BICHAFORK: Sereismo, Huji Cam e múltiplas personalidades em Sunmi – WARNING

Ok, não existe muita novidade no fato de que a SUNMI é uma das solistas femininas mais interessantes do K-pop. Com uma carreira de idas e vindas do seu grupo de origem – as Wonder Girls – e uma estreia solo comedida em 2013, que rendeu os hits “24 Hours” e “Full Moon”, Sunmi agora desfruta de uma forte liberdade artística unida a um sucesso amplo, pavimentado com suas próprias escolhas e da viralização planejada ou não do single “Gashina”.

Depois de resultados mistos com a canção “Heroine” no início desse ano, que rendeu um leve furor de discussões sobre plágio, a gata tirou uns bons meses para trabalhar em seu segundo EP, “WARNING”. O trabalho veio imbuído em altas expectativas, tanto visuais quanto conceituais, visto que a Sunmi a cada lançamento mostra que é uma força criativa e devotada às várias minúcias de sua arte como poucas cantoras do K-pop são atualmente. “WARNING” é realmente a síntese dessa nova fase, um disco que tenta provar em seus singelos 19 minutos toda a versatilidade e qualidade do trabalho da Sunmi, que assina as letras de todas as músicas e composição de 5 dentre 7 faixas (um mimo autoral adquirido quando ela teve que pôr a mão na massa durante a última formação das Wonder Girls).

Como de praxe em um EP de K-pop, somos introduzidos ao material com uma (risos) intro, neste caso chamada “ADDICT“, um synthpop interessante mas não o suficiente para render uma faixa completa de fato. De acordo com a própria Sunmi, essa é a primeira música que ela compôs totalmente em inglês, o que é bem perceptível pela letra desconexa e a pouca confiança expressa pela cantora durante os versos – mas tudo é salvo pelo gancho da canção, que entoa a frase “who’s running the show?” de forma poderosa, conseguindo dar aquela excitação inicial que uma intro precisa fornecer.

Logo nos deparamos com “Siren“, faixa principal do mini-álbum e que possui um longo histórico, sendo inicialmente uma demo do catálogo das Wonder Girls e até cotada para ser lançada como single enquanto o grupo ainda estava em atividade. Por ter sido considerada pela finada girlband, a canção tem o pedigree retrô que sempre foi uma marca registrada das WG, um synthpop oitentista e com alguns twists modernosos (e que pode facilmente competir com “Lady” da Yubin pelo título de melhor single retrowave do ano). O forte de “Siren”, além do refrão viciante, é a aura misteriosa e ambígua que o single fornece, o que é amplificado pela letra da canção, que retrata Sunmi como uma mulher perigosa e que, por estar bem ciente disso, dá um aviso ao seu amado de que ele não deve se envolver com ela. A artista metaforiza essa temática lírica com a sereia da mitologia, que enfeitiça e naufraga marinheiros usando a sua voz. Nesse caso, ela puxa pelo lado mais “hardcore” do conceito sereia, referenciando diretamente a sirena, ser da mitologia grega que é mais ou menos a origem por trás da ideia de sereia moderna – e nisso surge o título do single e também todo o trocadilho interessante que ele tráz com a palavra “sirene”, remetendo diretamente ao tom de alerta da letra.

Experimentações com subgêneros que compõem o espectro da música pop surgem com as faixas “Curve” e “Black Pearl”. A primeira traz um R&B encorpado e construído com piano e bateria orgânica. Com um clima até um tanto dark, a faixa parece descrever a interação romântica ou sexual de Sunmi com alguém enquanto ela metaforiza esse momento com uma pista sinuosa, um caminho dificultoso que exige paciência e atenção. Já “Black Pearl” também flerta com o R&B, mas com um tom muito mais brilhante, retrô e sultry. A canção tem uma fluidez prazerosa, culminando em um refrão interessante e cheio de instrumentos de sopro que depois desembocam em pequenos solos de saxofone dignos de faixas do Kenny-G (risos). A parte lírica é um tanto quanto previsível, mas não menos interessante, com a artista se descrevendo como uma pérola superficialmente atraente por fora e com camadas bem mais densas e complicadas por dentro.

As duas faixas que surgem depois são as velhas conhecidas , o tropical house pulsante “Gashina” e o pop de estádio “Heroine“, que podem soar como fillers recicladas em um álbum já terrivelmente curto. A reciclagem no K-pop é quase uma demanda obrigatória, então enfiar esses dois singles no EP é uma decisão um tanto quanto esperada – e, pelo menos em uma nota positiva, as duas não estragam a coesão do trabalho e até podem funcionar muito bem para novos ouvintes que ainda não tiveram contato com essas canções. O encerramento é realizado com mais outra faixa curta, uma “outroduction” chamada “Secret Tape“, e que, diferente de “ADDICT”, poderia ser facilmente uma faixa completa. Ela é bem diferente do restante do disco (ou de tudo o que a Sunmi já fez antes), iniciando em um clima acústico e lo-fi, flutuando por melodias melancólicas e vulneráveis e evoluindo com acordes de rock psicodélico e progressivo – sim, isso mesmo, é quase a Sunmi mandando AQUELE cover de alguma música do Pink Floyd, por mais bizarro que essa idealização possa parecer. O defeito está sim na duração curta, porque “Secret Tape” completa seria facilmente uma das highlights da breve discografia da gata, uma surpresa inesperada mas agradável. (E eu espero sinceramente que mais surpresas sonoras desse estilo sejam repetidas por ela futuramente).

O “WARNING” pendula para várias direções e sofre com sua duração precariamente curta, mas ainda assim consegue cumprir com facilidade o objetivo de mostrar a Sunmi como uma artista com várias nuances e a capacidade de entregar material de relevância e excelência pop. Apesar dos pesares custosos, é interessante ver como ela evoluiu artisticamente depois do “reboot” (risos) que sua carreira solo sofreu em 2017, e também como a cantora agora tem o cacife para assinar a autoria de algumas das faixas mais interessantes que o pop coreano já viu esse ano. Tudo o que desejamos é que esse seja um dos primeiros passos para uma discografia bem mais extensa e cheia de glórias. It’s what she deserves.

SUNMI, “WARNING” (2018)
Gêneros: K-pop, Synthpop, R&B
Destaques: “Siren”, “Black Pearl”
Nota: 8.1

#sunmi #warning #siren #kpop #wondergirls

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