Um Pequeno Favor e a hibridez da comédia e do suspense

As palavras francesas espalhadas e a apresentação dos créditos em cores pastel não negam a vontade de Paul Feig de revolucionar o seu histórico como cineasta, entrando em uma nova área nunca explorada por ele – Caça-fantasmas (2016) nunca foi e nunca será um thriller. Mas é inegável que o diretor conseguiu lançar um híbrido entre o thriller psicológico e a sua típica comédia, em um projeto milimetricamente bem feito com Anna Kendrick e Blake Lively, twists mirabolantes e uma estética podre de chique.

Aqui nós acompanhamos a história de Stephanie (Kendrick), que cruza o caminho da misteriosa e sedutora Emily (Lively) e elas acabam se tornando grandes amigas. Elas são completamente o oposto: Stephanie é uma mãe daquelas de estereótipo de mãe suburbana, que se dedica a tudo na escola do filho e ainda por cima é vlogger de receitas caseiras. Já Emily é uma mãe quase que ausente, é PR de um estilista muito famoso e é conhecida por sempre apagar incêndios. Em uma dessas ocasiões, Emily pede que Stephanie vá pegar o seu filho na escola para ela, como um pequeno favor, e então some, sem deixar nenhum rastro e apenas uma Stephanie preocupada em tentar descobrir onde que sua amiga foi parar.

Conhecido por fazer filmes do gênero “comédia pastelão”, Paul Feig tem uma das melhores comédias de 2011 – Missão Madrinha de Casamento -, e mesmo que a qualidade de seus trabalhos seja duvidosa, não é de se negar que em Um Pequeno Favor ele conseguiu fazer o improvável: servir um prato cheio de suspense psicológico e ainda assim adicionar um toque humorístico à essa mistura. O híbrido que é apresentado para nós em quase duas horas peca muito pouco qualitativamente falando. O filme une uma dupla improvável, Anna Kendrick e Blake Lively, fazendo-nos rir e temer por toda a sua duração, confabulando conspirações do que poderia acontecer e desfazendo todas elas no minuto seguinte. Não há nenhum tipo de confusão aqui, o timing cômico e as situações tensas estão muito bem colocadas e são um deleite.

Mesmo que muitos tenham marcado o filme como mais uma tentativa de replicar o sucesso de “Garota Exemplar (2014)” – assim como ocorreu com “A Garota do Trem (2016)” – Paul Feig toma uma rota muito oposta à ele. Para um blockbuster do diretor marcado por suas comédias, o script é corajoso e ousado, colocando Kendrick e Lively em situações que muitos possam revirar os olhos e pensar “previsível”, mas que na sua essência são fora da caixa que abrange os trabalhos do diretor. Julgar esse filme por não ser um grande suspense psicológico é no mínimo vazio e frio, pois a todo momento ele tenta de forma tão sincera ser algo refrescante e novo, sendo quase impossível não marcá-lo como um dos maiores suspenses psicológicos desse ano.

Muito dessa lógica híbrida é percebida até dentro do próprio elenco. De um lado temos Anna Kendrick, interpretando Stephanie Ward, marcada por ser uma personalidade engraçada e fazer filmes que, em sua maioria, são comédias. Do outro, Blake Lively, sendo a mulher-enigma de toda história, Emily, marcada não por ser uma grande atriz, mas por dar essa aura diferente que agregou na dinâmica entre as duas. Ambas representando um lado da mistura que Paul Feig tentou fazer, e consequentemente alternando entre uma e outra. Em seus papéis, a dupla brilhou pela sua dinâmica e suas diferenças. Qualquer pessoa que pensava antes em colocar as duas em cena poderia ser considerada “louca”, nenhuma dessas atrizes tem algo em comum, mas em Um Pequeno Favor é exatamente por isso que brilham. A polaridade do script transcreveu-se através do elenco e da direção, criando um dos filmes destaques desse ano por sua excelência.

Ainda que Paul Feig tenha conseguido ser bem sucedido em muitas cenas, e essa hibridez no roteiro em momento nenhum não tenha soado forçada, o diretor nos entregou um final bem pior do que era esperado, infelizmente. No momento que estamos no terceiro ato, a história flui com tal rapidez que nos faz pensar se perdemos algo durante um piscar de olhos. São tantos twists bem pensados e bem apresentados, que o final em si falha em encontrar nossas expectativas, sendo uma das únicas vezes que o diretor não consegue andar cautelosamente nessa linha tênue entre o vazio e o impactante. Pois em filmes como esse, que tendem a mostrar um tom mais cômico à acontecimento que terão influência sobre o comportamento de personagens, é muito difícil passar para a audiência que devemos acreditar de fato no que acabou de acontecer.

Mesmo assim, os minutos finais, definitivamente, não apagam todo o marco que Feig teve em seu mais novo lançamento e esse é um dos filmes que você tem que ir assistir no cinema se tiver a oportunidade pois vale muito a pena. Um Pequeno Favor estreia dia 27 de setembro nos cinemas do Brasil.

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