BICHAFORK: Robyn – Honey

Vamos falar sobre expectativas: quando você espera cerca de seis ou sete anos por um álbum, geralmente você já imaginou detalhadamente como ele tem que ser. É ok. Acontece. Acontece muito – ainda mais quando o disco em questão dá sequência a um dos trabalhos mais importantes da música pop recente, vindo de uma das artistas desse espectro que mais possui aclamação por sua qualidade sonora. Mas é, expectativas estão aí para serem subvertidas: positiva ou negativamente, brusca ou gentilmente, a única certeza que temos é que nada está sob o nosso controle. O controle do público, do espectador, da pessoa que espera; ele inexiste.

Sobre isso, o “Honey“, sexto (ou sétimo?) álbum da Robyn, está bem ciente: ele não tenta em momento algum ser exatamente aquilo que o público esperava da artista após o “Body Talk”. Nem perto disso. Deixando um pouco de lado aquele pop calculadíssimo e sem arestas, “alternativo” mas altamente flertante com o mainstream do seu predecessor, o “Honey” tem o único objetivo de criar espaço para que a Robyn experimente com sonoridades e paisagens pop com a liberdade estrutural e formulaica que ela bem entender, dando foco maior a uma transparência sentimental da cantora em suas letras e também a uma nostalgia descarada em batidas e melodias instrumentais. Usando o próprio catálogo da gata para nível de comparação, o “Honey” é mais uma sequência lógica do “Love Is Free”, EP do projeto da Robyn com o La Bagatelle Magique e que traz (em menor escala) algumas das qualidades musicais apresentadas nesse álbum novo.

O “Honey” também é bem mais calminho, chill, suave na medida do possível. Nada de números dançantes imediatos e frenéticos como em “Fembot” ou “U Should Know Better”: aqui as coisas se desenvolvem num ritmo tenro e lânguido, com compassos soltos e microbatidas meticulosas. O título do trabalho parece traduzi-lo perfeitamente: a Robyn explica que o “mel” no caso é mais a sensação oferecida pela substância do que a substância em si, mas é como se ambos – substância e sensação – fossem metáforas certeiras para definir a experiência passada pelos sons do disco.

Optando por uma tracklist estruturada por ordem cronológica de composição, o álbum inicia com “Missing U“, faixa que lembra de cara o material da artista na época do “Body Talk”, mas dessa vez com um tom mais dramático, uma temporalidade menos comedida, chegando perto dos 5 minutos. A canção funciona como uma ponte entre esses dois discos, um interlúdio completo entre uma sonoridade e outra, finalizando já em termos com as novas camadas sonoras que a Robyn vai desenvolver dali pra frente. “Human Being“, em seguida, começa a adereçar essas novas nuances sonoras de forma firme, com batidas que poderiam muito facilmente ter sido sampleadas de “Don’t Fucking Tell Me What to Do”, mas imbuídas agora em melodias mais soturnas e misteriosas, plano de fundo perfeito para que a cantora divague sobre sua condição como humana, alternando entre versos mais bobinhos e palavras totalmente apocalípticas (“You know we’re the same kind / A dying race”). Duas ironias nessa canção são elementos-chave: tudo nela soa robótico em contraste ao título, e a Zhala, creditada como featuring, mal canta uma frase com vocal distorcido.

As coisas ficam iluminadas e cintilantes a partir de “Because It’s In the Music“, um número disco e glitterizado que se desenvolve em um ritmo mediano, com construções feitas para que o ouvinte possa cantar junto sem muita dificuldade. Violininho disco, sintetizadores cósmicos e um baixo presente são os instrumentos-base para que a Robyn cante uma letra relatable sobre como a música consegue nos conectar mentalmente com outras pessoas. É quase uma tradução disco do mote “crying on the dancefloor” que a Robyn já desenvolve há algum tempo, dado o instrumental doce e dançante que engloba uma letra em tom mais melancólico. Já “Baby Forgive Me” deixa tudo mais lento, sendo uma faixa confessional em um leve humor disco que joga vez ou outra elementos metálicos e robóticos. A honestidade e vulnerabilidade passada pela letra e pela voz da artista são os seus trunfos.

Send to Robin Immediately” (um dos títulos de música mais horrorosos e legais já concebidos) inicia com uma transição perfeita com a faixa anterior, tanto no âmbito lírico quanto no âmbito sonoro. A música vai crescendo com o tempo, misteriosa e noturna, com um sample borbulhante e totalmente fragmentado da música “French Kiss“, um hit dance sintetizado dos anos 80 que parece ter nascido para ser utilizado em algo da Robyn. Outra transição interessante é realizada com a faixa título, “Honey“, que abre a parte mais potencialmente eufórica do disco e ao mesmo tempo soa como uma síntese de tudo o que ele é, com batidas e melodias vocais que evocam o sensível e o sensorial por cima de notas atmosféricas. “Between the Lines” é uma homenagem declarada à house music dos anos 80 e 90, incorporando instrumentalmente congas, beats meticulosos e sons de tecladinho yamaha contidos e pontuais, além de uma voz robótica acompanhando os vocais da Robyn que parece ter literalmente saído de qualquer extended mix de deep house underground da época.

O último par de faixas inicia com a estranheza despojada de “Beach2K20“, número mais experimental do disco e que lembra um pouco as faixas exotica do Yellow Magic Orchestra retraduzidas para a música house moderna. Ela é pontuada por interpolações vocais aqui e ali que não representam exatamente uma letra – a canção é mais um mood, uma conversa telegrâmica, uma brincadeira com sussurros e frases soltas. Por fim, “Ever Again” traz o melhor estilo de melancolia dançante da Robyn em uma roupagem disco clássica, até meio brega, lembrando Metronomy de cara mas também podendo ser algo que facilmente entraria num álbum da Donna Summer caso fosse gravada uns 40 anos atrás. O tom semi-otimista e nostálgico com que a música encerra é exatamente o final pelo qual o disco pedia, uma leve união dos fatores que formam o leque de qualidades do material.

“Honey” continua fiel às raízes temáticas e musicais da Robyn, mas elas estão lá em disposições diferentes, em embalagens menos óbvias, inesperadas e animadoras ao mesmo tempo. Ainda assim tudo soa como uma progressão natural: não há nada dos triunfos antigos sendo repetido; tudo aponta para o novo, o inexplorado (no limiar da ironia que é usar essas palavras diante de um disco cheio de sons nostálgicos). A quebra de expectativa às vezes pode vir lotada de compensações que a gente mal poderia prever.


Robyn, “Honey” (2018)

Gêneros: Pop, house, disco, dance

Destaques: Between the Lines, Honey, Beach 2K20, Human Being

Nota: 9.1