BICHAFORK: Joji – BALLADS 1

Desde que George Miller abandonou de vez a sua persona de Pink Guy e começou a trabalhar como Joji, ele vem se dedicando cada vez mais a tentar se tornar um artista sério e de respeito. É daí que surge BALLADS 1, o seu debut álbum, dessa necessidade de querer se firmar como um artista e não apenas como um rapper de comédia. Em uma entrevista que deu para Annie Mac quando lançou o single Slow Dancing in the Dark, Joji falou que adora baladas e acha que as pessoas deveriam gostar mais delas. É daí que vem o projeto, que consiste de 12 músicas que compõem uma temática bem interessante sobre a vida de Joji e tudo o que a cerca, sendo o aspecto amoroso o que mais aparece nas canções.

Inteiramente estilizado em caps, algo que tem se tornado cada vez mais comum hoje em dia na cena indie alternativona, o álbum já se inicia com “ATTENTION”, que trata de exatamente o que o título da faixa propõe. Um grito por atenção, Joji convida a todos a prestarem atenção no que ele tem a dizer, de uma forma prática de dizer. Uma das faixas de mais curta duração, acaba servindo muito mais como algo introdutório do que uma música propriamente dita, já que dá um build-up legal do que vem por aí mas acaba por não ser a melhor música de todas. É então que chegamos em “SLOW DANCING IN THE DARK” que começamos a moldar o que o BALLADS 1 está querendo ser, já que essa é a música não só representativa do álbum como um todo mas também o melhor número de Joji até então. Certamente amadurecido desde seus trabalhos passados, Slow Dancing possui uma atmosfera muito fúnebre e se trata de uma power ballad quase que desconstruída, de um jeito muito legal e que acaba sendo poderoso e impactante da maneira certa. Com essa música, Joji acaba por se afirmar como um artista que acerta muito mais quando está fazendo coisas tristes de raiz mesmo, muito mais do que quando tenta apenas fazer algo lo-fi hip-hop.

“TEST DRIVE”, que é uma música extremamente pessoal para mim de uma maneira ridícula e acaba se tornando um dos destaque desse álbum para mim por tais razões, tem uma das melhores letras do álbum, com Joji sendo extremamente sincero com a sua mensagem em que ele quer algo que não correspondia com o que sua parceira estava buscando. Não há um resquício de esperança nas palavras de Joji e a produção minimalista causa esse efeito. A faixa que segue a tracklist, “WANTED U”, é a produção mais engenhosa do cd e me surpreendeu de saber que foi inteiramente assinada pelo próprio Miller. Apostando até mesmo riffs de guitarra que se intensificam pelo final e dão um toque ainda mais majestoso à música, Wanted U é a melhor faixa dentre as inéditas do disco e fecha, com as duas músicas passadas, a tríade do cd. É também uma das letras menos “desesperançosas” do cd, já que toda a temática do álbum não dá muito espaço para positividade, servindo basicamente como uma declaração de amor para a pessoa amada.

“CAN’T GET OVER YOU” é a faixa mais curta do cd e isso é de um pesar muito grande porque ela é muito boa e faz quem ouve a produção incrível do Clams Casino desejar que ela fosse bem maior porque aqui ela acaba servindo apenas como uma interlude, sem querer querendo. É uma pena, porque ela tinha bastante potencial, ainda mais por ser uma das músicas mias animada de todas e mesmo assim ter continuado no tema do álbum, falando sobre amor e superação. “YEAH RIGHT” é um ode para os que não ligam para absolutamente nada. O primeiro single lançado do álbum possui todos os sentimentos possíveis de “eu não estou nem aí para o que eu estou fazendo com a minha vida” descritos em pouco menos de 3 minutos. Com uma produção bem minimalista, o eu-lírico de yeah right passa por momentos difíceis em sua vida amorosa e resolve ligar o foda-se para tudo e agir sem pensar nas consequências simplesmente porque pode. É upbeat e continua na mesma linha que Can’t Get Over You, mas é bastante melancólica e triste, sendo uma escolha acertada para ser single.

