BICHAFORK: Ariana Grande – sweetener é o seu próprio ZeroCal

Sem lágrimas para chorar, Ariana Grande lança o quarto álbum de sua carreira. Adoçando o seu catálogo de músicas, o sweetener mostra uma mulher mais madura, musical e sentimentalmente – depois dos acontecimentos de Manchester é até natural -, e para além disso, uma artista que transita entre os gêneros sem deixar de ter a sua originalidade musical.

Com uma pegada mais r&b que seu antecessor, Ariana Grande nos convida a uma jornada de superação e autoconhecimento. Mais experimental que nunca, ainda assim flertando com as suas raízes – o Yours Truly e o My Everything eram essencialmente r&b -, talvez até fraco em algumas partes mas sem dúvidas o trabalho mais coeso e sólido da cantora até então, desde as produções “desconstruídas” de Pharrell até a pop perfection de Max Martin.

sweetener – livremente estilizado pela própria – começa com raindrops (an angel cried) tirada de uma música dos anos 50 chamada An Angel Cried, cujo Grande alegou ter sido escrita por um dos melhores amigos de seu avô. E logo depois segue para a sua primeira faixa que define o tom do trabalho da cantora até o final. blazed, produzida e escrita por Pharrell Williams – que também aparece na faixa como featuring -, descrevendo as intenções de Ariana quanto à um possível interesse amoroso, com as batidas r&b e essencialmente Pharrell Williams.

Artista também presente na faixa seguinte, a já conhecida the light is coming, com a rapper Nicki Minaj, carregando a mesma musicalidade do álbum, upbeat e hip-hop/r&b, até R.E.M., faixa que era supostamente uma demo da Beyoncé descartada, que caiu perfeitamente na proposta do sweetener. Um dos destaques do quarto trabalho da cantora, a faixa serve quase como um calmante ao ouvinte enquanto a Ariana nos confessa, “last night I met you/when I was sleep”, afirmando que ela não quer acordar.

A primeira metade do álbum é repleta das produções de Pharrell Williams, um r&b bem mais calmo, com batidas mais lentas e minimalistas, da maneira que Ariana Grande deixou claro que seria. Com exceção de God is a Woman, todas ali foram fruto de um trabalho com o cantor, e a influência dele ainda assim continua num feeling geral do sweetener. A faixa-título é despretensiosa, divertida, tem um refrão grudento e versos bem escritos – composta pelo próprio Pharrell -, porém a música que diz sobre um companheiro adoçar a vida da intérprete parece acontecer em dois extremos, onde vemos um r&b mais “conservador” e um hip-hop atual. Porém o gosto amargo do suposto adoçante da cantora pode ser facilmente esquecido por uma sétima faixa que nos leva de volta aos trabalhos dos anos 2000 do produtor. Um hino upbeat sobre a ex-nickelodeon compartilhar a alegria de se divertir e ser bem sucedida ao mesmo tempo. “It feels so good to be so young and have this fun and be successful”, Ariana nos diz, esbanjando a sua confiança na sua música enquanto os ecos abafados da voz da mesma preenchem a backtrack.

Em uma tentativa de se afastar da mesma sonoridade, mas não deixando a solidez de lado, a segunda metade de sweetener começa mais upbeat do que a anterior, a diferença é tão visível que everytime soa quase como um alívio ao fã do Dangerous Woman. Conversando mais com o projeto antecessor à esse, a citada anteriormente e breathin’ ambas produzidas por Max Martin e Ilya Salmanzadeh respectivamente – produtores dos dois hits já conhecidos no tears left to cry e God is a woman -, são duas canções que destoam das produções de Pharrell mas ainda conversam com elas de certa forma. everytime – livremente estilizada pela cantora -, é guiada por um hip-hop trap, upbeat, que conta sobre as dificuldades de Grande em ficar longe de um relacionamento que não a faz bem. “I get tired of your no-shows/You get tired of my control”, “You get high and call on a regular/I get weak and fall like a teenager”, são versos que resumem a faixa em sua essência, que ainda conta com uma hook repetitiva e catchy. Diferentemente de breathin’, outro destaque do álbum, que conta com uma produção majoritariamente synth, flertando com os elementos de Into You e Touch It, crescente que transparece o intuito da faixa onde Ariana mostra que ainda naqueles dias onde sua ansiedade “faz parecer o céu cair”, ela ainda encontra a força para “continuar respirando”.

A participação de Missy Elliot vem logo depois do lead-single do quarto álbum de Grande, borderline que seria originalmente da rapper, marca a primeira vez que ela e a cantora trabalham juntas. A faixa hip-hop é uma daquelas que você ouve os primeiros segundos e sabe que aquela é essencialmente Pharrell Williams. O verso da rapper deixa a desejar, talvez por ser muito breve e não incorporado no resto da música, a aparição de Missy parece descartável para uma música que soa fraca e sem intuito, servindo quase de interlude para a parte final do álbum.

better off marca os últimos momentos dessa jornada fazemos com Ariana, onde ela fala sobre seu término com o rapper Marc Miller. A faixa que podia ser maior do que as próximas que vão vir, é uma delícia de ouvir, nos apresentando Ariana Grande tomando consciência do relacionamento abusivo que estava.

A faixa que fecha o álbum, get well soon, traz uma mensagem otimista sobre cuidar de si mesmo e se curar, uma confissão pessoal da cantora que diz ter sofrido com ansiedade desde os acontecimentos traumáticos de seu show em Manchester, que é mencionado em um tributo de 40 segundos de silêncio para seus fãs que perderam a vida no atentado terrorista. O ápice da música acontece apenas depois da bridge, o que nos deixa com uma produção bastante fraca até metade de sua duração, mas que manda a mensagem claramente e deixa a homenagem àqueles que não estão mais aqui para ouvir seu trabalho.

O quarto álbum de Ariana Grande é de longe seu trabalho mais coeso. Mostrando uma cantora mais madura, crescida e que está pronta para provar a todos que ela pode sim ser uma excelente artista. Esse é o primeiro trabalho de Ariana que realmente segue à risca uma proposta do início ao fim, até os seus hits lançados anteriormente funcionam dentro da mensagem principal, algo que não acontecia no passado com o My Everything ou o Dangerous Woman.

A voz da cantora em muitos pontos pareceu estar ainda mais potente do que antigamente. Além de tudo, firmando Ariana Grande entre as vozes mais fortes da indústria musical norte-americana, o que não seria surpresa para ninguém, já que desde seu início sabíamos que esse seria o caminho a tomar.

sweetener pode não ter sido tão doce para todos os ouvintes, mas sem dúvidas marca a progressão de Ariana Grande de uma simples “ex-act” para um grande nome no cenário musical dos Estados Unidos.

Ariana Grande, sweetener (2018)

Destaques: breathin’, R.E.M. e no tears left to cry

Gênero: r&b, pop, hip-hop

Nota: 7,3

#arianagrande #sweetener #maxmartin #pharrelwilliams #missyelliot #nickiminaj

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