Estamos vivendo um vórtex Temporal dos anos 80?

Há não muito tempo atrás, o serviço de streaming mais executado da atualidade, Netflix, lançava Stranger Things. Uma série centrada na estética dos anos 80, voltada para a nostalgia sentimental do espectador, com todas as referências à conteúdos que atingiram seu ápice ali, e até mesmo atores que estouraram nessa mesma época – uma piada metalinguística. O apelo nostálgico é tão grande que em alguns momentos Stranger Things chegou a ser referida como uma criação perfeita para engajar o público sedento por nostalgia, sendo lapidada a partir de algoritmos da gigante do streaming – que teria mapeado com precisão os conteúdos oitentistas mais clássicos na memória de seu público e jogado tudo isso no liquidificador. Tendo isso acontecido ou não, foi a partir daí que a cena mainstream da cultura pop foi “contaminada” muito mais fortemente por um fenômeno que já estava sendo engatado pouco a pouco: a obsessão pertinente de produtoras com a década de 80. Filmes, séries e até músicas na mesma temática parecem ter dominado o cenário e nos faz perguntar, será que entramos em uma vortex temporal?

Inseridos no contexto da Guerra Fria (1945-1991), que abalou as estruturas e injetou um clima de tensão no mundo todo, os Estados Unidos e a Rússia experimentavam novos ares. A corrida bélica estava mais forte do que nunca, e a disputa para quem conseguiria desbravar o solo da Lua primeiro foi tão radical a ponto de surgirem teorias e mais teorias sobre um renomado diretor da época, Stanley Kubrick, ter forjado a vantagem norte-americana em um vídeo com um astronauta no território. Além disso, vale lembrar das mirabolantes ideias russas, como a de enviar a cadelinha Laika para a órbita terrestre no intuito de provar potencial tecnológico do país. O período da Guerra Fria foi tão selvagem e tão pautado em manter a “ameaça vermelha” – termo usado para designar o medo do comunismo nos Estados Unidos – longe, que até mesmo um muro sobre a recém recuperada Alemanha foi criado, dividindo lados entre Socialista e “Democrático”. As divisões estavam se formando novamente, as potências culturais e imperiais não eram as mesmas, a sociedade flertava pela primeira vez com a globalização e com a hegemonia cultural dos Estados Unidos, que se estabelecia de vez. É dessa herança que surge a explosão da cultura cinematográfica, televisiva e musical cada vez mais massificada, com a TV sendo um veículo dominante, o cinema experienciando sua primeira grande era de blockbusters e a música se tornando inadvertidamente pop.

Filmes e Séries

Foto do filme Blade Runner 2049

Foi a partir daí que tivemos as primeiras noções mais mainstream de obras incluídas no ramo da ficção científica – um gênero fielmente enraizado na literatura, mas que àquela altura era visto como “baixa cultura”. Filmes como “De Volta ao Futuro” e “Blade Runner”, iriam nos introduzir à uma nova maneira de fazer filmes e de explorar o gênero, o que é percebido pela grande influência que eles exercem até hoje em dia. Ademais, a ficção científica continua extremamente forte com franquias que surgiram exatamente entre os anos 70 e 80, englobando subgêneros como as fantasias científicas (alô Guerra das Estrelas) ou mesmo o terror científico (como Alien, o Oitavo Passageiro).

Depois de quase quarenta anos, as indústrias cinematográficas e televisivas estão apelando à nostalgia dessas obras para criarem coisas novas. Um fenômeno cíclico – décadas anteriores são sempre referências indispensáveis para produções culturais de décadas futuras, algo que acontece em intervalos de 20 ou 30 anos – que não tem previsão para parar e que podemos responsabilizar a série da Netflix, Stranger Things, por isso, basicamente o juggernaut dessa onda atual de nostalgia.

Em 2016 a gana da plataforma de streaming por aumentar o seu catálogo de conteúdo original se tornou tão monstruosa que os produtos eram lançados em grande quantidade e intervalo mínimo. Com Stranger Things liderando essa leva, a Netflix parecia se destacar pela qualidade e ousadia das produções. A série, que conta a história de crianças desaparecidas e aliens de uma dimensão paralela à nossa é diretamente responsável por um vórtex temporal capitalista que nos deixa preso aos conteúdos da década de 80 – conhecidos mesmo por quem não viveu literalmente essa década, visto que esses conteúdos foram altamente reprisados durante os anos 90 e início dos anos 2000 nas Sessões da Tarde e Cinemas em Casa da vida. Com menções diretas ou indiretas a obras carregadas de boas memórias afetivas (como as referências à ET, Contatos Imediatos de Terceiro Grau e Os Caça-Fantasmas), trajes que foram originados ali também e um elenco de crianças (que traz o apelo teen e infantil dos #squads desbravadores de mistérios), Stranger Things pareceu lançar uma fórmula do que estava dando certo no momento: apelar à nostalgia do público mais velho sem perder a confiança de uma audiência mais jovem. A série é um dos maiores sucessos do serviço de streaming, a fórmula deu tão certo que estamos caminhando para uma terceira temporada e várias indicações ao Emmy.

O sucesso de Stranger Things, querendo ou não, deu origem à uma leva de remakes cinematográficos que perduram até esse presente momento. “It”, romance de Stephen King de 1986 que só veio ter uma primeira adaptação cinematográfica em 1990, teve sua reformulação para uma produção mais atual ano passado (2017). Com um cast de crianças e muitas referências à época em que primeiro foi lançada, “It” foi um sucesso de bilheteria (se tornando o filme de terror mais bem-sucedido da história até então) e ainda planeja voltar ao circuito e ter sua segunda parte.

