bibliopoc #6: Filhos de Sangue e Osso/Trail of Lightning e o resgate de mitologias perdidas.

Em um mundo cheio de J.K. Rowlings e George R.R. Martins, onde as obras não tem quase nada para contar e são cheias de referências à cultura majoritariamente branca, a vontade de ler histórias novas cujo principal objetivo é incorporar mitologias perdidas, aumenta cada vez que um livro de “bruxaria” é lançado. Por isso as estreantes Tomi Adeyemi e Rebecca Roanhorse, são bem sucedidas no que fazem. Além de escreverem histórias empolgantes, trazem algo de novo para a bandeja: adaptam em suas obras, respectivamente, culturas africanas e nativo-americanas trabalhando em gêneros que são dominados por uma cultura europeia.

Filhos de Sangue e Osso, Tomi Adeyemi.

“Children of Blood and Bone” “Filhos do Sangue e Osso” como será chamado aqui no Brasil -, é o primeiro livro de Tomi Adeyemi, e também o primeiro da série “O Legado de Orisha”. O livro jovem adulto, é baseado na mitologia iorubá, passando por uma situação similar a da África subsaariana. A obra de Tomi segue uma menina chamada, Zélie, uma jovem conhecida entre seu povo por lutar contra a opressão. A menina perde sua mãe aos seis anos de idade, ao mesmo tempo que repreende a magia dentro dela por ordens de uma realeza que manda executar todos os cidadãos majis – nome dado à pessoas que podem usar mágica. A partir dessa ordem, a magia some do mundo e o povo de Zélie, incluindo os majis de outras aldeias, são obrigados a viver como escravos da colônia do Reino de Orisha. Entretanto, quando a filha do rei, Amari, rouba um artefato valioso para a volta da mágica no mundo, Zélie e seu irmão Tzain embarcam em uma aventura para retomar o elo do povo com os deuses, entre eles Oyá e Yemoja, para só então conseguir libertar o povo da opressão.

A autora do livro, Tomi Adeyemi, constata constantemente em suas entrevistas o quão inspirada no Brasil ela foi. Aluna de intercâmbio em Salvador, Bahia, Tomi diz explicitamente que descobriu a origem dos Orixás durante esse período. Por isso, a obra pode ser bastante proveitosa para aqueles que acreditam e pregam tais ideologias. Assim como também é um incrível suspiro de refrescância para os que estão cansados das mesmas histórias sobrenaturais jovem-adultas, onde tudo se passa na idade média. Em Children of Blood and Bone, algo de novo é posto em pauta, um cenário antropológico novo, mesmo que a história não seja tão fora do comum assim.

O livro segue em um formato bastante parecido à “Guerra dos Tronos”, onde há um capítulo para cada personagem, porém, dessa vez narrados em primeira pessoa. Esse formato é duvidoso para muitos, mas aqui ele funciona perfeitamente. Temos três narrativas que se interligam constantemente, seguindo princípios diferentes e objetivos mais diferentes ainda. Porém, na jornada para recuperar o elo entre os deuses e os majis, todos se unem em um mesmo propósito.

A história da obra em si pode até não ser uma das mais revolucionárias – afinal de contas livros onde o objetivo principal é derrotar um reino opressor existem há tempos -, mas o que nos ganha é a incorporação de uma mitologia que há tempos foi esquecida por uma mídia que brinca com nossa imaginação tão livremente. O aspecto fantasioso é imprescindível ao livro, elevando-a à níveis de qualidade que se fossem abordados por uma outra perspectiva – uma cultura diferente -, seria mais um livro cansativo onde tentam atingir o pico das obras jovem-adulto de J.K. Rowling. Também há no livro o uso de mágica elemental, seguindo quase o mesmo sistema de Avatar, cabendo perfeitamente nas comparações entre as duas obras.

Entretanto, a história principal toma um rumo diferente. O romance principal que se desenvolve é chato, e por “Children of Blood and Bone” ser exatamente uma obra corajosa em seus aspectos mitológicos que esse aspecto da obra soa destoante, vazio e desnecessário. A personagem principal parece ser tão forte, independente, “empoderada” – nos termos mais militantes possíveis – que um romance para reger as decisões da mesma, e de personagens coadjuvantes parece não ser a melhor das opções.

Mas ainda assim, Filhos de Sangue e Osso, é um livro decente, que cumpre seu papel majoritariamente: introduzir uma mitologia nunca introduzida antes no gênero literário.

Trail of Lightning, Rebecca Roanhorse.

