Dreamcatcher – "What"

Dreamcatcher talvez tenha sido o grupo com a reformulação mais bem-sucedida do K-pop, já que vamos ser sinceros: o MINX era um projeto sem muita personalidade ou qualquer chance de ser bem sucedido no cenário atual da música coreana. Chupinhando um pouquinho do tipo de sonoridade rockeirinha que já rola com grupos idol japoneses há algum tempo – vide grupos como SCANDAL, BiSH e BABYMETAL – mas que ainda não era desenvolvida por nenhum grupo na coreia, o Dreamcatcher se agarrou fortemente às estéticas das trevas, fazendo disso parte de sua própria identidade e conseguindo ao menos se diferenciar um pouco no mar de girlbands iguais que compõem o K-pop a cada dia que passa.

Enquanto eu não me impressionei com nenhum dos lançamentos anteriores das garotas desde o redebut, era claro que o grupo estava tentando solidificar a sua imagem e sonoridade obscuras durante esse tempo, e o resultado desse esforço aparece agora no melhor e mais recente single delas, “What“. Diferentemente do material antigo do Dreamcatcher, “What” não emana uma impressão de que surgiu como uma canção pop comum e depois foi modificada para se adequar ao estilo roqueiro do grupo: “What” nasceu para ser um número de rock, conseguindo exalar a energia e dramaticidade que esse estilo musical naturalmente possui sem precisar de muitas firulas ou forçação de barra com visuais góticos para que isso aconteça.

É claro também o refinamento maior na produção da música, que é construída inteiramente com a guitarra sempre em primeiro plano mas não a deixa soar ruidosa e difusa como acontece em “Chase Me” ou “Good Night” – agora o instrumento reverbera bem mais confortavelmente na melodia, parecendo ser trabalho de algum músico mais experienciado na produção de rock. A estrutura da música privilegia um desenvolvimento típico de um pop punk mais comercial, com versos lentos e progressivos que desembocam em um refrão poderoso e urgente no mesmo nível. No caso de “What”, o que enaltece ainda mais essa construção é a letra da música, que segue relativamente de perto a temática de “sonhos” quase sempre exploradas nas faixas de divulgação das garotas (risos), mas agora é carregada de um aspecto bem mais reflexivo, pessoal e caótico – sem interesses amorosos para guiar a historinha como geralmente acontece. A letra trabalha fortemente um sentimento de desolamento amplificado por versos que constroem cenários solitários e sensações desconfortáveis, e não é à toa que o nome do EP que contém a faixa se chama “Alone in the City”… it is called concept, girlies.

Se antes a temática onírica era abordada nas canções das garotas mais pelo seu poder de metáfora ou de criar letras certeiras para se encaixar no clima de fantasia obscuro que o grupo é especializado, em “What” os sonhos são levados a outro patamar, com sua simbologia sendo explorada em cada verso ou cena de seu clipe, dando uma impressão de que essa música poderia ser facilmente a “Bring Me To Life” coreana – e faltou realmente muito pouco para ela atingir esse patamar de iconicidade.