A partir daqui, as coisas começam a ficar um pouco confusas. Em um álbum extremamente melancólico e depressivo quase que totalmente girando em torno do amor e de suas incertezas, “WHY AM I STILL IN LA” destoa por questão de letra e por questão de produção. A confusão que Joji diz sentir sobre não querer ficar o tempo todo em LA acaba transparecendo na construção da música e ela acaba soando como algo inconcluso, estranho e é um grande letdown depois de músicas bem boas que vieram anteriormente. “NO FUN” resgata um pouco do que a faixa anterior faz perder, com uma letra extremamente sincera e, por que não, divertida, juntamente com uma produção bem bacana do Jam City, mas acaba se perdendo por estar na metade errada do cd. Teria sido muito melhor aproveitada se a ordem da tracklist fosse 7. ela e 8. LA, sem dúvida alguma.

“COME THRU” é uma faixa perdida no meio do cd. Não como se ela fosse uma faixa ruim, mas é simplesmente algo que já ouvimos antes e de uma forma bem melhor executada. Come Thru é lo-fi hip-hop quase que de raiz e acaba pecando exatamente por causa disso. Numa imensidão de gêneros diferenciados que acabam trabalhando muito bem em conjunto, ela se torna apenas mais uma no meio de um misto de novidades. “R.I.P.” e “XNXX” sofrem do mesmo problema, seguindo na mesma ideia de Come Thru. É aqui que o Ballads 1 perde um pouco da sua força. O que antes soava legal e minimalista agora começa a ser tornar algo repetitivo. Trippie Redd está presente na faixa R.I.P e acaba trazendo algo de novo para a produção simplória de Joji e faz com que ela seja uma das músicas que não caia na mesmice, mas não é suficiente efetivo para que ela seja considera uma das melhores do cd, por exemplo. XNXX, por sua vez, se destoa um pouco em questão de arranjo por ter algo mais dreamy aqui no meio, com os vocais de Miller soando distantes e fantasmagóricos, mas é prejudicada pela mesma coisa. A curta duração de ambas as faixas também não ajuda em nada e esses números passam quase que despercebidos no final do cd, acabando até mesmo se confundindo entre si.

É então que “I’LL SEE YOU IN 40” surge, fechando o BALLADS com chave de ouro. Seguindo uma linha parecida com o que há de melhor em Slow Dancing in the Dark, a música é uma power ballad com uma produção bastante eficaz, mesmo que não tão impactante como outros números. A sua melhor hora é justamente na outro da música, em uma transição do lo-fi para o acústico, acompanhada somente por um ukulele, que acaba fazendo da música uma faixa quase que imperdível, com Joji dizendo que ainda ama a pessoa para quem dedicou a música (e possivelmente o cd inteiro), de forma quase que inaudível, como um grito preso na garganta.

Em considerações finais, George Miller amadureceu bastante e provou com o BALLADS 1 que pode sim ser considerado um cantor-compositor de respeito, por mais que seus trabalhos anteriores, desde a época do Pink Guy, não sejam tão imaturos assim. Essa sua nova persona está se solidificando e o cd acaba sendo o seu melhor trabalho até então, repleto de novidades e cheio de músicas boas e para todos os momentos da fossa, sendo extremamente relatable em certos pontos que acabam sendo reais até demais. Por mais que seu trabalho como letrista seja ainda apenas ok, o músico tem bastante sentimento para explorar durante suas 12 faixas e ele faz isso de uma forma incrível e bem amarradinha. É interessante acompanhar Joji e ver para onde que ele vai a partir daqui, pois acredito que ele tem muito mais a crescer e a mostrar ainda.


Joji, “BALLADS 1” (2018)

Gêneros: Lo-fi, hip-hop, r&b

Destaques: SLOW DANCING IN THE DARK, TEST DRIVE, WANTED U, YEAH RIGHT

Nota: 8.0