BICHAFORK: Suncity – Khalid

O jovem americano Khalid, tem tido destaque significativo desde a primeira vez que o vimos no cenário musical. A partir daí sua personalidade musical define-se por sons não muito ousados, mas ao mesmo tempo amigáveis para o ouvinte: não é muito polêmico mas não lança projetos mal feitos. “Location” tocou e ainda toca em um loop no spotify dos viúvos do 8tracks, assim como o colaboração com a ex-Fifth Harmony, Normani, “Love Lies”. O ponto é que Khalid serve seu propósito como uma estrela pop apaziguadora dos momentos políticos norte-americanos, mas que ao mesmo tempo não faz de “Suncity (EP)” um marco na indústria musical, nem na sua carreira – ou seus singles avulsos lançados. O trabalho atual do cantor de r&b serve mais para mostrar sua versatilidade enquanto incorpora gêneros diferentes na sua tracklist, mas não diz nada muito chocante ou relevante sobre sua carreira: “Suncity” é inofensivo e despretensioso, mas não um sucessor ideal ao “American Teen” – primeiro álbum do cantor.

Muito se disse sobre Khalid em seus estágios iniciais, saindo em uma época não muito longínqua da qual vos falo, ao lado de revelações como SZA, o álbum “American Teen” apresentava a estrela r&b para o público maior, com hits prontos e muito bem feitos. O que nos deixou a pergunta: para onde Khalid vai? “Suncity”, o primeiro trabalho que ele lança depois de seu primeiro álbum, vem mostrando a versatilidade do cantor que continua divagando sobre sua vida e por isso tão amaciador do ego juvenil – seu público-alvo. Com as cordas da guitarra do famoso Charlie Handsome – responsável por produções de Ariana Grande e Post Malone -, nossa estrela do r&b é “infectada” pela batida pop em “Vertigo”, onde faz referências claras ao filme do mesmo nome, e prova que soa melhor quando seu r&b é levado mais suavemente. O que acontece também em “Saturday Nights”, onde Khalid parece estar envolvido em um relacionamento onde a garota tenta seguir os valores dos seus pais, mesmo que estes não a deixem viver da forma que deveriam. “E todas as coisas que eu sei/Que seus pais não sabem/Eles não ligam que nem eu”, canta Khalid sustentado por um violão flertando com como grandes músicas do pop foram feitas para soar – Alô Ed Sheeran -, instaurando uma aura quase “Frank Ocean” para o que ele tem a dizer nesses quase quatro minutos de faixa.

Sem dúvidas, Khalid sabe seu público, mas parece que ao perceber que suas letras são tão afiadas como as composições de SZA ou o próprio Frank Ocean, sua perseverança de fazer algo grande perde espaço para o conforto de conhecer quem vai ouvi-lo. A acidez do jovem negro da sociedade norte-americana não o deixa de lado nunca, o que é claramente expresso em “Salem’s Interlude” marcando a primeira passagem do álbum para a próxima etapa, mostrando os medos da estrela do pop. Assim que “Motion” começa podemos sentir no ar a influência de artistas como The Weeknd, no álbum “Starboy”, sobre o artista. Como eu disse, a versatilidade de Khalid fica bem clara em “Suncity (EP)”, mas também é muito claro o quão r&b-pop ele tenta se estabelecer nessa segunda parte. O ritmo da faixa cinco é quase como uma viagem para as músicas dos anos 70/80, ou até o catálogo do eterno Starboy – álbum/apelido de The Weeknd -, onde ele não nega que tem suas raízes no r&b, mas não tem medo de flertar com uma pegada diferente. O campo de produção na música é do próprio artista, sendo a primeira vez que o vemos abraçar esse outro lado da cabine de gravação, o refrão soa como algo que você ouviria para relaxar em uma tarde com aquele típico pôr do sol desenhando o céu, espalhando roxo e laranja até onde seus olhos podem alcançar – o que conversa diretamente com o nome do álbum. “Estou apaixonado pelo momento/Me veja flutuar, me veja brilhar”, Khalid nos convida à uma viagem temporal, desacelerando o tempo como se tivesse poder para tal, mostrando claramente que pode, ao aumentar seu tom grave e o ritmo da música automaticamente contar com instrumentos que a deixe mais lenta.

O produtor Charlie Handsome aparece mais uma vez na faixa regida pelo hip-hop mainstream, “Better”, provando exatamente o que quero dizer com “faixas inofensivas e decentes”. O single lançado anteriormente ao EP é uma música que faz seu trabalho: soa como uma música top 40 decente, similar aos trabalhos musicais de Drake e Post Malone. Aqui, Khalid expressa a necessidade de reciprocidade em seu relacionamento, não só sentimental, como física, sustentado por um bass que flerta com o hip-hop que tem tocado nas maiores plataformas de streaming por aí. Mas é disso mesmo que ele precisa? Esse som “mais do mesmo”, produzido inclusive no mesmo nicho de grandes nomes, não pode tomar conta da influência artística que ele mesmo quer refletir. Mas felizmente “Suncity”, a faixa título, colaboração com a cantora Empress Of, sintetiza o que ele quis passar com a versatilidade de todo o álbum. O reggaeton apaixonante, “caloroso”, nos remete à grandes hits das paradas da Billboard, mas ao mesmo tempo é reflexo do que ele mesmo quer transmitir com o EP. Em um refrão em espanhol, Khalid ousa, juntamente à sua colaboradora, “Me leve à cidade do sol/Me leve, me leve/Aonde eu deixei meu coração/Me leve, me leve”, enquanto as cordas de um violão tímido dão lugar à envolvente bateria espaçada. “Suncity” (a faixa), deixa claro o que deveria ter sido feito durante todo o EP e só conseguiram ao final.

Mesmo que tenha cumprido seu papel como um bom EP, “Suncity” não marca nada relevante, ou forte, na carreira de Khalid. É decente, traz ao catálogo do artista boas canções que tem tudo para serem grandes hits, mas não marca uma progressão/evolução do artista. Sendo o primeiro trabalho da estrela pop depois de um bem sucedido primeiro álbum, é quase lamentável que ele tenha escolhido um caminho “confortável” no momento onde a acidez, e a ousadia artística para além de suas letras, deveriam ter sido priorizadas.

Khalid, Suncity (2018)

Gêneros: R&B, Hip-hop, pop.

Destaques: Suncity (feat. Empress Of), Motion, Vertigo

Nota: 6.6