bibliopoc #3: O Conto da Aia: O memoir de Offred.

Responsável por ser a fonte da maior série de sucesso de 2017, ganhadora de Emmys, O Conto da Aia, além de tudo, é um incrível “memoir” de uma Aia pertencente à um sistema distópico patriarcal que a faz de escrava sexual, junto com outras mulheres. E nesses relatos acompanhamos a trajetória dela, seus insights perturbados e vemos a sujeira que é sustentada pela bíblia cristã.

O Conto da Aia é um livro que passa-se num futuro próximo, em um cenário de uma república, onde não existem mais jornais, livros, revistas e nem filmes – tudo foi queimado. As universidades foram extintas. Também não há mais advogados, porque ninguém tem direito de defesa. O nome de tal república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América. As mulheres de lá não tem direitos e são divididas entre si, cada uma em sua tarefa. À Offred, protagonista e dona do memoir, coube a categoria de aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar. Antes ela tinha uma filha, e uma união estável. Mas em Gilead, a filha foi dada à adoção, e seu casamento foi considerado adúltero por ser o segundo do seu marido.

O livro em si é muito rico em histórias. Offred é constantemente posta em risco por várias situações, além da sua própria, óbvio, pois servir de objeto procriador já é difícil demais. A personalidade que Margaret Atwood desenha sobre a personagem é clara, seus pensamentos são complexos e tudo que ela pensa é exclusivamente consequência da instauração desse sistema injusto. E isso não é um problema.

Vemos uma Offred vulnerável, esperançosa e raivosa, são camadas e camadas adicionadas à personagem ao longo do livro. E este por sua vez é literalmente carregado dos insights e acontecimentos da vida da aia. Por isso, a temporalidade da obra é fluída, em momentos está no agora e em outros, sem lhe avisar, está em um flashback da vida de Offred pré-Gilead.

A maior questão sobre o livro, e o que na minha opinião o fez ter um tipo de status dentro do mundo literário – para além de sua atualidade espontânea -, é que ele constantemente te chama para torcer pela Offred em qualquer situação. Temos a esperança de que ela saia desse sistema de alguma maneira. Margaret Atwood nos mostra esse caminho diversas vezes, como quem quer instigar a mente do leitor através das milhões de tangentes possíveis para a aia durante essa jornada que nós acompanhamos.

Tenha em mente que durante essas páginas, você será o confidente de Offred, que está passando por um confinamento árduo, sendo violada semana após semana. É uma leitura forte, as palavras de Offred são emocionantes, mas sua perseverança é ainda mais. E é bom como o livro deixa claro o que ele quer marcar quanto a isso, mostrando que se o mundo não caminhar diferente, essa distopia será inevitável.

O final do livro é simplesmente fantástico. Não direi se é igual o da série, porque não quero ser responsável por spoiler. Mas mesmo que você já saiba as diferenças, ou semelhanças, é válido ter essa leitura. A forma como tudo acontece ao mesmo tempo, as dúvidas de Offred por ter desvirtuado-se várias vezes até aquele momento, o ritmo é trascendental, afirmo até mesmo que é o grande clímax do livro. As últimas páginas nos atormentam por muitos dias – pelo menos me atormentou.

Mesmo publicado em 1985, Margaret Atwood nos leva à uma reflexão atual sobre direitos civis. A situação distópica de Offred é uma metáfora um tanto literal sobre mulheres e seus corpos. Mesmo que estando fora de um sistema patriarcal, tudo escrito nas páginas é ácido, e expõe a faceta mais obscura do cristianismo. Mas em todas suas entrevistas ela deixa claro que não é um livro “anti-cristianismo”, e sim um aviso de que em mãos erradas, a bíblia pode ser perigosa.

Em 2017, lemos esse livro e pensamos, “bom, isso poderia ser muito bem hoje”. Aqui no Brasil, pelo menos, temos um alvoroço cada vez maior do movimento religioso conservador. Ideais de Gilead não estão distantes. Por isso, a obra de Atwood é sem dúvidas uma que ficará marcada para sempre.

Mesmo que a série tenha sido responsável pela expansão do universo de Gilead, o livro de Atwood é uma leitura obrigatória. Não apenas pela série, mas sim por sua atemporalidade. A autora nos assusta, como uma chamada para acordarmos. Afinal de conta, o quão distante estamos de uma Gilead de verdade?

#bibliopoc #thehandmaid39stale #ocontodaaia #resenha #matéria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s