Nasce Uma Estrela: o renascer de Bradley Cooper e Lady Gaga

Em sua quarta recriação, dessa vez para os tempos modernos, a franquia “Nasce Uma Estrela” revive da forma mais pura e autêntica: deixando claro que tem algo a dizer. O nascimento que testemunhamos não está só no enredo do filme, mas também em Lady Gaga e Bradley Cooper, que encontram-se cheios de primeiras vezes. Enquanto uma se aventura na atuação, outro segue pela via da direção e do canto e o encontro dos dois não deixa de ser explosivo, resultando em uma jornada épica, com momentos trágicos e muita música.

Ally (Lady Gaga) é uma jovem cantora e garçonete que tem sua vida mudada ao conhecer Jackson Maine (Bradley Cooper), um renomado cantor dos Estados Unidos. No primeiro momento, o encontro dos dois parece não levar em nada, mas ao se desenrolar com conversas e mais conversas, que rendem momentos incríveis como Lady Gaga dando um soco em um homem branco ou cantando Shallow em acapella de madrugada na frente de um supermercado, a estrela (Ally) nasce, enquanto seu parceiro se afunda cada vez mais em problemas com álcool. Os momentos polarizados na carreira do casal minam o relacionamento dos dois.

“Nasce Uma Estrela” teve sua primeira versão lançada em 1937, com a estrela Janet Gaynor no papel da heroína que Lady Gaga toma o lugar nessa versão. As diferenças são claras, mas o enredo das quatro versões são semelhantes: tendem a mostrar o paradoxo da indústria entre queda e ascensão. O filme em questão faz tudo que lhe é necessário, se afasta de grandes nomes como Barbra Streisand e Judy Garland, apresentando Gaga como uma potência a ser reconhecida, tanto em suas composições, quanto em sua atuação – arrepiante, por sinal.

O roteiro ousado e extremamente moderno, a escolha estética visual e os números musicais deram ao fã do que pode ser chamado de “franquia” saudosas referências ao passado e fez um grande marco na sua originalidade, fazendo com que uma história clichê e já vista três vezes antes possa parecer algo refrescante mesmo assim. O sentimento puro da versão de Judy Garland aqui é mantido muitas vezes,e é notório que Gaga se inspirou na sua veterana para muitas escolhas de atuação. Mas não deixou de incorporar também, a sua quase-madrinha Barbra Streisand – que elogia a cantora/atriz constantemente -, tendo posto em pauta toda a atitude que a personagem de Streisand conseguia passar com o fogo em seus olhos, além do fato de que a versão de 1976 é a que mais se assemelha com essa de 2018.

Em seu primeiro ato, a explosiva “Shallow” arrebata qualquer um que não havia sido comprado até então. O primeiro dueto de Ally e Jackson acontece em um turbilhão de semiótica e sentimentos misturados. Será que a timidez de Ally impedirá sua voz de brilhar? A química entre os dois atores principais é quase palpável e um dos principais fatores para nos levar a torcer para que eles continuem essa jornada em dupla. Tudo nesse ato acontece na mesma adrenalina de vários festivais de rock. Somos levados em uma turnê, através da viagem de Jackson, onde descobrimos o talento de sua companheira, não só por suas composições, como também por performances, como a de “Always Remember Us This Way”, que acaba fazendo com o que o jogo vire e Ally se torne o centro do espetáculo.

Lady Gaga – que já é uma grande estrela – renasce nessas duas horas de filme, assim como o seu companheiro de cena. A vencedora de um Globo de Ouro por seu trabalho em American Horror Story: Hotel conecta o público da forma mais pura possível, com uma personagem temperamental e emotiva na medida certa, dialogando com quem assiste. Sua complexidade é tão bem trabalhada que em momento nenhum a vemos em contradição, seus objetivos são claros e a atriz também nos entrega um prato cheio de momentos arrepiantes. Sendo sua primeira vez atrás das câmeras, Bradley consegue captar toda adrenalina de ser uma grande estrela do rock através da sua filmagem. Ele traduz os sentimentos do enredo para a linguagem de grandes clássicos de cinema. Sua identidade visual está em todo canto. Além disso temos também a naturalidade da música rock pairando sobre o diretor em questão. Suas músicas, mesmo que nem sempre tão boas quanto as de sua veterana nesse quesito, mostram que Cooper se comprometeu em entregar um trabalho impecável.

Por conta disso, a experiência sonora adicionada à visual mostra grandes estrelas nascendo, puxando a audiência para viver naquela imersão do universo do filme. Muito disso também deve-se ao fato de que “Nasce Uma Estrela” pega emprestado diretamente da realidade que conhecemos – shows, programas de TV e outros -, nos mostrando que aqueles personagens são críveis, assim como suas músicas. Os números musicais do filme são impecáveis, em que atingem o seu ponto máximo na performance final, I’ll Never Love Again, ganhando cada um inocentemente, arrancando lágrimas de nossos olhos pela pureza da letra e a significância da música naquele momento.

A atuação de Bradley Cooper está excelente. Mesmo que a Estrela em questão fosse Lady Gaga, o seu companheiro de cena nos deu uma ótima atuação de uma estrela do rock decaindo aos poucos de seu pedestal. O alcoolismo e como ele foi tratado aqui – como uma doença que precisa ser curada -, vem sem embrulhos. A vontade que o filme tem de transparecer isso, é tão grande quanto os constantes arrepios que eles nos passam.

Bradley e Gaga renascem em suas melhores formas durante essas duas horas. Por conta disso, a experiência de “Nasce Uma Estrela” deixa os sentimentos à flor da pele, com um final que afasta totalmente essa versão das outras, sendo quase como um musical sem o peso do resto da “franquia”. Não me espanta que tanto tem se falado sobre o “Oscar” da estreante da vez. O filme estreia hoje nos cinemas de todo o Brasil.