Pose é a revolução da TV norte-americana

A última produção do Ryan Murphy nos submerge em um mundo LGBT cheio de luxo e rivalidade, sendo sem dúvidas uma das melhores produções do diretor que não tem lá um histórico muito bom. Mesmo com a história previsível, e umas atuações meio duvidosas – tudo bem, as meninas não tem muita experiência -, Pose é revolucionária, e prova que tudo que a TV americana precisava era um terço de purpurina e muito voguing.

Pose se passa nos anos 80, em uma Nova Iorque extremamente hetero e com uma crise de HIV se espalhando pela comunidade LGBT. A série é um mergulho profundo em segmentos variados da sociedade nova iorquina: a ascensão do luxo, as comunidades marginalizadas e a cultura dos bailes LGBTs.

A série do Ryan Murphy com Steven Canals é também conhecida por ser a última antes do primeiro citado antes do contrato com a Netflix entrar em vigor. E mesmo com um histórico difícil do diretor, precisamos admitir que não há série atual como Pose. Sua abordagem, seus heróis renegados e suas narrativas completamente fora da caixa, nos mostram que representatividade LGBT não é apenas uma questão de nos vermos na TV, e sim uma atitude ambiciosa de contar histórias nunca contadas antes no horário nobre norte-americano.

Muitos irão reconhecer os cenários dos bailes, e alguns nomes até, do incrível marco-documentário da comunidade Paris is Burning, as referências ao mesmo estão por todo o lugar, em toda a cena – aliás, impossível não termos essas. E se formos ainda mais fundo, muitos vão pegar as gírias como “throwing shade”, “snatching wigs” , do reality show RuPaul’s Drag Race, mas é aí que Pose consegue se destacar, contando uma narrativa vibrante e cheia de glitter, mostrando para os telespectadores mais jovens que essas gírias – futuramente popularizadas pelo reality-show – são de fato criações do povo LGBT da época, expandindo o conhecimento da nossa própria história – desconhecida para muitos.

E mesmo que conte com um grupo de atrizes trans inexperientes, o elenco da série consegue, em seu máximo, carregar um episódio com o carisma inegável que todos ali exalam.

Como Blanca (MJ Rodriguez) coloca em uma de suas falas, os bailes são um encontro de pessoas que não são permitidas a se encontrarem em lugar nenhum, e essa fala resume Pose. Os bailes eram um espaço onde os LGBTs podiam expressar o máximo de sua criatividade, sempre com uma categoria nova, estar ali e vencer um deles – mostrando a melhor produção em uma categoria -, era simplesmente ser validado e criar um legado numa comunidade tão marginalizada. Encontrando pessoas que eles se identificavam e juntando-se nas tão faladas casas e famílias – insira fala datada da RuPaul sobre lgbt poder escolher a família.

E é sobre a dinâmica de duas famílias que Pose segue sua narrativa. House of Abundance, lendária, icônica, conhecida por ter o maior número de troféus dentre os bailes, porém, a série foca no surgimento de uma nova casa. House of Evangelista faz-se suprema em todos os episódios da série, sendo o núcleo central dela, comandada por Blanca, uma personagem HIV positivo que torna-se um pilar emocional para todos ali dentro, fugindo de qualquer mesmice narrativa contada sobre HIV’s positivos, Damon e seu sonho de ser dançarino profissional, diferentemente de Angel, que procura qualquer coisa estável, financeira e emocionalmente.

E mesmo que Ryan Murphy tente constantemente colocar narrativas exteriores aos bailes, ou às dinâmicas da casa – Evan Peters aparece sem suas maquiagens extravagantes como interesse amoroso de Angel -, nenhuma é interessante o bastante para tirar a atenção do que realmente importa: as vidas daqueles personagens LGBT’s em um ambiente que os acolhe perfeitamente.

Mesmo com o histórico terrível do Ryan Murphy fazendo séries, Pose, foge completamente de qualquer mancha que ele teve no passado, independentemente de diálogos não-convincentes ou atuações do mesmo cunho, a série é um dos melhores trabalhos do diretor. Esperamos que o triunfo de Pose sirva para outros produtores considerarem narrativas LGBT’s como histórias que precisam ser contadas e exploradas, de forma bem vívida e com muito glitter.

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