Objetos Cortantes celebra ao mesmo tempo em que subverte o protagonismo feminino

Atenção: heavy spoilers do episódio final da série.

O movimento progressista na televisão dos Estados Unidos tem acontecido mais forte do que nunca, mesmo com a atual administração anti-progressista do país liderada por uma figura digna de escárnio como Donald Trump. Séries como The Handmaid’s Tale, The Bold Type e Big Little Lies jogam o sal na ferida do patriarcado, colocando em pauta assuntos pertinentes à vivência feminina como abuso sexual, opressão de gênero e violência doméstica. Mas apenas em “Objetos Cortantes”, série adaptativa da obra de mesmo nome de Gillian Flynn, vemos uma inversão completamente válida e não muito explorada em tempos de protagonismo feminino tão fortemente positivo: a autora coloca mulheres em papéis doentios e cruéis.

Para quem ainda não é familiarizado à Gillian Flynn, ela é a romancista por trás de “Garota Exemplar”, obra que ganhou popularidade após a adaptação cinematográfica (impecável) que estreou em 2014. Flynn tem uma característica peculiar em suas obras: a inversão de papéis baseados em uma falsa simetria, a perversão na construção de suas personagens e também o despudor em torná-las deliberadamente vis mas ainda apoiáveis: todos lembram da infame Amy Dunne, cujo momento mais lendário foi forjar o seu próprio desaparecimento como ferramenta de punição para o seu marido por uma traição, levando isso a consequências extremas. A visceralidade e intensidade do ser feminino são marcas de suas obras, e na adaptação seriada de seu primeiro romance, “Objetos Cortantes”, isso não seria diferente. A série cobre os acontecimentos ao redor de uma jornalista, Camille Preaker, que volta à sua cidade natal – Wind Gap – para reportar o assassinato de duas meninas pré-adolescentes. Sem dinheiro para bancar a estadia em moteis da cidade, ela acaba indo parar à contragosto em sua antiga casa, convivendo com sua meia-irmã mais nova e relativamente desconhecida, Amma, e sua a mãe, Adora, um gatilho ambulante de traumas de infância para Camille. A partir daí, vemos a protagonista submergir no caso das garotas assassinadas enquanto é bombardeada pelo seu passado na cidade e todo o mal que aquele lugar ainda consegue lhe causar.

Talvez muito mais character driven do que as outras obras da autora, “Objetos Cortantes”, não é exatamente um thriller onde o centro de tudo é o assassinato das duas meninas. Os eventos estão ali, mas é por meio da perspectiva e das experiências da personagem principal que vemos tudo acontecer. Desde o primeiro episódio, somos presenteados com uma boa fotografia e uma profusão de flashbacks repentinos – pequenos pedaços de um quebra cabeça psicológico massivo que vão se encaixando pouco a pouco durante os 8 episódios da minissérie -, para quem leu o livro, essa representação visual da vida da jornalista é quase como estar devorando as páginas mais uma vez, visto que uma das decisões diretoriais mais importantes da adaptação é ser fiel ao ritmo da obra impressa (para o bem e para o mal). A narrativa constrói sua personagem e nos faz íntima dela, deixando que nós participemos até mesmo de seus momentos mais pessoais e menos glamourosos, como a exposição de suas inseguranças e segredos corporais.

Existem paradigmas muito fortes sendo invertidos na série. Amma, a irmã mais nova de Camille, se porta como uma jovem-mulher (mesmo sendo uma adolescente de 13 anos) e é marcada pelo seu constante desdém e oscilações de humor – que passam do limite do humor flutuante adolescente comum e começam a preocupar e assombrar a protagonista a certa altura. Em diferentes vezes somos apresentados a Amma em situações cujo cunho não cabe à sua idade: a irmã caçula usa drogas em vários momentos, aparenta ter uma vida sexual plenamente ativa e uma crueldade atípica para uma menina da sua idade. O que Gillian – a autora da série e também roteirista – procura com tais características é mexer com o nosso juízo de valor, o que acontece desde o momento em que apresenta a personagem “seduzindo” um professor mais velho, até o desfecho que revela-a como assassina.

