TRACK REVIEW: Charli XCX & Troye Sivan – 1999

Em 1999 eu provavelmente devo ter quebrado minha fita VHS de “O Mundo das Spice Girls” de tanto ter assistido, passado manhãs eternas com medo de epilepsia fotossensível ao acompanhar episódios de Pokémon no programa da Eliana e visto o clipe de “Genie In a Bottle” da Christina Aguilera alcançar posições altas no Disk MTV apresentado pela Sabrina Parlatore. Talvez a minha mente esteja me enganando um pouco sobre essas coisas, mas a minha memória afetiva traz trechos e entrecortes não muito claros de acontecimentos desse tipo sempre que eu tento lembrar como era a minha vida quase 20 anos atrás. A questão é que, no fim das contas, sempre fica a sensação de que eu não vivi essa época: eu tinha seis anos, mal posso recordar de detalhes com exatidão e a minha experiência nem de longe se compara a quem viveu a adolescência ou início da vida adulta durante o fim do milênio. Ah, o Y2K também devorou o meu cérebro.

Eis que o Charli XCX e Troye Sivan, dois artistas não-tão-populares mas não-tão-desconhecidos, se uniram em uma parceria também não-tão-esperada sobre como eles queriam voltar para 1999 e como todos os elementos nostálgicos que remetem a esse ano em específico são incríveis e merecem aquela alta dose de enaltecimento que só a cultura tumblr que os desenterrou poderia propagar. Isso me encucou por um tempo pois os artistas tinham, respectivamente, sete e quatro (!!) anos nesse bendito último ano do milênio e, sendo assim, viveram 1999 tão pouco quanto eu ou até menos. Ademais eu também comecei a me perguntar se aquela famigerada fita VHS do filme das Spice Girls era minha mesmo. Será que eu danifiquei fita da locadora e nunca arquei com as consequências disso????

Mas é, você não precisa ter vivido plenamente certo período de tempo para vender nostalgia. Mais do que isso, dá para conceber a nostalgia como uma idealização temporal que independe da experiência – é por isso que os anos 80 continuam sendo um parâmetro tão atual atual de estética cool, e é também por isso que “1999” da Charli e do Troye soa tão falsa mas funciona tão bem. Sendo uma faixa bastante imediata, ela abre com um refrão grudento como já é de praxe em faixas da Charli (que deve trabalhar com um padrão quase científico para conseguir lançar tantas músicas rapidamente engajantes), se desenvolvendo depois por cima de graves saltitantes (a la Fancy da Iggy Azalea), tecladinhos de house music e palminhas incansáveis.

Tirando o tecladinho insistente, nada no instrumental ou em algum outro aspecto sonoro de “1999” remete muito diretamente aos anos 90, e talvez isso seja uma escolha consciente, já que emular o pop daquela época talvez deixasse a música mais forçada do que ela já tende a ser. Em vez disso, toda a carga da nostalgia é jogada na letra, que se dedica a fazer quase que uma lista de menções honrosas e referências intermináveis a elementos da cultura pop noventista, indo de sapatos a programas de TV e personalidades da mídia como Britney Spears e Eminem – tudo de forma meio genérica como é de se esperar.

No fim das contas, “1999” parece somente uma desculpa para que os dois artistas brinquem de cosplay de Neo e Trinity, TLC, Spice Girls e milhares de outras referências no tratamento visual da canção. E a faixa também não tem ambições muito maiores que a brincadeira: ela só existe para divertir por um tempo limitado e lembrar vagamente que os anos 90 foram menos piores que o nosso caos atual na medida do possível.