JESUSFORK: As várias nuances musicais do LOONA no “[++]”

Com uma trajetória de pré-debut longa e cheia de percursos totalmente inesperados dentro do contexto do K-pop, que teve duração de quase dois anos, o LOONA finalmente faz a primeira adição “oficial” ao seu catálogo de músicas como grupo completo: seu EP de debut, “++”.

Esse não é só um trabalho que marca o ponto de partida para o produto de um dos projetos mais ambiciosos da música atual (e sim, podemos afirmar isso até num contexto global, especialmente pelas altas cifras investidas na girlband), mas também um material repleto de expectativas pautadas no ótimo histórico musical do LOONA e toda a paleta sonora que formou o cânone do grupo até agora – e, sendo assim, não é de se admirar que o “++” venha apoiado por um time de produtores não muito estranho aos lançamentos passados das garotas.

Só quem acompanhou toda (ou quase toda) essa jornada epopeica desde o lançamento do primeiro single em outubro de 2016 – nomeado a partir da primeira integrante, “Heejin”, e com “VIVID” como faixa principal – sabe o tamanho da antecipação e nervosismo generalizado para que esse debut desse certo em todos os sentidos – faixa de divulgação, clipe, poder de entrosamento entre as integrantes e, claro, um dos fortes do LOONA: o álbum. E o grupo não fez por menos, já que o “++” maximiza o potencial do LOONA em faixas condizentes com as subdivisões do projeto, além de dois singles fortes e que causam impactos diferentes (ambos com reviews aqui no site) e todo um planejamento para destacar a facilidade das garotas de transitar entre gêneros e camadas sonoras diferentes.

Detalhando a tracklist, o álbum abre com uma intro de mesmo título, “++”, que segue a tradição de todos os outros EPs de units do LOONA até então. “++” faz quase que um remix dessas intros anteriores para formar uma nova, pegando pedaços de arranjos de “Into the new heart”, “ODD” e “dal segno” e jogando tudo no liquidificador. A intenção de celebrar o histórico do projeto é ótima em tese, porém a faixa deixa um pouco a desejar pela passagem abrupta que fez entre uma interlude e outra, com um final abrupto que em nada se liga com a faixa seguinte. A execução poderia ter sido muito melhor se de fato fizessem algo novo que abrangesse todas as três sub-units – ODD EYE CIRCLE, ⅓ e yyxy -, e nesse quesito eles não conseguiram causar o impacto de um grupo unido.

Felizmente esse sentimento não perdura ao longo do EP. No mergulho que o grupo fez de cabeça em mostrar a versatilidade tão exigida a um girlgroup de k-pop, é impressionante ouvir como em nenhum momento elas perderam sua personalidade e ainda possuem espaço para executar alguns novos truques. Dentre as inéditas, “Heat (9)” sintetiza perfeitamente esse fato. A faixa tropical house com dedos de Brooke Toia e Daniel Ceaser – ambos presentes em produções anteriores do grupo -, é um dos maiores destaques do trabalho, por brilhar no meio da tendência musical sul-coreana.

O gênero, basicamente a maior criação da era musical do streaming e que já apareceu em diversos singles de sucesso coreano nos últimos anos (consequentemente ganhando uma boa dose de saturação), é um queridinho de grupos como KARD ou (G)I-DLE, porém o LOONA traz algo novo para a mesa. Os vocais suaves das meninas são perfeitamente levados ao longo da faixa com uma letra convidativa (“mais alto, você quer flutuar?”) e uma batida atmosférica, que vai crescendo aos poucos, tendo um drop perfeitamente produzido e grudento no lugar de um refrão convencional – o que é um tanto quanto datado mas que funciona bem aqui, visto que o instrumental é cativante o suficiente para conseguir segurar essa parte importante da música quase sozinho. Para quem já cansou dessa estrutura que privilegia batidas no tropical house, o último momento da canção dá uma colher de chá ao ouvinte e traz um refrão normal e totalmente bem-construído, o que consegue espantar qualquer afirmação de que essa seria uma faixa genérica apenas por ser beat-driven.

Dentre os outros subgêneros da música eletrônica, o future bass também é um elemento encontrado ao longo do EP na ótima “Stylish”. A faixa de Mike Macdermid, Emma O’Gorman e Marc Lian – um grupo de produtores que até então nunca havia trabalhado com a girlband – traz o LOONA cantando sobre um interesse amoroso deslumbrante, capaz de hipnotizar as garotas com imagens tão fantasiosas quanto luxuosas – o que rende aqui e ali menções a um estilo refinado e jóias caras e brilhantes. A batida, que é brusca como qualquer produção future bass, pode soar repetitiva em certo ponto, mas funciona perfeitamente pela forma que ela aparece, criando o ápice da música nos refrões junto com as vozes em conjunto das doze meninas – ou pelo menos 6 delas, nunca se sabe – e dando uma sensação fluida apesar da “rigidez” do som metálico.

A faixa mais retrô que se “conforma” dentro do que podemos chamar de padrão sul-coreano de produções musicais entre as b-sides é “Perfect Love“. Com os já conhecidos synths do Monotree (produtor da melhor faixa do Stellar, Sting, e outras do LOONA), baterias do miami bass (sim, aquele gênero que permeia faixas como “Superlove” da Tinashe e sua carbon copy “WooWoo” do DIA) e uma letra clichê que confessa os sentimentos nunca sentidos antes pelas meninas, essa penúltima faixa conversa muito bem com b-sides antigas delas como “Girls Talk” ou “Rosy”, sendo um pop uplifiting e inofensivo, mas que cumpre seus objetivos sem soar fútil ou dispensável. É uma música boa, mas ao compararmos com “Stylish”, “Heat (9)” ou até mesmo “favOriTe” fica perceptível a falta de algo na mistura que dê um impacto maior a ela.

Junto com os dois singles já lançados, ambos devidamente ausentes de detalhamento nessa review por já terem sido debatidos aqui no blog, o EP “++” mostra um LOONA disposto a ditar tendências musicais na indústria pop sul-coreana e ao mesmo tempo se aproveitar das tendências já consolidadas. Sem medo de arriscar e tentar novos estilos musicais, somos presenteados do tropical house ao future bass com uma excelência já esperada do time de produção que trabalhou com elas.

E, como não podia faltar, há um peso conceitual permeando o “++” e que consegue ser muito bem sucedido no final das contas: sim, o álbum é realmente uma união de força entre os vários entrecortes que formaram o LOONA como o projeto destacável que ele é hoje em dia. Resta esperar para ver se elas irão se manter corajosas ao longo do tempo e o que os próximos movimentos de um grupo tão singular assim reservam a nós meros apreciadores do pop coreano.

LOONA, “++” (2018)
Gêneros:
K-pop, Dance, Pop, Electronic
Destaques: todo o álbum, girlies

Nota: 8.3