Rouge – "Dona da Minha Vida"

Quem acompanha a gente aqui no JESUSWORECHANEL sabe muito bem do nosso amor pelo Rouge, essa girlband que nasceu lá no início dos anos 2000 no Programa Popstar e, depois de alguns perrengues, saída de integrante, disband e uma tentativa de retorno minguada, deixou as diferenças de lado e voltou esse ano melhor do que nunca (toda a trajetória desse retorno foi inclusive coberta por nossa equipe no Dossiê Rouge).

Dispostas a dar aos gays tudo o que eles queriam, o grupo se reformulou e prometeu material novo, dando o pontapé inicial para essa nova era com uma tour comemorativa de 15 anos e o bop latino “Bailando” – primeiro material inédito da formação completa do grupo em quase 12 anos. O single ganhou um buzz considerável e proporcionou aos fãs um gostinho agradável de nostalgia… mas é… ainda não era a evolução que queríamos ver das garotas. Meses depois, o Rouge volta com o que deve ser o material definitivo da nova era do grupo, um single que aposta muito mais em sonoridades inexploradas e uma ideia de futuro da girlband do que o pedaço descarado de nostalgia que “Bailando” representou.

Dona da Minha Vida” dá uma reformulada geral no direcionamento artístico do grupo. Com uma pegada bem mais madura, o single situa as garotas num R&B mesclado com o moderníssimo trap; além do conteúdo lírico que as insere na recente popularidade de temas como militância e empoderamento. E sim, o rouge tem muito o que militar, já que quem conhece a história da girlband entende muito bem o preconceito midiático que elas sofreram pela sua formação (o que rendeu alguns momentos em que as garotas foram tratadas de forma péssima na TV), sem contar questões como a luta contra o etarismo quando o público na internet põe em cheque a durabilidade do grupo por causa da idade do quinteto, e lutas individuais de cada uma das integrantes como mulheres, mães, pessoas de cor etc.

A letra forte e decidida de “Dona da Minha Vida” foge do clichê das músicas antigas do Rouge, e mostra um lado maduro e bem direcionado do grupo, com um toque de consciência e luta pelas minorias. O possível oportunismo no tema é logo desmistificado quando percebemos o intuito sério da letra, que consegue ser a mais sincera possível para uma música de empoderamento pop – e mesmo que um verso aleatório sobre o Instagram quebre o clima rapidamente no segundo verso, a parte lírica ainda continua altamente válida. Bem menos dançante que a maioria dos esforços anteriores do Rouge, o instrumental de “Dona da Minha Vida” abarca um tom muito mais urbano, sem um refrão explosivo, mas com construções bem desenvolvidas e que servem como ótimo fundo para expressar as personalidades de cada uma das integrantes – e tudo realmente acaba fluindo muito bem junto às vozes das meninas, que se mostram totalmente confiantes para entoar esse grito de liberdade para as mulheres do século XXI.

Um dos melhores fatores desse single é como o clipe o complementa. Em um tempo de clipes puramente focados em dança ou com uma união de cenas e cenários aleatórios, vídeos musicais que maximizem as mensagens da música que representam andam cada vez mais raros. No caso do tratamento visual de “Dona da Minha Vida”, ele eleva o intuito da música e ainda abre espaço para mais exploração de militâncias, como a Li Martins fazendo alusão visual à liberdade de amamentação em público, cada vez mais suprimida pela nossa sociedade conservadora, ou as diversas outras minorias que se unem às garotas ao longo da caminhada triunfal e empoderadxxxxxxxxxx no fim do vídeo.