GWEN STEFANI: O Top 10 definitivo de singles

Hoje, 3 de outubro, é celebrado o aniversário de 49 anos da Gwen Stefani – idade essa que provavelmente vai causar certo choque a qualquer pessoa leiga sobre a artista, já que ela nem de longe aparenta ter chegado a essa cifra de quase meio século. Com seus segredos estéticos intocados (que vão do congelamento facial ao platinamento perfeito de seu cabelo que não exibe as naturais raízes escuras há décadas), Gwenzinha é uma força atualmente esquecida no mundo pop, mas que possui um curriculum vitae poderosíssimo que transita entre gêneros como o pop-rock, ska, dance pop, reggae e j-pop (risos) desde o final dos anos 80.

Sendo um blog formado pela raríssima raça de fãs da Gwen, nada mais justo que o JESUSWORECHANEL comemorar esse aniversário da forma que a gente mais gosta: rankeando de forma autoritária os singles da rainha num top 10 esquizofrênico (mas feito de coração). Para que o post não fique chato e previsível, já que a singlegrafia solo da Gwen soma dificilmente apenas 15 lançamentos, incluímos também na lista os singles da gata com o No Doubt, possivelmente esquecidos pelo público consumidor de música atual e relegados a espaços de nostalgia que não os valorizam o suficiente. Ok, let’s rank it.

10. Ex-Girlfriend

Muito antes da Marimoon popularizar os cabelos gritantemente coloridos com tinturas Márcia duvidosíssimas ou a Charli XCX pôr as saias de tartan novamente no mapa, a Gwen já abalava esse visual no clipe de “Ex-Girlfriend”. Toda essa estética fez parte da reformulação imagética #trendy que o No Doubt passou no início dos anos 2000 para a divulgação do álbum “Return of Saturn”, e o legal é que o próprio título do álbum denuncia que a Gwen andava se vestindo de cantora anacrônica de PC Music no auge de seus 30 anos (!!). No geral, “Ex-Girlfriend” é um single meio ressentido e amarguinho sobre o início do relacionamento da Gwen com o vocalista do Bush e seu futuro-ex-marido, Gavin Rossdale, incluindo versos que são respostas diretas a músicas da banda do cara, sendo quase uma diss track mais passivo-agressiva do que realmente agressiva. Essa é uma das amostras mais legais de músicas animadas do No Doubt, com uma construção instrumental diferente do que eles faziam geralmente, mesclando o ska típico da banda com um pop punk mais nervosinho, além da melhor exploração do vocal quase “chorado” da cantora. Tudo fica melhor com o clipe, que traz um visual extra colorido inspirado no anime Kite (tipo realmente inspirado cena por cena) e uma narrativa boba que era indispensável em vídeos musicais da época. Destaque para a sobrancelha extremamente fina da Gwen que graças a deus não durou muito.

9. RIch Girl (feat. Eve)

“Rich Girl” foi o segundo single da carreira solo da Gwen e pavimentou o caminho para que o seu debut album, o “Love.Angel.Music.Baby”, atingisse o nível de iconicidade que ele possui hoje em dia. Contando com a colaboração da sumidíssima rapper Eve, que anos atrás já tinha feito uma parceria com a Gwen no hit “Let Me Blow Your Mind”, “Rich Girl” explora um universo sonoro com o qual Gwen já estava familiarizada, com elementos do reggae bem presentes, mas adicionando aquele twist de pop e R&B singulares ao seu material solo. A faixa exala um tom nostálgico desde sempre, e talvez isso se dê pelo fato de que ela sampleia algumas músicas já conhecidas, incluso nisso o icônico sample de “If I Were a Rich Man” do musical Um Violinista no Telhado. Esse também é o primeiro single em que a Gwen nomeia abertamente a sua obsessão por colecionar adolescentes japonesas e usá-las como chaveirinho, incluindo um verso inteiro da canção dedicado a apresentar nomes fictícios para suas dançarinas asiáticas e pôr em prática um sutil e safadíssimo apagamento étnico /o/.

