BICHAFORK: A Star is Born Soundtrack – Lady Gaga, Bradley Cooper

Em um big bang de ritmos, e estreias, acontece um nascimento: a trilha sonora do filme “Nasce Uma Estrela” de Lady Gaga e Bradley Cooper. A partir dessa explosão nos encontramos a frente a frente de músicas condutoras de uma viagem do country-rock até o pop, bebendo diretamente da fonte das influências do mundo real de Gaga e transcendendo as barreiras entre artista-personagem que ficam bem claras, tirando o fato óbvio da cantora ter trabalhado com amigos produtores que já passaram pela sua carreira.

A trilha sonora soa perfeitamente como uma progressão do começo ao fim, as músicas acompanham os momentos do filme e quando soltas mostram que sustentam-se como um álbum conjunto, de uma dupla que encontra divergências entre seus ritmos. Por isso, deixa-se bem demarcado, no primeiro momento em que ambos aparecem, a personalidade dos dois cantores: Lady Gaga em “La Vie en Rose” como mais centrada e clássica, já Bradley Cooper, estreante, em “Black Eyes” como a grande estrela de country-rock conturbada que ele é marcado para ser no filme. A voz de Cooper não soa como uma de um iniciante. Mesmo que o ator tenha falado abertamente sobre aulas de canto, a naturalidade do caminho que ele traça com essas músicas características de estrelas do country, é de se impressionar, fugindo totalmente do fato dele ser estreante no ramo.

Essa identidade sonora acontece bem demarcadamente entre esse primeiro ato da trilha sonora, “Black Eyes”, “Alibi”, “Maybe It’s Time” e “Out of Time” tem influências claras de produtores respeitados no meio country como Lukas Nelson, letras de Lady Gaga e os riffs de guitarra responsáveis por definirem o tom, assim como as cordas suaves do violão de Jackson Maine – o personagem de Cooper. Não é até “Shallow” que vemos uma mudança de ritmo bem clara. Os duetos a seguir mostram uma estabilidade que dialoga diretamente com o casal, “Music To my Eyes” vem com um refrão bem singelo e apaixonante: “Me leve ao seu paraíso/Em uma carona musical/Estou apaixonado pela sua música baby/Você é música para meus olhos”.

“Always Remember Us This Way”, o primeiro solo de Gaga e um dos muitos pontos altos da trilha sonora, marca a clara transição de Ally&Jackson Maine para apenas Ally. “Amantes na noite/Poetas tentando escrever/Não sabemos rimar mas droga nós tentamos”, a cantora declara em um piano simples ao seu fundo, pintando no nosso imaginário o cenário amoroso que formou-se entre ela e o seu par romântico. Essa música é uma carta de amor ao seu parceiro, dizendo a ele que não importa o que aconteça, ela sempre se lembrará deles daquela maneira – debaixo do sol se pondo, e sem a banda tocar. A faixa de Ally dialoga fortemente com as influências musicais da cantora Lady Gaga na vida real: nos faz lembrar dos clássicos de Elton John, e o rock mais contido de Paul Mccartney. Presente na produção da faixa, junto com Dave Cobb, Gaga mostra que sua voz pode ser traduzida para vários gêneros, destoando completamente do seu pop raiz, até mesmo do seu country de Joanne. Isso se prova ainda mais quando “Look What I Found” começa, seguindo o legado de Ally ou Gaga, como um nome a ser representativo do pop-rock.

Abruptamente, “Heal Me”, aparece para mudar completamente a vibe country/rock que veio se estabelecendo com os solos de Cooper. O EDM produzido por Dj White Shadow, que também aparece na vida real em álbuns de Lady Gaga, é suave, soa quase como “The Cure” do catálogo da intérprete, porém sem o tropical house. “Me cure/Deus sabe que nada irá/Irá me curar/Oh, antes que seja tarde demais”, a cantora expressa em seu refrão, combinando perfeitamente com a instrumental, por vezes parecendo uma luz celestial que de fato, cura. Assim como a balada não presente nos filmes – até os créditos -, “Is That Alright?” cantada pela vencedora do Globo de Ouro. Da forma mais pura possível, as notas de piano vem por trás de uma composição onde a personagem confessa ao seu par: “quero você no fim da minha vida, isso parece estar bom?”. Mostrando a vulnerabilidade e toda a emoção do personagem.

Outro ponto alto do filme e da trilha sonora, é quando a produção conjunta de DJ White Shadow e Lady Gaga nos apresenta uma experiência imersiva entre realidade-ficção. Sem “spoilar” de forma direta o que ocorre no filme, mas Ally performa “Why Did You Do That?” inteira, sendo quase um marco da transição “menina inocente” para “grande estrela do pop”. Mostrando já outra postura, a cantora/personagem que antes cantava sobre seus sentimentos declara: “Por que você aparecia com uma bunda dessas ao meu redor?/Você está fazendo com que todos os meus pensamentos sejam obscenos”. Mas que como música pop funciona perfeitamente, sem todo o aparato do filme ou com ele. Dessa parte em diante temos uma variedade de músicas do mesmo estilo que foram feitas para soarem despretensiosas, produtos do mainstream, mas que podem funcionar mais para uns do que para outros. “Hair Body Face” e “Before I Cry” ainda podem ser boas canções para quem gosta de riffs simples e esse tipo de balada que flerta abertamente com o r&b.

O último ato da trilha sonora – e também do filme -, deixa um vazio e uma marca muito grande em todo ouvinte. A extremamente emotiva “I’ll Never Love Again” mostra Ally em um momento frágil, vulnerável e de muita desesperança. “Não quero sentir outro toque/Não quero começar outra paixão/Não quero conhecer outro beijo/Nenhum outro nome saindo de meus lábios”, o começo do refrão sustentado por uma orquestra arrepiante chove no resto da música, influências sonoras que servem, ao meu ver, para recriar grandes ápices das baladas mais clássicas da indústria da música. “I’ll Never Love Again” é a síntese de tudo que foi feito dentro da trilha sonora, e fora dela também, servindo de ótimo fechamento para o álbum.

É fato que a experiência visual do filme “Nasce Uma Estrela” eleva sua trilha sonora para níveis de qualidade diferentes do que apenas ouvir o álbum. Mas não se engane, a experiência de tal álbum também não é um desperdício, mostrando que ambos aspectos do trabalho foram pensadas de forma soltas. As grandes baladas como “Is That Alright?” e “I’ll Never Love Again”, funcionam perfeitamente sozinhas tão quanto o blues de “Maybe It’s Time” e o country-rock de “Shallow”.

O que Gaga e Cooper criaram aqui foi um parto de experiências trocadas. Enquanto o segundo ajudou a primeira no aspecto cinematográfico, na trilha sonora ocorre uma troca de padrão: Lady Gaga produz, canta e ainda ajuda Bradley Cooper na jornada musical de ambos. Por conta disso, a trilha sonora de “Nasce Uma Estrela” tem influências claras da ganhadora de 6 Grammys, e prova-se como uma grande concorrente para as premiações de fim de ano: pois serve como um grande álbum de estreia de uma dupla experiente.

Lady Gaga e Bradley Cooper, A Star Is Born Soundtrack (2018)

Gêneros: Dance-pop, EDM, Country, Blues, Rock

Destaques: Shallow, Always Remember Us This Way, Why Did You Do That?, I’ll Never Love Again

Nota: 7.8