American Horror Story: Apocalypse e o vício das referências de Ryan Murphy

*O post a seguir contém spoilers de American Horror Story Apocalypse*

A oitava temporada de “American Horror Story” começou, e com ela, mais uma série de inconsistências escritas, pondo em prova a capacidade de Ryan Murphy em criar algo sólido. Dessa vez com o nome “Apocalypse”, a série busca retratar um cenário distópico, pós-apocalíptico, unindo temas das temporadas anteriores – Coven e Murder House – em prol do agrado aos fãs. Com os conceitos datados da temporada atual, e as auto-referências disfarçadas de “crossover”, já podemos imaginar a qualidade rede Record de novelão batido que isso deu – lembrando que a emissora tem uma novela com o mesmo nome.

Continuando a sua tradição de abordar temas diferentes à cada temporada, “American Horror Story: Apocalypse”, tem uma pegada um tanto diferente do que já vimos nas mãos do seu diretor. Mesmo sendo datado, e ninguém aguente mais obras cujos temas são esses, um cenário distópico e pós-apocalíptico nunca tinha sido abordado antes por Ryan Murphy. E para adicionar ainda mais nessa sopa, Murphy também disse que dentro da temporada, teríamos um “crossover” de duas passadas, favoritas de seus fãs: Coven e Murder House. Recuperando todos os seus expectadores do tumblr, o criador de “American Horror Story” parece estar mais interessado em encaixar essas duas, no lugar de criar uma obra sem a necessidade de auto-referência para provar sua relevância, resultando em uma grande bagunça – os temas propostos nessa troca nem conversam entre si.

E muito disso traduz para o “piloto” da temporada. O primeiro episódio começa já em uma sequência de mísseis nucleares explodindo sobre Los Angeles. E além da radiação desses misseis, não dá para deixar de ressaltar o quão radioativa essa sequência foi. Coco (Leslie Grossman) em um salão de beleza, sendo uma socialite interessada na vida de blogueira, recebendo a notícia do “fim do mundo” enquanto o caos vai se espalhando pela rua. Começando pelo fato de tudo, até o momento em que estão em uma “colônia”, parece ser um grande trailer estendido. Ryan Murphy não toma nem um episódio inteiro para apresentar seus personagens principais, muito menos para plantar a semente da organização conhecida como “A Cooperativa”. Essas informações nos são entregues em menos de dois minutos cada uma, e até mais da metade do episódio somos obrigados a engolir todo esse conteúdo sem nenhum aprofundamento. É entendível que certas informações sejam escondidas para que ao longo da série possamos de fato descobrir mais sobre – e os twists que ele planeja -, mas se vamos ter alguns sobreviventes da “grande tragédia” que se passou nos Estados Unidos, por quê não estão construindo algum sentimento na audiência, para que de fato possamos ligar para esses personagens?

A estratégia dessa vez é clara e crua: recuperar os fãs que se interessaram por temas anteriores, sem deixar de trazer coisas novas para a bandeja. Mas nada disso fala mais alto do que a inconsistência do escritor em suas manobras mirabolantes. Murphy é tão “atento” à contemporaneidade que a cada cinco minutos existe uma referência à algum “meme” da internet. Tão atento que sabe que sua investida em fazer um “crossover” das temporadas que mais fizeram sucesso entre a internet vai levantar a expectativa de vários, e realmente levantou, trazendo mais audiência à sua série que estava necessitada. O ponto de colocar tantas referências (e auto-referências) faz a série perder qualquer impacto que ela poderia ter, já virou uma piada interna entre toda a audiência. Não é como se Ryan Murphy não se levasse a sério, muito pelo contrário, dirige cenas com uma seriedade tão grande, mas com um script tão pobre, e premissas tão mirabolantes, que tudo o que ele quer passar acaba caindo aos pedaços.

Por essas e outras, que seus melhores trabalhos são retratados em outras épocas. Todo mundo lembra da primeira temporada de Feud, onde o diretor fez uma incrível produção, colocando mulheres na frente, e retratando a antiga Hollywood. Sua mais recente, Pose, onde as narrativas LGBTs parecem fracas de início, mas seus personagens continuam extremamente carismáticos. Assim como a própria American Horror Story, em sua segunda temporada, onde a série realmente atingiu seu auge falando sobre demônios e catolicismo. Todos esses trabalhos citados tinham só uma coisa em comum: não podiam fazer referências à contemporaneidade, pois se passavam em épocas passadas. E ele só funciona dessa maneira.

Mas nem tudo em “Apocalypse” é radioatividade. Com uma atriz principal negra, e gays abertamente assumidos em seu primeiro episódio, American Horror Story continua seguindo sua agenda de “mais diversidade”, sendo um dos pontos altos da temporada. Só falta saber qual o tratamento será recebido por esses personagens. Além disso, nomes fiéis à série, se encontram em posições diferentes. Sarah Paulson pela primeira vez, ao que aparenta até agora, não se interpreta uma posição passiva, ou um personagem emotivo – fora do arquétipo “mulher doida” que ele costuma ter -, assim como Evan Peters – ator que parece só trabalhar com Murphy -, não está representando um vilão. Mas sabemos que isso não tem longa duração, já que personagens anteriores são previstos de voltar por conta do “crossover”.

Não, não estou cobrando coerência do escritor, qualquer admirador, ou as pessoas que acompanham de longe, sabe o quão “American Horror Story” já se tornou uma série pelo puro entretenimento, muito mais que seus temas incríveis e, em teoria, bem trabalhados. Mas com “Apocalypse” parece que ele simplesmente desistiu de fazer qualquer esforço. As sequências foram fracas, o “terror” mais fraco ainda, e os personagens um tanto sem sal. Mataram mais da metade do mundo, inseriram um “plot” rápido de famílias despedaçadas e tentaram levantar um sentimento de caos no mundo, mas tudo que ele conseguiu foi quarenta e quatro minutos de puro vazio.

Mesmo com os não acontecimentos, ainda acredito que “Apocalypse” será uma das temporadas com maiores audiências do escritor. Pois além de tudo, recupera a sua base de fãs que resolveu abandonar a série há um tempo atrás. Não só pela ausência de “bons conteúdos”, como também pelo serviço que Murphy fazia de referenciar e auto-referenciar dentro de sua própria série (todos lembram quando personagens de temporadas anteriores apareciam nas atuais). “American Horror Story: Apocalypse” vai ao ar toda quinta-feira, às 16h, no canal de tv por assinatura, FX.

#americanhorrorstory #apocalypse #ryanmurphy #matéria

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