Quando The Handmaid's Tale vai voltar a ser o que era?

*O post a seguir contém spoilers de The Handmaid’s Tale, eu avisei pocs*

De acordo com nossa situação política mundial, The Handmaids Tale, foi e continua sendo uma obra importante. Mas com o final da primeira temporada, a Hulu – e a própria Margaret Atwood – pareceu estar completamente perdido com o que fazer com a série. O sentimento de esperança causado por ambos, o livro e a série, a mensagem política e o desenvolvimento do que achamos que seria ideal foram simplesmente perdido nos primeiros episódios da segunda temporada.

The Handmaids Tale é uma adaptação do livro de mesmo nome, da escritora Margaret Atwood (essa review você pode ler aqui mesmo no nosso site), que ficou extremamente famosa ano passado por sua atemporalidade, afinal, o livro foi escrito nos anos 80 e continua atual. A série, nos Estados Unidos, ficou ainda mais famosa pelo seu símbolo de resistência, adotado por grupos feministas com o avanço da administração do governo do Trump. Por conta disso, ganhou vários prêmios e foi aclamada em todos os cantos por sua perceptível qualidade.

A primeira temporada de Handmaids é realmente incrível. Uma adaptação fiel à sua fonte, que conseguiu capturar cada detalhe da sociedade distópica chamada Gilead. A construção de todos os personagens foi perfeita, até o final foi igual ao do livro. E como uma pessoa que experienciou os dois, posso afirmar que a série ainda fez um ótimo trabalho expandindo o universo de Gilead – que no livro já é fechado uma vez que são as confissões de Offred, a personagem principal. Tudo foi perfeitamente capturado, inclusive o final em aberto que era simplesmente perfeito. Mas com a confirmação da segunda temporada, e as expectativas lá em cima, o caminho que a série tomou só está acabando com o legado deixado por ela em 2017.

The Handmaid’s Tale está em seu sexto episódio da segunda temporada, não me levem a mal as pessoas que ainda assistem, mas tudo que aconteceu até agora foi puro “pornô-tortura”. A gente sabe que Gilead é um regime rígido e a tortura faz parte do sistema, mas uma temporada a mais disso não é necessária.

No primeiro episódio, quando vamos finalmente nos deparar com o que se deu do fim esperançoso do final do livro, já nos deparamos com uma gigantesca frustração. Offred é levada à um tipo de castigo com as outras handmaids por terem recusado apedrejar uma outra handmaid. Mas a questão é que nossa “heroína” está grávida, e como sabemos, eles valorizam extremamente a reprodução de bebês, então durante o episódio ela é obrigada a assistir suas amigas/companheiras serem torturadas de várias maneiras. Mas tudo bem, pois no final desse episódio vemos que ela é resgatada e nos dão a entender que ela vai se ver livre de tudo aquilo lá dentro.

Toda essa “esque” de revolução, que foi morta nos primeiro minutos, volta para nós e nos deixa ainda mais esperançosos com o futuro de Offred na sociedade que a abusou de várias maneiras – e abusa as outras handmaids. Queríamos vê-la como líder de um movimento, ou alguma coisa que a fizesse reagir. E temos, por alguns episódios, a mulher tendo que se virar de várias maneiras para se salvar e salvar o seu feto. Offred lida com vários obstáculos, mostrando sempre que consegue se safar da maneira mais lógica possível, e também nos apresenta novas esferas da distopia, umas que não fomos apresentados antes, como as colônias, e as camadas mais pobres da sociedade.

Não me levem a mal, é ótimo ver a Offred se esquivando de todas as maneiras e resistindo como ela pode. É bom conseguir enxergar uma heroína que pode fazer isso tudo dentro de um regime como o de Gilead, e ainda mais sendo procurada. Esse não é o problema, e nunca foi. Mas é exatamente o que vem depois que nos enche de frustração e ódio dos produtores.

Recentemente, uma terceira temporada da série foi confirmada pela própria Hulu, com o mesmo time de produção. Esse acontecimento também foi logo depois de termos visto Offred falhando em sua missão de escape. Durante o final de um episódio, vemos a personagem principal sendo capturada novamente pelos guardas de Gilead. E no episódio seguinte, já a vemos com o manto vermelho no seu corpo. Tudo volta a ser o que era na primeira temporada, as mesmas dinâmicas sofridas dentro da casa, os mesmos modos e rituais que nos deixam desconfortáveis de propósito – o que não é um problema, já que a série foi feita pra isso. Mas se ainda temos uma terceira temporada pela frente, essa volta pro ambiente da primeira temporada significaria mais episódios onde só vamos ver a tortura da Offred?

O abuso psicológico nesses próximos episódios são imensos. Offred é culpada de várias coisas, seus “superiores” a mostram coisas absurdas – um dos rapazes que ajudou a personagem principal a fugir é enforcado -, e tudo que acontece gira em torno de fazer com que a vivência dela, sendo grávida, seja a menos confortável possível.

Mas dado o contexto dos envolvidos na série – Elizabeth Moss na cientologia -, isso ultrapassa todas as barreiras e só consegue me deixar com raiva. Mais uma temporada da Offred sofrendo é completamente desnecessária, até porque isso é puro “pornô-tortura”. A gente não vê a série para acompanhar esse tipo de conteúdo, queremos vê-la conquistar coisas novas e conseguir sobreviver a esse canhão de bosta em que ela vive. Tivemos um contexto muito bom do que eles fazem na primeira temporada, prolongar isso para mais 10 episódios é só querer fazer a série se tornar o que eu já falei, um lugar de “pornô-tortura”, que nunca foi e nem devia ser o intuito.

Por isso, abandonei a série por tempo indeterminado. Continuo esperando alguém me falar que em alguma instância a obra voltou a ser o que foi criada para ser, sem músicas pretensiosas e episódios onde os abusadores são humanizados. Por enquanto, de acordo com o desenrolar dos episódios, a série que um dia teve seu teor político extremamente forte, se faz desnecessária.