A dinâmica entre Camille e Amma também é essencial no desenvolvimento da série. Camille não demora muito para descobrir a natureza mutável e inconstante da irmã mais nova, mas ainda assim se deixa enredar pelas atitudes da personagem. Há uma ligação entre as duas, ambígua e perigosa em altas medidas, mas ainda assim fortemente magnética. O auge disso acontece no sexto episódio, “Cherry”, onde Amma conscientemente insere a protagonista em ambientes e situações desconfortáveis, compartilhando com ela uma verdadeira trip quase inacabável e que no final das contas acaba servindo para estreitar ainda mais o laço entre as irmãs – mesmo que muitas coisas continuem não sendo pronunciadas e os mistérios continuem constantes.

Por outro lado, Adora representa a subversão da idealização básica do papel de mãe – isso ainda bem antes de seus piores segredos serem devidamente revelados. Peculiar e cheia de ideais de perfeição, pureza e afeição totalmente tortos, a personagem tem plena noção da posição importante nos traumas de Camille, mas é impassível em relação a isso, esbanjando uma convicção inquebrável de que tudo o que fez foi correto. O melhor aspecto da personagem é sua ambiguidade latente, que é revelada pouco a pouco e nas entrelinhas: Adora é um ente passivo e ativo de um sistema quase “hereditário” opressão familiar, um ciclo interminável de violência simbólica onde ela foi vítima na infância e perpetuadora na vida adulta. Sua conversa com Camille no último episódio, onde ela explica que “todos passam por experiências traumáticas na infância, mas é necessário esquecer e seguir em frente – qualquer coisa além disso é egoísmo” só reitera a sua incapacidade de lidar com os problemas do seio familiar de forma mais profunda, sua total frieza em relação ao assunto e falta de propensão à mudança.

A revelação do assassino aqui é a mais impactante de todas, mesmo que não seja o sol em que o sistema da série gira em torno. Enquanto Camille descobre a sujeira de sua mãe escondida debaixo do tapete – uma doença que faz Adora querer atenção a todo minuto, usando das filhas como “bonecas” humanas e chegando a atos como envenená-las para mantê-las ao seu lado, o que levou uma de suas filhas à morte -, somos ludibriados a pensar que ela também é a responsável pelos acontecimentos recentes de Wind Gap. “Como uma mãe tão adorada pode ter matado a sua própria filha?” e “Como alguém é possível de executar crime tão cruel” podem surgir no mesmo segundo que toda revelação acontece, essa mesma que causa uma sensação de desconforto por sua rapidez e frieza.

De fato, Adora foi culpada pelo o que aconteceu com sua outra filha, Marian, no passado. Ela é uma personagem psicologicamente cruel mas externamente acima de qualquer suspeita, o que aciona o fator de imprevisibilidade na mente do espectador e a torna o melhor palpite de ser uma culpada inesperada. Todos esses eventos, e ainda por cima a forma apressada como eles ocorrem, nos afastam até os minutos finais de descobrirmos a verdade por trás da verdade do caso. Amma se revela como a responsável pelos dentes arrancados e mortes brutais das duas garotas: Uma assassina, fria, cruel e alimentada – e isso é só uma especulação – pela vontade de ser o centro das atenções que a própria mãe a criou para ser. Interessante o suficiente, o epílogo série reforça esse entendimento ao mostrar que Amma mata outra garota, uma amiga que ela fez em sua nova residência, ao perceber que a adolescente buscava a atenção de Camille – substituta óbvia para a Adora agora que a matriarca estava presa.

Um dos trunfos de “Objetos Cortantes” é como a série se dedicou em seu desenvolvimento a construir e depois desconstruir a ideia de uma autoria masculina dos crimes. A todo momento vemos a polícia e seus funcionários dedicando total atenção aos suspeitos homens, mesmo que nenhuma das justificativas tenha qualquer lógica. Há uma conexão automática da ideia da masculinidade com a ideia da violência, algo que Gillian Flynn pontua várias vezes como quase indissociável para os moradores de Wind Gap. Por esse “fator surpresa” de revelar uma entidade feminina por trás dos assassinatos, a série ganha um grande significado, colocando mulheres em papéis falhos ou de puro antagonismo, sugando toda “bondade” que as personagens femininas muitas vezes precisam ter como padrão e entregando-nos uma crueldade nua, sem mais. No fim, a vitória é a do protagonismo feminino: ele está aí cada vez mais forte, com mulheres exemplares ou totalmente abomináveis – e não há nada de errado nisso.

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