BICHAFORK: Kim Petras – Turn Off the Light, Vol. 1

Fazer a review de qualquer coisa da Kim Petras inevitavelmente exige o acionamento de uma série de questões complexas e que provavelmente não possuem respostas universais: qual é a validez do trabalho de uma artista que é associada a um produtor acusado de estupro e está bem ciente disso? Precisamos separar a arte da pessoa? A artista do produtor? Estaríamos financiando indiretamente um estuprador ao ouvir o material da Kim nas redes de streaming? (sim). Precisamos cancelar a artista em questão? Tudo isso poderia render um texto enorme e aprofundadíssimo, mas que no final das contas não chegaria a lugar algum. É por isso que essa review da última mixtape (ou EP, como preferirem) da gatinha alemã vai dispensar qualquer contexto problemático e focar unicamente na música: a gente aborda esse tipo de assunto mais sério em outra ocasião, e de preferência em outro local do blog com nome mais apropriado que BICHAFORK.

Devotado a um dance pop tipicamente europeu, hermético e sem arestas, o “Turn Off the Light, Vol. 1” mistura essa sonoridade com temáticas obscuras, sombrias e alinhadas ao conceito de Halloween, possuindo uma atmosfera muito bem-definida. Iniciando com uma introdução curta intitulada “o m e n“, a mixtape é rápida em inserir o ouvinte dentro de seu universo, que é envolto por uma tensão soturna traduzida por sons macabros e progressivos de synthwave. Logo em seguida somos atingidos pelos vocais vocoderizados de Petras na abertura de “Close Your Eyes“, música que segue alguns clichês comuns a faixas de divas pop, abusando de um tom convidativo e sensual e, claro, sempre se dirigindo a um interesse amoroso. Como a temática é Halloween, a cantora também se coloca como uma amante insaciável e monstruosa, uma personagem perigosa e dark que soa ameaçadora por cima das camadas pulsantes de synth que compõem o instrumental da canção. As repetições robotizadas do título da música são altamente grudentas, mais do que o refrão “oficial” dela em si, rendendo um número satisfatório e que abre o apetite do ouvinte para o que vem pela frente.

A synthzeira continua mais pesada com “TRANSylvania“, faixa totalmente instrumental que tem um quê das produções do Justice para o álbum “Cross”, com sintetizadores nada sutis, batidas super comprimidas e pequenos cortes de samples vocais. É quase como se a música fosse uma versão pop farofa e acessível de obras como “Genesis” e “Waters of Nazareth“. “Turn Off the Light” dá prosseguimento à mixtape com sons menos pesados e urgentes que as faixas anteriores, mas sem deixar o clima vagaroso – mantendo um ritmo crescente que se reflete em seu refrão infeccioso e que muda de intensidade a cada repetição. O ponto alto da faixa é o monólogo da própria Elvira, A Rainha das Trevas (!!!), que é sampleada lá pela metade da canção com um discurso que versa sobre descobrir o seu eu verdadeiro na escuridão. Spooky. Por outro lado, “Tell Me It’s a Nightmare” continua seguindo o estilo sonoro do material mas tem um tom bem mais dramático, com um refrão que alterna entre coros lentos e um tom suplicante e digitalizado na voz da cantora.

Mais um interlúdio toma conta com “I Don’t Wanna Die“, que segue mais ou menos o padrão de “TRANSylvania”, mas não conseguindo o mesmo efeito e sendo… bem… altamente skippable. “In the Next Life“, última faixa completa da mixtape, é também um de seus pontos altos, começando com um refrão vagaroso mas que desemboca em um break eletrônico e #peligroso com a voz da Kimzinha mais metalizada do que já havia ficado antes e ad-libs assombrosos por cima de um instrumental supersaturado. O segundo verso é todo em alemão, e claro que esse idioma causa em qualquer gayzinha aquele aspecto de mistério e enigma herdado de execuções sucessivas de músicas como “Sheiβe” da Lady Gaga. A faixa parece acabar rápido demais, mas logo o instrumental dançante e synthzudo volta na “outroduction” “Boo! Bitch!“, quase que uma sequência estendida da sua antecessora e de longe a melhor união de música completa e interlúdio da mixtape.

No geral, a “Turn Off the Light, Vol. 1” convence em seu objetivo de criar um projeto de pop dançante que inclua uma atmosfera assombrosa e obscura mas sem levar isso a locais muito exagerados ou desconfortáveis, tirando inspirações de materiais conhecidos por sua excelência pop como o Blackout da Britney Spears, por exemplo. Talvez tenha faltado um empenho maior nas letras, pois se tem uma coisa que me cansa é protótipo de diva pop repetindo as mesmas letras sobre ser uma mulher fatal, irresistível e perigosa etc. E, bom, TODAS as faixas da mixtape seguem esse padrão lírico engessado e que não vai a lugar nenhum, a ponto de, em alguns momentos, eu achar os títulos das canções mais interessantes que o conteúdo lírico delas em si. Isso tudo me traz até uma comparação provavelmente desleal e incômoda, mas que ficou borbulhando na cabeça durante toda a audição do trabalho: o intuito do “Turn Off the Light, Vol. 1” é basicamente desenvolver uma versão mais obscura do tipo de persona e temática que a Kesha desenvolveu na faixa “Cannibal”, mas só conseguindo tangenciar o nível de universalidade pop ou imediatismo malicioso da letra da veterana. Boo bitch.

Kim Petras, “Turn Off the Light, Vol. 1” (2018)
Gêneros: Dance-pop, Electronic, Europop
Destaques: In the Next Life, TRANSylvania, Turn Off the Light

Nota: 7.7