8. It’s My Life

Talvez esse seja um ponto duvidoso dessa lista, visto que “It’s My Life” é basicamente um cover que o No Doubt lançou às pressas pra uma coletânea de singles nem tão memorável assim no início da década passada. Mas bem… quem viveu a MTV em 2003 e 2004 sabe o quão marcante foi o clipe desse música e como ele representa uma das imagens mais icônicas da Gwen na época em que o No Doubt ainda rendia um caldo. A faixa é uma versão do hit dos anos 80 da banda Talk Talk, e por isso é muito mais dedicada ao synthpop e pop-rock do que ao ska e reggae que eram a especialidade do No Doubt. Como citado anteriormente, o clipe é faz esse single funcionar, mostrando a Gwen no papel de uma femme fatale serial killer que mata os integrantes da banda um a um, incluindo um assassinato por eletrocutamento ao jogar um eletrodoméstico numa banheira, o que sem sombra de dúvidas deve ter inspirado a personagem Nazaré de Senhora do Destino. As cenas da Gwen sendo presa ou surtando no julgamento com certeza devem ter marcado a vida de qualquer cacura 2000s kid, então isso garante a “It’s My Life” um contestável mas confortável oitavo lugar na lista.

7. 4 In the Morning

Se tem um aspecto que eu amo na carreira solo da Gwen, mas acho que é pouco apreciado até pelos 4 fãs que ainda a seguem, é a capacidade da artista de compor ótimas baladas. Indo da sentimentalmente responsável “Cool” aos hinos esquecidos “Early Winter”, “Rare” e “Wonderful Life”, Gwenzinha realmente colocava esforço em compor números mais emocionais e slow-tempo, sempre dando uma sutileza gostosinha a essas canções e nunca deixando elas caírem num dramalhão a la Adele. E, bom, quando eu pensei em alguma balada dela para integrar a lista, veio automaticamente “Cool” à cabeça, exatamente por ser a mais conhecida e ter seu aspecto icônico na carreira solo da gata. Mas olha, vamos ser sinceros: “4 In the Morning” é muito melhor e bem menos apreciada. A música é o terceiro single do “The Sweet Escape” e marca o começo de uma capengagem da Gwen nos charts que engoliu todos os últimos singles do álbum, mas quem se importa? Essa é uma das faixas mais sinceras da cantora, com uma letra meio agridoce e que reflete essa sensação em suas melodias nem tão chorosas e nem tão confortáveis. A sonoridade inteiramente inspirada em baladas dos anos 80 e 90 é suave e convidativa, dando um tom nostálgico que completa a faixa e torna ela um dos pontos altos do “The Sweet Escape” sem muita sombra de dúvidas.

6. Simple Kind of Life

Mais uma da era marimoonica da Gwen, “Simple Kind of Life” é bem antagonista a “Ex-Girlfriend” e, no geral, traduz bem melhor a sonoridade do No Doubt na época do “Return of Saturn” do que o primeiro single desse álbum. A canção foi a primeira experiência da Gwen como compositora solo de uma faixa, e reflete em ritmo lento de balada power pop as ambições dala em montar uma família e viver, como o próprio nome da música indica, um estilo simples de vida. Esses temas de matrimônio e vida doméstica foram frequentes nessa fase criativa da banda, e demonstravam um pouco do cansaço da cantora em relação a sua carreira artística, que andava no auge do estardalhaço devido ao sucesso do “Tragic Kingdom” (que rendeu quase 3 anos de turnê ininterrupta da banda pelo mundo). O amargor na letra representa um momento bem específico na vida da Gwen e uma característica que nunca foi retomada por ela depois (por mais que algumas faixas do “This is What the Truth Feels Like” tenham tentado revivê-lo), se propagando até nos visuais psicodélicos e viajados do seu clipe.

5. Hollaback Girl

É claro que é estranho “Hollaback Girl” entrando nessa posição já que ela é a signature song da Gwen Stefani. Eu certamente amo a faixa mas é, hm, talvez o excesso de execuções tenha me feito enjoar um pouco dela. Sei lá. A questão é que “Hollaback Girl” foi um dos momentos pop mais divertidos dos anos 2000 e uma faixa infecciosa até hoje, com um refrão e versos memoráveis e ultrajantes na mesma medida. A música surgiu da vontade da Gwen de brincar com uma entrevista de ninguém menos que Courtney Love: Courtneyzinha, colega da Gwen na safra de mulheres notáveis do pop-rock dos anos 90, certo dia resolveu metaforizar a fama como um colégio no ensino médio, onde a Gwen seria a cheerleader fútil e a própria Courtney uma outcast “fora do meio”. Pegando esse mote, Gwen se apropriou da imagem de cheerleader e criou todo o contexto de “Hollaback Girl”, ironizando a entrevista e dando o seu próprio tom quirky à coisa toda – contando para isso com batidas fortes de hip-hop, trompetes de banda marcial e a palavra “merda” sendo repetida nada menos que 38 vezes.

