TRACK REVIEW: Dua Lipa & BLACKPINK – Kiss and Make Up

Dua Lipa e BLACKPINK são equivalências exatas entre o ocidente e oriente: dois atos com músicas que seguem meticulosamente as tendências da era dos streams, fortemente apilaradas em ritmos dançantes genéricos e pouco ambiciosos (mas que conseguem ser digeridos facilmente pelo grande público). Até os visuais delas possuem muito em comum: um fashionismo que vaga entre o a alta moda e o fast fashion, sempre mantendo um tom urbano que privilegia marcas em vez de uma identidade estética propriamente dita. No meio desse contexto, um ou outro surto de criatividade musical que rende materiais interessantes, como o pop viciante e cheio de soror de “New Rules” ou a urgência dançante e dramática de “Playing With Fire” – mas nada disso dura muito e, na prática, ambas são máquinas de músicas que tocam de fundo em qualquer loja da Forever 21.

De qualquer forma a colaboração entre essas forças faz sentido: Dua Lipa é uma estrela pop em ascensão e que vem colhendo bons frutos do alto investimento realizado em seu primeiro álbum, visando conquistar pelas beiradas um público ainda mais diversificado e amplo; já o BLACKPINK é um dos girlgroups coreanos mais populares no ocidente – e firmar essa popularidade com parcerias pontuais parece ser a estratégia mais que ideal para o grupo, que atua num ritmo de divulgação espaçado e trabalha num esquema de “menos é mais” (inteligente e agoniante na mesma medida).

Kiss and Make Up” não traz nada de muito inovador em relação às sonoridades em que as artistas já transitam, ficando numa zona de conforto que consegue tornar a parceria entre elas mais natural e cômoda, sem parecer uma “colagem” de partes como algumas colaborações costumam parecer. Não que elas possuam a maior química do mundo, mas tudo funciona. Com produção da dupla canadense Banx & Ranx (que não possui muito no currículo além de uns singles do Sean Paul), a colaboração navega por uma sonoridade tropical house vinda diretamente dos maiores hits do Spotify em 2016 e se equiparando muito com algumas das produções mais preguiçosas do Major Lazer, especialmente a famigerada “Lean On”.

Apoiando-se em uma letra fácil e também não muito inventiva sobre um relacionamento conturbado (mas que ainda é importante o suficiente para não ser destruído), a música traz uma divisão bem clara da Dua Lipa e BLACKPINK na primeira combinação de versos e refrões, deixando a britânica fazer toda a introdução da canção e depois dando o espaço certo para o grupo coreano brilhar por conta própria. A contribuição do grupo aliás opta por um segundo verso todo em coreano, o que serve para dar a sensação de que as garotas ainda mantém a sua identidade como ato de kpop apesar de estar colaborando com uma grande artista ocidental.

A dinâmica entre as artistas só vem ser melhor trabalhada lá para a metade da faixa, onde elas intercalam frases predominantemente em inglês e com um pouquinho de coreano no meio também. Considerando que o BLACKPINK é uma girlband relativamente equilibrada, todas as garotas ganham frações bem equivalentes na canção, com apenas a voz da Rosé ganhando um destaquezinho ou outro a mais porque né… vocalista principal. Ainda assim, “Kiss and Make Up” sofre de uma previsibilidade enorme e não traz um senso muito grande de importância, sendo menos uma música interessante em seu próprio mérito e mais uma espécie de tratado internacional musical, uma política da boa vizinhança entre o pop ocidentalizado britânico-americano e o kpop – estilos que são bem mais vizinhos do que a distância geográfica pode dar a entender.