Podres de Ricos: a nova era das comédias românticas

As comédias românticas atingiram seu ápice anos atrás quando um público massivo ainda assistia constantemente filmes do gênero. O roteiro clichê e “medíocre”, enchia o coração de quem precisava, arrancando lágrimas do espectador mais sensível, até o mais amargo entre as quatro paredes dos cinemas. Com “Podres de Ricos” esse padrão é transformado. A adaptação do livro de Kevin Kwan, dirigida por um novato nesse gênero Jon M. Chu – diretor de filmes como G.I. Joe – Retaliação -, traz à frente um elenco composto por asiáticos, dando as mãos ao original da Netflix, “Para Todos os Garotos que Já Amei”, em um movimento podemos chamar de uma nova era em Hollywood.

“Podres de Ricos”, conta a história de Rachel Chu (Constance Wu), uma professora de economia nos EUA e namorada de Nick Young (Henry Golding) há algum tempo. Quando Nick convida Rachel para ir no casamento do melhor amigo, em Singapura, ele esquece de avisar à namorada que, como herdeiro de uma fortuna, ele é um dos solteiros mais cobiçados do local, colocando Rachel na mira de outras candidatas e da mãe de Nick, que desaprova o namoro. Sapatos, ouro e jóias, são elementos da dimensão paralela à nossa que o filme nos imerge – uma estreitamente asiática -, onde conhecemos personagens por ora vazios, mas que tem uma história muito sincera para oferecer, cheia de sujeira, romance e intrigas.

A substancialidade de “Podres de Ricos” não se dá apenas pelo fato da mensagem moral do filme, mas também pela questão de exporem ideologias conservadoras recorrentes do oriente até hoje. Ideias como “família” e “paixão”, são postas lado a lado, chocando-se constantemente entre os atos desse filme. Para muitos pode parecer qualquer longa sobre pessoas “podres de ricas”, já que visualmente o diretor Jon M. Chu fez questão de ressaltar as roupas de grifes e as partes mais luxuosas de Singapura, mas ao decorrer percebemos aquela mesma lição clichê de filmes de comédia romântica: o amor vence todas as barreiras. Porém, essas barreiras são apresentadas como construções derivadas da cultura. No filme em questão, nossa personagem principal, Rachel Chu, não chega nem perto de ser uma mulher sino-americana que falhou nos moldes meritocratas dos Estados Unidos. A nossa personagem é uma professora da maior universidade de sua cidade, filha de uma mãe imigrante que também faz muito dinheiro no país. Mas assim que o cenário do filme muda, os padrões culturais tornam-se outros. Castelos, mansões e os carros mais caros, não são ambições do mundo que é mostrado para nós em “Podres de Ricos”, são a realidade vivida por uma parcela pequena da sociedade de Singapura, dentro do filme. A vida de luxo portanto é sempre reiterada, por certos personagens, como uma cheia de sacrifícios, “trabalho duro” e disciplina – mesmo que em suma sejam muito indisciplinados. Por isso, ao decorrer dessas duas horas de filme – que podiam ser mais trabalhadas – nos deparamos com a pergunta: seria o sacrifício mais válido que perseguir sua paixão?

Em uma situação muito parecida com ao do filme de 2002, “Encontro de Amor”, onde Jennifer Lopez vive uma camareira que apaixona-se por um herdeiro de uma dinastia, Rachel Chu namora Nick Young, e a diferença econômica de suas classes torna-se palpável quando temos contato com seu país natal. As premissas são as mesmas, a vontade clichê de por o amor como força maior que deve seguir regendo o casal principal, permanece e prevalece em muitos momentos, e quando invertemos esse padrão cultural norte-americano pelo chinês, vemos Rachel Chu lado a lado com a camareira de Lopez. Vindas de fora, sem conhecer os costumes da família, com um par que já tem um destino “traçado” elas enfrentam os mesmos ideais, construindo quase que a mesma jornada do herói em comédias românticas, onde a mocinha precisa superar tudo isso e o rapaz precisa estar ao seu lado.

Porém, ao longo do de “Podres de Ricos”, percebemos a hipocrisia, nua e crua, de camadas da família que escondem todas as confusões varrendo-as para baixo do tapete da sala. Há uma vontade de expandir os dramas familiares que não é bem sucedida nem no seu momento mais “estrondoso”. Eventualmente elas se cruzam com a história principal, mas perdem a força com uma conclusão ao mesmo tempo rápida e nada coesa. É entendível que precisamos focar no casal central, também é entendível que tenham passado minutos em sequências para construir uma aura de luxo e riqueza para que a aura do filme seja mantida, mas também é preciso que se use essa duração longa – para um filme de comédia romântica – focando no que o diretor realmente colocou em seu script, algo que não aconteceu aqui.

É fato inegável que “Podres de Rico” é cheio de clichês, afinal o diretor Jon M. Chu dirigiu muitos filmes e entre eles nenhuma comédia romântica, mas também não podemos negar o impacto que ele tem. Por muitos anos fomos apresentados a narrativas brancas, desinteressantes e cheias de “mesmices”: a atriz branca que se apaixona pelo homem branco. Um ciclo vicioso instaurou-se sobre as produtoras de uma forma que histórias como “Black Panther (2018)” – essa em um gênero completamente diferente -, “Com Amor, Simon (2018)”, “Podres de Rico” e “Para Todos os Garotos que Já Amei (2018)”, foram completamente deixadas de lado. Dessa vez o panorama é diferente, atrizes e atores de diversas etnias, encontram-se num movimento de mudança direta nesse meio majoritariamente eurocêntrico. Por isso o filme de Jon M. Chu, onde Constance Wu é protagonista, sustentada por um elenco formado apenas por asiáticos, faz-se extremamente importante, por colocar certos grupos marginalizados no centro das narrativas medíocres que até então pertenciam à um grupo dominante da sociedade – branco e hétero. Precisamos desses clichês que tornam-se histórias completamente novas quando adicionadas à um padrão antropológico diferente, exatamente por uma questão de normalização do outro na sociedade. “Podres de Ricos” juntamente com “Para todos os Caras que Já Amei”, trazem de volta os elementos centrais de uma comédia romântica, adicionando à mistura uma nova perspectiva, necessária e demandada por muitos.

Tirando todo a crítica do script – e reitero a dizer que mesmo medíocre, funciona de forma incrível aqui -, o filme conta com um final muito bem pensado. Em um jogo de palavras esperto e ousado, a performance impactante de Michelle Yeoh (Eleanor Sung-Young) faz a sequência final ainda mais emocionante do que ela deveria ser. Toda sutileza passada apenas no olhar da brilhante atriz, conversa com a evolução da personagem e a frieza que demonstra constantemente. Mesmo que apagada em muitos momentos do longa, pela sua própria personagem, a performance da nossa eterna Gueixa – de Memórias de uma Gueixa – é crucial, muito bem pensada e carrega o filme durante a sequência final.

“Podres de Ricos” é extremamente importante, não por apenas ser um filme completamente centrado na cultura asiática, por anos marginalizada por Hollywood, mas também por ser uma celebração daquele povo, feita pelos próprios. Não há dúvidas que o que encaramos é um tipo de “revival” do gênero da comédia romântica, e ele já está sendo liderado por uma nova vanguarda: os asiáticos. O filme estreia dia 25 de Outubro nos cinemas brasileiros.