4. Just a Girl

Just a Girl” é uma faixa sarcástica e de comentário social ácido que a Gwen nunca mais conseguiu repetir na carreira: é um momento bem único tanto para ela quanto para o No Doubt, e com certeza um dos pontos altos do já incrível álbum “Tragic Kingdom”. Muito antes do feminismo ser desenterrado e diluído para ter apelo popular massivo, quando só um nicho de mulheres na música o abordavam abertamente ou não, Gwenzinha já trazia os preceitos do movimento na letra desse single (que não é nada sutil e ataca o ouvinte de frente com trechos como “Oh, eu sou apenas uma garota / Bonita e frágil / Então não me deixe ter nenhum direito”). Estrago feito, a música se tornou o primeiro sucesso do No Doubt e um lançamento definidor para a música nos anos 90, além de ter seu efeito amplificado pelo clipe icônico e trendsetting.

3. What You Waiting For?

“What You Waiting For?” é o primeiro single solo da Gwen Stefani e um ponto de virada extremo em sua carreira. Não tão popular como sucessos posteriores dela e geralmente bem esquecido quando se trata do catálogo da gata, o single é uma exploração de conceitos que lida com bloqueio criativo, ansiedade e a própria pressão que a Gwen vinha sofrendo na época para se lançar como solista. Escrita em parceria com Linda Perry (conhecida mais pelas baladas de estádio que compôs para a Christina Aguilera, como “Beautiful”), “What You Waiting For?” é frenética e urgente, lidando num ritmo rápido com a dimensão cruel do tempo e os ponteiros incansáveis do capitalismo™. O clipe é incrível do começo ao fim e ajudou a definir alguns dos parâmetros bem conhecidos da carreira solo da cantora, como o cabelo platinadão estilo Marilyn, a roupas de babadinhos usadas durante toda a era “Love.Angel.Music.Baby”, a obsessão da Gwen por cenários fantasiosos (muitas vezes inspirados por filmes), e óbvio, a exploração descarada de garotas asiáticas utilizadas como humanas de estimação.

2. Don’t Speak

Don’t Speak” dispensa apresentações: ela é simplesmente uma das baladas mais importantes dos anos 90 e não tem muito como se contrapor a isso. Composta em um momento de crise do relacionamento da Gwen com o seu então namorado e baixista do No Doubt, Tony Kanal, a faixa é confessional do início ao fim e parece captar em sua letra a dor de um término como poucas músicas conseguiram fazer até hoje. Eu afirmo sem titubear que essa é a melhor letra que a Gwen já escreveu, o que é perceptível pelo empenho que ela pôs na expressão de seus sentimentos e na própria interpretação da música, que possui de longe a performance mais emocional que a cantora já conseguiu imprimir em seus vocais. Como se não bastasse a música em si, o clipe ilustra um pouco a tensão que a banda passava na época do “Tragic Kingdom”, representando o destaque excessivo que a mídia e a gravadora deram à Gwen Stefani e os sentimentos desconfortáveis que isso causou no resto do grupo.

1. The Sweet Escape (feat. Akon)

YEEE-HOOOOO. É até meio óbvio que “The Sweet Escape” encerraria essa lista como o melhor single da Gwen Stefani no geral, pois qual o single mais definidor da carreira dela inteira que esse? A música é simplesmente tão poderosa em seu replay value que para muita gente é provavelmente a primeira coisa que surge na cabeça quando o nome da cantora é acionado (ou talvez sejam os gritos de de yee-hoo já citados, mas ainda tá valendo). Contando com parceria e produção do Akon (que por sinal no âmbito da parceria não faz muita coisa além de um ad-lib ou outro), “The Sweet Escape” é a melhor definição de pop perfection que a década de 2000 conseguiu prover, sendo um pop leve e adocicado que tira inspirações da musicalidade retrô do Doo-Wop mas com um twist que a torna moderna e grudenta o suficiente para ter sido um hit top 40 numa época em que o electropop andava finalmente se tornando uma coisa. Como não poderia faltar em se tratando de um single da Gwen, o clipe cumpre com excelência o papel de complementar a canção, vindo de uma época em que as produções visuais de divas pop ainda recebiam um ótimo capricho e investimento. Iconografias com chaves, exploração de asiáticas e (muito, mas muito) dourado são os elementos-chave para tornar o vídeo uma das coisas mais memoráveis da década passada e até material para uma das melhores paródias já veiculadas na TV também.