bibliopoc #5: A sutileza de ser imortal em Circe.

Fazer um memoir é uma tarefa difícil. Unir isso à uma trama nunca dita antes, dando uma nova perspectiva à uma figura mitológica grega, é quase impossível. Mas Madeline Miller sempre aceita o desafio, e assim como seu antecessor – “A Canção de Aquiles” – seu mais recente trabalho “Circe” não falha em nenhum momento em sua tarefa: entregar um grande memoir sobre uma bruxa esquecida da mitologia grega.

O livro acompanha a vida de Circe filha de Helios, deus do Sol e o mais forte dos Titãs. Mas Circe é uma criança diferente. Não tão poderosa quanto seu pai, muito menos tão má quanto sua mãe. Aliando-se ao mundo dos mortais imersa em pura solidão, a personagem descobre que possui poderes diferentes dos deuses à sua volta, o poder da bruxaria que transforma rivais em monstros e faz os próprios deuses a reconhecerem como ameaça. Por isso, Circe é banida de sua casa, condenada a viver exilada em uma ilha deserta, afastada de sua vida passada e de todos que a rodeavam. Durante sua pena, a personagem principal desenvolve suas técnicas, aprendendo a domar bestas selvagens, como o Minotauro, e cruzando caminhos com figuras famosas da mitologia grega.

Mesmo que uma história de amor não tão grande quanto ao trabalho anterior de Madeline Miller, Circe se sustenta na sua própria temática, nos entregando um quase-memoir cheio de lamentos e momentos emocionantes. Para quem já leu, A Canção de Aquiles, sabe que as lágrimas escorrendo ao final são inevitáveis, a autora consegue te envolver de uma maneira tão vívida a ponto de sentir na sua pele tudo que ocorre durante a trama. Mas diferentemente do já citado, a bruxa é acompanhada por nós em uma jornada nada previsível, totalmente carregada pela própria personagem e suas decisões.

Circe, em sua essência, é puro e emocionante. Em poucas páginas – ou muitas, dependendo do leitor -, a autora nos transfere os sentimentos e precauções da própria “bruxa” de uma maneira sutil. Tão sutil que ao mesmo tempo que a faz, ainda insere lições de moral presentes na nossa própria época. Ser vingativa ou não? Sucumbir às mágoas ou deixar o peso para trás? Essas perguntas são arrastadas entre as páginas com elementos da mitologia grega e muitas aparições de deuses, e criaturas famosas.

Porém essa proposta temática tão atual nem é o melhor de “Circe”, o mais interessante sobre a obra sustenta-se na ideia de imortalidade: vemos o tempo passar, a civilização ser criada e o crescimento contínuo de nossa personagem principal, tudo isso sem nos desgastar em passagens repetitivas. Há momentos que a própria personagem, em seus pensamentos solitários constata que a temporalidade considerada por nós mortais, não é nada para deuses e criaturas que sempre estiveram, e estarão no universo – como as da mitologia grega.

E não para por aí. Circe considera a existência de outras mitologias e de até mesmo outros deuses. Por estar exilada, urge por liberdade e conserva uma sede por conhecimento desde o início do livro, até sua última página. Tudo na obra é extremamente interessante. E como era de se esperar de Madeline Miller, muito bem escrito.

Assim como “A Canção de Aquiles”, esse livro é fiel em sua adaptação. Não esconde nenhum acontecimento, e ainda expande nosso imaginário em dramatizar os mitos tão “secos” que aparecem para nós. Desenvolvendo-os e organizando-os em uma trama coesa e envolvente.

“Circe” é sem dúvidas um dos melhores lançamentos que aconteceram esse ano. Não só pela sua fidelidade em recontar tão bem esses mitos, como também por ser uma obra sensível, carregada pelo crescimento pessoal de uma figura “intocável”. Madeline Miller continua, e continuará, lançando clássicos atemporais, mostrando-nos outras perspectivas para figuras tão distantes da nossa realidade.

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