TRACK REVIEW: BoA – Woman

Cacuras do mundo inteiro: uni-vos!

A carreira quase bi-decenal da BoA anda flutuando por indefinições há algum tempo. Com um status de veterana que é mais negativo do que positivo (afinal, envelhecer como artista feminina é cruel na indústria musical), a gata passou os últimos anos sem saber se investia de vez no mercado sul-coreano (aproveitando a popularidade imensa que o K-pop possui hoje em dia pra faturar uns trocados) ou se voltava a dar atenção ao pouco que restava da sua popularidade no Japão, que apesar de tudo ainda é um país com mercado amplo e vendas mais substanciais.

Calhou que em 2018 ela meio que tentou conciliar ambas as coisas: lançou simultaneamente álbuns nos dois países no início do ano enquanto planejava melhor quais seriam os seus passos dali pra frente. O desempenho dos materiais foi fraco, mas a resposta dessa experiência parecia óbvia: a indústria musical sul-coreana ainda dá um caldo e, se a BoA ainda possui um resquício de fanbase, é no país do Kimchi onde ela está. Essa resolução, mesclada com a vontade latente da gostosa de ainda trabalhar ativamente com música, culminou no seu 9º álbum coreano, “Woman”, lançado com uma faixa de divulgação de mesmo título e que é o foco desse post.

Enquanto a BoA andava em um flerte fatalíssimo com a house music e o synthpop levinho, algo bem notável no seu EP desse ano “ONE SHOT, TWO SHOT”, “Woman” deixa esses estilos de lado e se foca em um R&B swingado e menos… imediato. A instrumentação da faixa é toda construída por cima de um baixo sensual e sobressaltante, que vai ganhando batidas, estalos e synths à medida em que a música vai avançando, tudo encaminhado pela voz incisiva e “áspera” da artista, que aproveita os elementos sonoros mais simples da canção para ganhar destaque e projeção.

A estrutura segue o padrão comum para canções pop, sem grandes mudanças de ritmo ou experimentações – já que o que realmente interessa na faixa é sua letra, assinada pela própria BoA e que possui um tom soft-feminista, versando sobre como as mulheres não devem se importar com papéis impostos pela sociedade, incluindo o tópicos como o etarismo (!!!) e padrões de beleza. No meio do discurso simone-de-beauvoiresco, ainda sobra espaço para ela citar como é empoderador e positivo se sentir com uma mulher, fazendo referências até ao seu material antigo, como o single “Girls On Top”, onde uma BoA de 18 anos já cantava sobre empoderamento feminino quase uma década antes do tópico se tornar um fenômeno social e midiático.

Como uma boa faixa de K-pop, “Woman” é levada a um patamar mais interessante com o seu clipe, que traz em destaque cenários, looks e coreografias (elementos visuais vitais na carreira da artista) mesclados com imagens de liderança feminina e de celebração cosmopolita aos vários tipos de beleza mulheril. O single não representa exatamente uma mudança drástica ou mesmo extremamente memorável na carreira da BoA, mas ao menos prova que a gata ainda consegue elencar temáticas importantes e mostrar uma resiliência artística considerável no auge de seus 30 anos (idade morta para quase qualquer artista feminina na Coreia do Sul), dando a ideia de um futuro bem mais promissor e menos obscuro para a construção de seu legado no pop asiático.