TRACK REVIEW: Gloria Groove – Apaga a Luz

Não é surpresa para ninguém que a arte drag movimenta o pop brasileiro, mas o que Gloria Groove faz em “Apaga a Luz”, é pura arte. Mostrar a realidade romântica do jovem LGBT, em uma época tão sombria e de forma tão sutil, é uma tarefa quase impossível, mas que a drag queen faz com excelência. E por esse feito, misturado com um r&b progressivo, respeitando suas raízes do hip-hop e rap, que “Apaga a Luz” de Gloria Groove recebe o nosso Certificado Chanel da semana.

Desde antes de “Bumbum de Ouro”, Gloria Groove vem mostrando que sabe fazer arte e além disso, sabe se projetar nos seus projetos. A drag queen que mistura ritmos raízes do Brasil, como funk e axé em suas músicas, continua com seu histórico impecável de singles que vem lançando desde o ano passado. Agora diferente de seus anteriores, “Apaga a Luz” mostra uma Gloria mais suave, sultry e r&b, cantando sobre a dificuldade que é manter um relacionamento sadio sendo LGBT na sociedade brasileira. E por fazer isso da forma mais sutil possível, passa despercebida para a maioria do público, mas não para quem participa ativamente da comunidade.

A proposta com o clipe e a música, segundo Gloria Groove, é retratar uma época em que a drag esteve em um relacionamento abusivo, e a sonoridade da faixa mais suave combina perfeitamente. Quase como um lamento confessional para o outro, Groove revela seus sentimentos verdadeiros sobre o seu par, em um refrão triste e ao mesmo tempo delicioso por conta do tom inesquecível da drag. “Apaga a luz e deixa o tempo passar/Baby, você não perde por esperar/Apaga a luz, não há nada a temer/Apaga a luz quando é só eu e você”, Gloria Groove cantando de uma forma bem controlada, mostrando que sabe passar a emoção necessária da música, e que de quebra conhece bem o seu instrumento – além do seu Bumbum de Ouro -, fazendo uma combinação perfeita com a sonoridade presente no refrão, que não é nem o ápice da música mas é grudento, parecido com as investidas de Beyoncé mas com a melancolia sutil de SZA.

Além dos versos muito bem estruturados da canção, resultando na fluidez impecável da faixa da gata, “Apaga a Luz” também conta com a marca original de Groove: seu flow único. Como a artista versátil que ela vem provando ser, brincando com os padrões de hiper masculinização de rappers no Brasil e no mundo todo, Gloria Groove sempre coloca seus raps na maioria de suas faixas, e com seu novo single isso não seria diferente. O “alter-ego” rapper da drag queen não decepciona em momento nenhum, rimando perfeitamente, “Eu quero te falar tudo que eu mais quero/Quero a vida do seu lado e começar do zero/Se eu pudesse fazer mais, eu faria mais/Pra te ver bem mais que feliz, eu te juro, sincero”, em uma sincronia perfeita com o ritmo da música, quase como implorando ao par romântico da cantora para aceita-la do jeito que ela é. Os raps breves presentes nas faixas de Gloria Groove mostram perfeitamente a artista versátil que ela propõe ser, transitando de ritmo em ritmo, mas nunca perdendo sua marca.

O time de produção da faixa, Pablo Bispo, Ruxell, a própria Groove e Sergio Santos, não é um muito longe da cantora, muito menos do que há de presente no mainstream brasileiro. Já estiveram fazendo remixes de “Muleke Brasileiro” e em faixas de artistas como Iza e Anitta. E mais uma vez o time executa o seu trabalho muito bem, fazendo a música servir o seu propósito: mostrar a versatilidade da artista em mais uma investida em outro ritmo.

O r&b de “Apaga Luz” nos convida à uma viagem até a discografia de SZA e Frank Ocean, ou até mesmo algumas de Beyoncé, e na última parte que essa viagem concretiza. A passagem para o “Outro” da música é totalmente o que foi feito em “Nights” ou em “The Weekend” – Ocean e SZA respectivamente -, “Ah, e se gritar meu nome alto/Todo mundo ouvirá/ Ah, e se gritar meu nome”, com a voz distorcida dando uma vibe mais sentimentalmente pesada – quando paramos pra pensar sobre o que é a música e quando assistimos o clipe -, e a entrada do trap, Groove poderia ter até emplacado outra música, mas serviu de ótima finalização e nos tira o biscoito da boca assim que estamos prestes a morder, só para termos que voltar a música toda e passar pela mesma experiência incrível – que só melhora.

Gloria Groove prova mais uma vez que é um nome a ser reconhecido na música pop brasileira, e que ao contrário do que muitos querem e acham, ela não vai parar por aí. Para além disso, é importantíssimo que hoje tenhamos artistas drag queens tomando conta das nossas paradas e trazendo conteúdos incríveis como ela, pois assim não precisaremos dar o pink money à cantores héteros quando artistas LGBT’s tomarem frente.