Escrito pela também estreante, Rebecca Roanhorse, “Trail of Lightning” é completamente diferente do primeiro. Compondo a estante do gênero adulto contemporâneo, o primeiro livro da série “The Sixth World”, ainda é uma ótima leitura para os amantes da fantasia urbana.

“Trail of Lightning” se passa em um mundo quase pós-apocalíptico, onde enchentes tomaram conta e devastaram o planeta Terra, quando Dinetáh (a reserva Navajo) renasceu. Deuses, heróis e lendas andam lado a lado, assim como os grandes monstros. Maggie Hoskie, nossa personagem principal, é uma caçadora de monstros Dinetáh, cheia de dons sobrenaturais. Quando uma cidade pequena precisa de ajuda para achar uma menina desaparecida, Maggie é a melhor – e última – esperança deles. Mas o que é descoberto sobre o monstro, é muito maior e mais aterrorizante do que o esperado.

Relutantemente, Maggie aceita a ajuda de Kai Arviso, um curandeiro inconvencional, e juntos saem desbravando a reserva para revelar pistas de lendas anciãs, trocar favores com tricksters, e batalhar magia negra em um mundo de tecnologia detoriante. Isso tudo se entrelaça com o passado da personagem principal, um dos obstáculos a ser superado para sua sobrevivência.

“Trail of Lightning”, assim como o primeiro citado, faz um ótimo trabalho incorporando a mitologia nativo-americana em larga escala. Colocando deuses ativamente na história, assim como outros mitos e lendas. A interação que temos entre nossa personagem principal e tudo ao seu redor, é incrível, assim como as relações entre o mundo antes da grande enchente e depois dela. É importante percebemos que o cenário pós-apocalíptico nessa obra não cabe igual à todas as outras já exploradas, simples e puramente pelo fato do “fim do mundo” ser dado assim como ele é descrito para nativos, de acordo com suas crenças. Isso faz toda a diferença, pois apresenta a nós uma reformulação de um clichê que já rola na grande mídia há muito tempo – sem contar que os cenários onde o fim do mundo já aconteceu, são muito melhores onde os personagens precisam pará-los.

O livro de Roanhorse é violento, cru e sem medo de referenciar a cultura escolhida. Ele é uma fantasia urbana nos mesmos parâmetros da série “Buffy: A Caçadora de Vampiros”. Ele lida com tudo que propõe, e sua escrita em primeira pessoa te puxa para um mergulho no mar de traumas que compõe a complexidade da personagem principal. Criando uma personagem que em um primeiro momento pode soar como um arquétipo de “mulher forte”, Rebecca Roanhorse vai desmembrando camadas de Maggie à cada momento, nos apresentando uma personagem fora de qualquer clichê, mostrando ao leitor o poder que ela tem e trabalhando muito bem na representação de PTSD (Estresse pós-traumático)

Além de personagens bem trabalhado, Roanhorse também apresenta twists imprevisíveis, guiando quem lê por lugares que você não imaginaria, e tirando seu chão na conclusão dos eventos. É válido pensar em Trail of Lightning como um quase-thriller de fantasia urbana, onde nossa personagem principal tem que lidar com decisões de vida ou morte, ainda assim revelando os mistérios.

Enquanto a leitura vai fluindo é perceptível que o livro não é apenas um onde você encontrará uma narrativa inovadora, com um aspecto fantasioso esquecido até então, mas sim uma história de superação, onde a personagem principal batalha para revelar o mistério ao mesmo tempo em que usa o mesmo esforço para sair de amarras abusivas e traumáticas.

A importância das mitologias esquecidas.

Essas abordagens feitas por Roanhorse e Adeyemi são de extrema importância para a celebração de povos marginalizados até então. Em um tempo onde a intolerância religiosa e a misoginia imperam, ter obras de tal cunho é uma grande resistência literária, podendo significar até mesmo a atemporalidade de tais obras.

É importante que essas narrativas ganhem vida, é importante que elas sejam trabalhadas cada vez mais. Existem milhares de histórias para serem contadas, mas muito pouco interesse nela, por isso Adeyemi e Roanhorse são bem sucedidas em suas obras, por serem diferentes e abrirem portas para que mais histórias assim sejam contadas.

Enquanto “Trail of Lightning” não tem previsão de uma versão traduzida para o português, ou um contrato com alguma editora brasileira, a segunda edição da série “The Sixth World” se chama “Storm of Locusts” e tem previsão de lançamento para Abril do próximo ano (2019). Entretanto, “Children of Blood and Bone” será lançada com o nome “Filhos de Sangue e Osso“, pela editora famosa por traduzir obras como Harry Potter, no selo Fantástica Rocco – que também irá traduzir os próximos da franquia.

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