Cavaleiros do Zodíaco: O Sailor Moon para gays discretos

As crianças mileniais, que cresceram entre o final dos anos 90 e o início dos anos 2000 sabem o quão importante foi ligar a televisão na emissora de TV favorita e ficar por horas vidrado na frente daquele aparelho digital. Animes como “Os Cavaleiros do Zodíaco”, “Yuyu Hakusho”, “Shurato” e “Sailor Moon” estavam no auge de seus respectivos sucessos em terras brasilis, criando a primeira onda de inserção desse tipo de otakice no nosso país. E, mesmo que “Sailor Moon” dividisse os pais pela questão social de gênero (afinal, qual garoto poderia ver guerreiras lunares lutarem com pernocas de fora e objetos cintilantes e feminilescos sem ser reprimido nessa época?), “Os Cavaleiros do Zodíaco” tentou muitas vezes – sem nenhuma intenção – suprir a necessidade da criança viada que existia dentro de todo mundo. Isso mesmo, o anime que seu pai deixou você ver no lugar de “Sailor Moon” era na verdade uma versão menos “viada” daquilo que o próprio anime oferecia: guerreiras #lacrativas e codificadas por cores que enfrentavam vilões não menos tombadores e espalhafatosos.

Ambos lançados pela primeira vez em mangá, “Sailor Moon” e “Os Cavaleiros do Zodíaco” não são da mesma época. Enquanto as guerreiras lunares tiveram seus quadrinhos lançados em 1992 por Naoko Takeuchi – autora e ilustradora e atual aposentada -, os guerreiros de Atena viram a luz do dia no longínquo ano de 1986, frutos da criação de Masami Kurumada – também autor e não especificamente um bom ilustrador. Porém, as duas obras seguem o que podemos chamar de uma premissa bem próxima uma da outra: grupos de cinco jovens distintos que unem-se para a defesa uma figura “soberana” ao chamado divino de alguma força desconhecida por eles. É uma premissa inspirada diretamente pela franquia japonesa Super Sentai, que rendeu séries como “Changeman” e, aqui no ocidente, é conhecida por ser a base criativa de “Power Rangers”. E é exatamente por isso esses elementos em comum que ambos os animes trouxeram que a audiência jovem que não podia assistir “Sailor Moon”, se sentia representado ao enxergar em “Os Cavaleiros do Zodíaco” os mesmos moldes, mas com normas sociais de gênero diferentes. Aquela série de garotos de armadura não era nada mais… que guerreiras mágicas para garotos.

Adaptada à televisão japonesa pela Toei Animation em 1992 – indo até 1997 com seus mais de 200 episódios -, “Sailor Moon” gira em torno de cinco adolescentes do dia a dia que se transformam em poderosas defensoras do Reino Lunar, representando não só a Lua, como também os planetas do nosso sistema solar, baseando seu aspecto fantasioso fortemente na astrologia e um pouco da mitologia greco-romana. As amigas da protagonista Usagi (Serena aqui no Brasil) aprendem e crescem com seus poderes, também lidando com o fato de terem a vida dupla de adolescentes normais e guerreiras intergalácticas, impedindo que as forças do mal consigam tomar posse da Terra e acabar com o legado da Rainha Serenity. Em outras temporadas também são incorporadas outras Sailors protetoras dos planetas mais afastados do sistema solar, expandindo ainda mais o grupo e a mitologia do anime. É importante ressaltar que “Sailor Moon” revolucionou o seu gênero por incorporar não apenas o já conhecido “garotas mágicas”, mas a supracitada influência das séries Super Sentai, criando uma marca que seria disseminada futuramente por outros animes/mangás do mesmo cunho, como “Glitter Force”.

Já em “Os Cavaleiros do Zodíaco” – também produzido pela Toei, de 1986 até 89 – existe o mesmo padrão com pouquíssimas mudanças. O personagem principal, Seiya, é forçado a ir ao Santuário de Atena, na Grécia, para obter a sagrada armadura de bronze de Pégaso. Após despertar o cosmo (como é chamado os poderes bafônicos dos cavaleiros) e conseguir o poderoso traje, o nosso herói volta ao Japão para reencontrar sua irmã mais velha da qual havia sido separado na infância, e então é envolvido em um torneio com outros cavaleiros que também possuem armaduras baseadas em constelações e que futuramente tornam-se aliados em prol de deter um mal maior. Baseando-se fortemente na mitologia grega e na astrologia, o anime destaca em seu enredo um grupo de 5 jovens para defender uma das personagens principais, Saori Kido, que seria a reencarnação da deusa da sabedoria, Atena. Dessa forma, eles enfrentam vários cavaleiros de Prata e de Ouro e demais vilões que geralmente sempre possuem o mesmo intuito de sequestrar a coytada da Atena por motivos muitas vezes meio ridículos. Os 5 cavaleiros centrais que nos remetem fortemente às guerreiras sailors, não só pela personalidade mas também pelos poderes especiais, cores específicas de seus “uniformes” e principalmente as breves “transformações” que ocorrem ao longo dos episódios, sequências de animação que são quase clássicas.