E não para por aí. Obras que gritam “anos 80” (ou até o comecinho dos anos 90) foram refeitas a todo momento, como se fosse uma nova febre cinematográfica. Entre os nomes temos Power Rangers, Os Caça-Fantasmas (dessa vez refeito por um elenco composto de apenas mulheres) e Ready Player One, que apesar de ser uma obra “moderna”, faz referência muito direta a um número estrondoso de franquias da época. Em 2017, 18% de toda a indústria cinematográfica foi composta de remakes e reboots, um número extremamente alto se você parar para pensar que é apenas uma forma de fazer filme – afinal de contas, todos seguem a mesma fórmula.

O fenômeno parece não ter previsão para encerrar, já que em 2018 ainda estamos sendo bombardeados de séries e animações com o mesmo intuito. Recentemente, She-Ra, animação de 1985 que provavelmente sua mãe falava para você, ganhou um reboot em sua estética pela Netflix. Dividindo vários comentários e opiniões, os gráficos serão mais atuais, provavelmente com um script seguindo essa mesma risca, e tem previsão de estreia para Setembro. O mesmo também aconteceu com Thunder Cats, clássica animação oitentista que já havia ganhado um reboot em 2011, mas agora volta com outro reboot mirando o público mais jovem e, claro, com uma estética também divisiva. Não precisamos ir muito longe para achar mais exemplos da febre nostálgica, como a franquia Jurassic World – que bebe diretamente da fonte de Jurassic Park -, o recente reboot cinematográfico de Power Rangers e até mesmo a obra que serviria de continuação para Blade Runner, Blade Runner 2049. No âmbito das franquias menos óbvias, “Heathers”, o clássico filme dark comedy adolescente de 89, também ganhou um reboot/spin-off como série de TV, que por sinal nem estreou e já ganhou críticas negativas o suficiente para sucumbir a um possível cancelamento. Já Full House (Três é Demais) também ganhou um revival pela Netflix, durando três temporadas até então.

Vale lembrar também que alguns filmes e séries que não chegaram exatamente ao sucesso mainstream já preparavam o terreno para esse ciclo da nostalgia, como o longa Sing Street, de 2016, musical focado na produção pop efervescente dos anos 80, e a série The Carrie Diaries, spin-off oitentista de Sex & the City que estreou em 2013 na CW e enfrentou um cancelamento prematuro depois de duas meras temporadas – um claro erro de timing nesse curso do revival televisivo.

Música

Os anos 80 possuem um efeito de nostalgia ENORME na experiência musical de qualquer pessoa consumidora de música pop, mesmo que o indivíduo em questão não tenha vivido ou sequer nascido nessa bendita década. Identificar essa questão é algo que não exige grandes reflexões: o impacto dos anos 80 na música é muito intenso e duradouro, já que essa foi a década em que houve a fomentação e solidificação do que a gente conhece como música pop hoje em dia – sonoridade, imagem, configuração da indústria e até padrões de apresentação ao vivo, tudo isso se consolidou lá na época das ombreiras e das leggings neon (e isso é explicado em algum momento na última edição do POCCAST, por exemplo). Daí, claro, os hits que se tornaram clássicos para os nossos pais vieram todos de materiais oitentista, e por entrarmos em contato com eles, tudo o que envolve esse corte histórico acaba ganhando um tom de nostalgia aos nossos ouvidos.

E é… enquanto o revival oitentista não pegou com muita força no pop mainstream atual (mas ainda teve um ou outro bom exemplo, além de grandes exceções, tipo o material inicial da Lady Gaga ou o pop que a Kylie Minogue fazia de bom anos atrás), no universo indie ele virou quase que regra desde meados de 2011 e 2012, de onde surgiram exemplos infinitos de gente surfando nessa ~vibe~ como M83, CHVRCHES, Chairlift, Tennis e por aí vai. O retrowave (usando sintetizadores como elemento principal) se tornou uma coisa de lá pra cá, ficando no centro do que é o revival oitentista. Ainda assim, pela gama de gêneros que tiveram apelo pop nos anos 80 (R&B, funky, boogie, technopop, new wave), esse revival felizmente nunca fica limitado a um espectro sonoro só, e talvez seja exatamente por esse motivo que ele se tornou tão duradouro (sim, dê uma olhadinha no feed de música indie/alternativa do seu Spotify a qualquer momento e se prepare pra pegar pelo menos umas 4 ou 5 recomendações com aquele quê de obsessão pelos anos 80).

O 80s zeitgeist continua firme e forte por 2018, coexistindo pacificamente com tendências sonoras mais atuais e rendendo alguns dos melhores momentos pop do ano, como o ode ao Prince na era Parade em “Make Me Feel” da Janelle Monáe e o irresistível synthpop com quê de diva oitentista de “No Tears Left to Cry” da Ariana Grande.

A onda de trabalhos inspirados nos anos 80 continua cada vez mais fortes. Mesmo que experimentemos ápices em uma área e outra, e realmente funcione muita das vezes, é importante que consigamos prosseguir com novas histórias e novos experimentos. Basta saber se esse vórtex continuará no futuro ou logo será suprimido pela onda cíclica da reinvenção.

Dica de leitura sobre o tema:

A Vingança dos Analógicos: Por que os objetos de verdade ainda são importantes?

Autor: David Sax

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