICHAFORK: SUPER SUNSET – Allie X

A freira, a estrela de Hollywood e a menina sci-fi abrem as suas janelas para verem o tão esperado “SUPER SUNSET” de Allie X. A cantora lança seu EP – lançado em que podemos considerar um conta gotas de músicas – incorporando na sua musicalidade tais alter-egos e mostrando para nós como música pop de qualidade ainda é uma realidade possível: nos leva em uma viagem temporal aos anos 90 e 80, celebrando os maiores clássicos da época através dos seus refrões viciantes e estrondosos. Allie X cria uma versão surreal e conceitual da cidade de Los Angeles, enquanto suas letras apontam os “altos e baixos” de estar inserida nessa realidade.

Após uma pausa não muito longa desde seu último (e primeiro) álbum, “CollXtion II”, e participações nos hits de Troye Sivan, Allie X traz à mesa mais uma rodada de músicas pop que soam como grandes sucessos, e expõe o que não é desconhecido para quem acompanha a artista: sua inegável qualidade ao produzir trabalhos. O “SUPER SUNSET”, segundo EP de Allie X, começou, o que foi definido pela mesma em seu twitter como uma “experiência musical”, em primeiro de Junho com a última faixa do trabalho, “Focus”. Desde então, a cantora tem lançado músicas no mesmo estilo pelo seu Spotify incansavelmente.

Allie X nos dá boas vindas à experiência do super pôr do sol com uma intro inofensiva, uma música de elevador que transmite bem a referência de estar tudo bem no cenário que ela mesmo pinta, com ajuda de uma acidez. Dessa forma, a ironia e o sarcasmo da cantora presentes em “Not So Bad In LA” vem como um soco no estômago do ouvinte: “Todos os anjos saíram/Mas nós vamos ficar”. O segundo “single” é responsável por um synthpop que flerta com o trap bem em seu refrão, soando quase “datado” – visto que esse segundo ritmo deixou seu ápice em 2012 com grandes produções do mainstream – mas que na faixa em questão não teve esse efeito exatamente por sustentar um sentimento sombrio e “pesado” (alô Lykke Li). Mas o mesmo não acontece com o synthpop oitentista de “Little Things” que sustenta uma letra muito mais agonizante. O trio Captain Cuts aqui cria uma aura muito maior e “upbeat”, enquanto Allie X indaga sobre os seus pequenos grandes empecilhos: “Por quê eu me sinto tão calma/Quando tudo dá errado/É isso que eu sou?”.

Os baixos de “Science” mostram Allie X incorporando seu alter-ego “garota sci-fi”, onde somos presenteados com uma batida lo-fi parecida com o famoso movimento vaporwave, colocando a faixa como uma das melhores a já estar no catálogo da artista. Allie X nos dá uma carona pela noite de Los Angeles e só nos deixa respirar no refrão, onde deixa o ar entrar por uma brecha da janela do banco do passageiro. Assim como a upbeat “Girl of The Year” – última música divulgada pela própria em seu página de streaming antes do lançamento do EP-, onde a artista parece se auto referenciar. A acidez das letras de Allie X faz-se presente aqui, sua posição crítica na sociedade norte-americana sustentada por grandes elementos do synthpop e da música eletrônica europeia, mistura-se com um pop chiclete que ela mesmo já fez em seu primeiro EP – com músicas como “Tumor” e “Prime” -, em um refrão onde seu tom vai lá em cima. “Tem um vazio dentro de você/Mas não se preocupe, eu estou aqui/Eu não ligo se você está procurando a próxima garota do ano”, a artista canta em seu mais alto tom de voz, criticando a indústria da música que segue substituindo artistas cada vez mais.

O pop ácido já faz parte da discografia de Allie X, mas o novo EP da cantora também a consolida – pelo menos para sua parte de ouvintes – como uma artista versátil. Isso vem da forma como ela aparece em sua sétima faixa. “Can’t Stop Now” é uma das únicas novas músicas da cantora que flerta com o r&b noventista – diferentemente de “Need U” que tinha claras referências ao reggae -, onde Allie X incorpora seus próprios elementos ao ritmo. O teor dramático da música também pode vir da incansável jornada da própria ao estrelato, a canadense que tenta desde 2011 estar presente no mainstream – ou ao menos ser referência de algo – mostra seu manifesto através da sua composição: “Você pode me puxar para dentro/Você pode me empurrar para fora/Ainda estou no meu caminho/Não posso parar agora”. A faixa dialoga claramente com a última, e primeiro single do EP, “Focus”. Provavelmente a mais fraca do álbum, não tem um impacto muito claro mas é perfeita para fechar o álbum com uma mensagem de esperança – já que Allie X diz continuar tentando conseguir seu estrelato.

Cheia de músicas pop, a artista mostra que ainda tem muito a ser explorado ao longo de sua carreira. A acidez de suas letras fez-se presente em momentos importantes, também quando falou diretamente com as raízes musicais da mesma. Allie X pode não estar no topo das paradas, e “SUPER SUNSET” pode não ser o trabalho ideal para sua carreira agora, já que o primeiro álbum foi um dos lançamentos mais fortes do ano passado, mas não podemos negar que a produção de músicas que ela faz é muito maior do que as faixas que dominam o serviço de streaming do Spotify.

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Allie X, “SUPER SUNSET (2018)

Gêneros: Synthpop, trap, edm, pop

Destaques: Science, Can’t Stop Now, Girl of The Year

Nota: 7.3