No Brasil ambos foram transmitidos basicamente na mesma época. Em uma primeira tentativa, os dois se encontravam na emissora Rede Manchete, um por conta do sucesso do outro, unidos em um segmento de desenhos para crianças – onde os pais podiam delimitar bem qual dos dois assistir – e recebendo reprises incessantes. Depois da falência da emissora, ambos foram licenciados pela Alien International e reprisados no Cartoon Network, canal de TV por assinatura, também na mesma época. Porém, enquanto “Sailor Moon” não teve um retorno triunfal à TV aberta, sendo exibida apenas sua segunda temporada no programa da Eliana, anos depois “Os Cavaleiros do Zodíaco” ganhou um “relançamento” alardeado pela emissora aberta Band, que também ficou responsável por transmitir episódios inéditos do anime no Brasil (e nunca o fez devidamente). Claro que só temos uma única palavra vinda de um quote da Lolly Vômito para esta situação: MACHISTAS.

Para os gays no geral, não ter podido experienciar o hype de “Sailor Moon” durante a infância foi uma perda cultural das mais significativas, mas, se pensarmos pelo lado bom, “Os Cavaleiros do Zodíaco” cumpriu um papel importante diante dessa situação: o anime serviu como o tapa-buraco discreto para a obsessão das crianças viadas por guerreiras espalhafatosas, glitter e piruetas afeminadíssimas – trazendo elementos totalmente comparáveis aos de “Sailor Moon”, mas tudo por debaixo do tapete.

Aspectos “Garotas Mágicas”

O Mahou Shoujo – garotas mágicas – é um sub género de anime/mangá e um tipo de personagem feminina com poderes mágicos, popularizado por séries como “Sailor Moon”, “Sakura Card Captors” e “Glitter Force/Pretty Cure”. Enquanto “CDZ” – como é abreviado por muitos – é uma história completamente centrada e protagonizada por homens, é bem nítido o quanto ela flerta com aspectos femininos e elementos do “mahou shoujo”, não só para expandir sua audiência para meninas japonesas que gostam de “yaoi” – gênero de mangá que foca em relações homossexuais e é bastante popular entre o público do anime -, mas também pelo aspecto mitológico do universo construído por eles, que permite um glamour ou outro. O “Mahou Shoujo” é composto de várias características definidoras, sendo uma dessas o fato de que as garotas mágicas sempre recebem seus poderes de um objeto mágico que as transformam em guerreiras todas poderosas. Ao longo das obras de Mahou Shoujo, as personagens principais vão aprendendo a lidar com seus poderes e controlá-los, além de sempre demonstrarem uma imensa vontade de se aprimorar por saberem que não são nada sem aqueles objetos mágicos e poderes milagrosos.

Em “ Os Cavaleiros do Zodíaco” o poder central vem das próprias armaduras de diferentes tipos e também do cosmo do Cavaleiro, força que foi produzida desde o Big Bang segundo a própria série. A própria equipe por trás do anime deixa bem claro que os cavaleiros não são nada sem as suas armaduras – e o que seriam essas armaduras além dos famosos objetos mágicos do Mahou Shoujo?

Além disso, há também ao longo da série as animações de “transformações”, que são bem características em obras Mahou Shoujo. Em “CDZ” há logo nos primeiros episódios transformações dos personagens como Hyoga, Shun e Seiya, que partem de pessoas comuns para grandes heróis defensores de um bem maior, tudo utilizando uma animação cheia de piruetas e frescuras para mostrar que eles estão vestindo suas armaduras. O brilho, a armadura e a música por trás – até a pose no final -, é tudo muito protótipo das transformações do Mahou Shoujo. Outro aspecto de um anime com certificado “garotas mágicas” de conteúdo são as motivações das lutas. Em muitos desses animes, as motivações não podem ser odiosas/vingativas, elas preservam a paz, amor e a justiça. Talvez por uma questão social de construção de gênero, que coloca a mulher sempre como um mais delicado e pacífico (lacrei), mas isso é assunto para outra pauta – o que importa aqui é a inserção desses valores no anime dos defensores de Atena. Todos aqueles que mostram uma posição ruim ou caótica no primeiro ato da primeira temporada, são “purificados” ao encontrarem-se com nosso personagem principal, usando seus poderes para a manutenção desses valores citados. O poder da mágica, do amor e da esperança pode transformar qualquer coisa!

Esses aspectos do Mahou Shoujo foram abertamente abraçados pelos desenvolvedores da série spin-off “Os Cavaleiros do Zodíaco Ômega”. Propositalmente ou não, a equipe por trás da franquia reconheceu que a obra original flertava fortemente com tais elementos, fazendo diferente dessa vez, ousando abrir uma porta nova que apenas agregaria visualmente ao legado da série e deixando tudo ainda mais sissy e nada discreto. Enquanto isso, na série original vemos grandes quebras de paradigma de gênero, como o fato de alguns cavaleiros usarem armaduras em tons mais “femininos” – como a armadura de Andrômeda do personagem Shun. Guerreiros afeminados mas poderosos são apresentados sem grande acanhamento, como o próprio Shun de Andrômeda, o cavaleiro de prata Misty e o cavaleiro de ouro Aphrodite de Peixes – que inclusive usa batom e lacra muito no santuário. Enquanto as mulheres em si tem um papel geralmente mais humilde em “CDZ”, não é de se estranhar que figuras classudas e glamurosas como a de Saori Kido ganharam o coração de vários mini viados com síndrome de Regina George, criando inclusive o famoso meme da DEOZA, figura importante na internet brasileira durante os primeiros anos dessa década. Para alegrar ainda mais as pocs mirins, a série também trazia muitos tons de homoerotismo, como os closes demorados no corpo musculoso e desnudo do vilão Saga de Gêmeos enquanto ele tomava banho ou mesmo a famosa cena do Shun esquentando o Hyoga na casa de Aquário. Deliciannnnn.

O estilo Super Sentai

“Sailor Moon” foi o primeiro anime de garotas mágicas que se unificou seu estilo ao de Super Sentai, que, como citado anteriormente, é uma franquia transmitida no japão que mais tarde foi recriada como “Power Rangers” aqui por essas bandas. Sentai é uma palavra que significa unidade militar e por isso ela é incorporada nos desenhos como um grupo de pessoas uniformizadas destinadas a combater forças do mal.

Após o fenômeno que “Sailor Moon” foi, as histórias foram reformuladas para estarem nesses padrões: um grupo de garotas mágicas sempre com um destino em comum, o que se refletiu em obras relevantes nos anos seguintes, como “Guerreiras Mágicas de Rayearth”. Em “CDZ” não foi diferente. Mesmo tendo surgido antes de “Sailor Moon”, essa noção de ter uma unidade de pessoas poderosas e codificadas por cor, que apostam no poder da amizade, buscam o mesmo objetivo e enfrentam um inimigo em comum é extremamente semelhante nas duas obras, e acabou tornando “CDZ” um refúgio atrativo para os meninos que gostariam de ter assistido “Sailor Moon” mas não podiam fazê-lo por causa de normas sociais de segregação de gênero.

Os grupos principais de ambos os animes eram formados por 5 pessoas, que defendiam valores iguais e obtinham forças especiais do espaço/astrologia. Sem contar nas semelhanças reais das personalidades entre esses grupos. Shun e Hyoga em “Os Cavaleiros do Zodíaco” são personagens que flertam com traços femininos, dialogando muito bem com a ideia da androginia, assim como Rei e Lita (Nome horrível que deram a Makoto Kino) eram em suas respectivas posições em “Sailor Moon” – esses são exemplos do começo do anime, ao longo temos homens se transformando em mulheres e até romance lésbico disfarçado (!!!). Naoko rainha, sociedade japonesa nadinha.

As semelhanças são claras, e os aspectos “mágicos” de “CDZ” são fortíssimos e continuam presentes em adaptações mais recentes (como “Saintia Shô”, spin-off da franquia TOTALMENTE focado no público feminino). Enquanto esses dois animes fizeram parte da infância de diversas crianças pelo Brasil – que hoje fazem parte da comunidade LGBT -, é notável que essas amarras só criam frustrações desnecessárias, pois na essência, seguem a mesma vertente. A franquia “Cavaleiros do Zodíaco” continua tentando se manter relevante nos tempos atuais, tentando emplacar um sucesso televisivo ou literário até hoje, já que ainda possui um sucesso sólido no ocidente e é o que mantém os cofres da Toei Animation preenchidos com alguns centavos. Enquanto “Sailor Moon” continua preservando seu legado, não tendo rendido nenhum spin-off até hoje e tendo como material mais recente apenas um remake malsucedido, “Sailor Moon Crystal”, que veio com a proposta de incorporar a história original do mangá (e falhou).

A comunidade LGBT é marginalizada desde sua primeira idade, de forma sutil, mas sempre sendo privada de certas ações. Assistir “Sailor Moon” era uma dessas, assim como brincar de outras coisas também eram proibidas. Mas no meio de tanta privação, é no mínimo um suspiro de alívio ver o quão semelhante e aviadada a narrativa de “Os Cavaleiros do Zodíaco” era. Desde seus aspectos visuais, até a moral da história, temos em nossas mentes um pouquinho do que é ser uma garota mágica discretona e fora do meio, o que serviu como base para formar as pintosas empoderadas que nós lutamos para ser hoje em dia.