Dirty Computer – Emotion Picture: a expansão do universo Afrofuturista de Janelle Monáe

Trabalhar com conceitos e se expressar através de alter-egos é uma marca bem particular no lançamentos da Janelle Monáe – que desde que despontou nos radares do universo pop em 2007 com o EP “Metropolis Suite I – The Chase”, vêm desenvolvendo um extenso conceito narrativo também intitulado “Metropolis”, todo divididos por “suítes”, corpos de trabalho musicais idealizados para serem ouvidos em uma sucessão lógica.

Durante o “Metropolis”, que durou do supracitado EP até o seu segundo álbum, “The Electric Lady”, Janelle tomou a forma do alter-ego Cindi Mayweather, uma androide que, em um futuro distópico, se apaixona por um humano, algo inconcebível no contexto da história. Posteriormente, a personagem sofre perseguição de uma organização repressora da liberdade chamada The Great Divide e acaba se tornando uma figura messiânica que vai ser responsável por dar um fim à opressão humana contra os androides e promover a conciliação entre as duas raças. Nos clipes e imagens promocionais que acompanharam o material musical, a cantora se utilizou de estéticas retrofuturistas (muito inspiradas pelo próprio filme Metropolis, de 1927) e uma ambientação e temáticas de ficção científica para alegorizar assuntos como opressão baseada em raça, gênero ou sexualidade, empoderamento e até a luta da classe proletária.

Sem ser extremamente literal na forma como essa história foi contada, Janelle “masterizou” a arte da narrativa através da música vinculada à imagem, servindo consistentemente álbum conceitual atrás de álbum conceitual e utilizando desse espaço para navegar por uma série de gêneros musicais e estilos de composição. A aventura da Cindi Mayweather aparentemente foi finalizada na Suite V do “The Electric Lady”, mas Janelle ainda tinha mais espaço criativo para explorações no universo sci-fi, o que rendeu o recém lançado disco “Dirty Computer”, e claro, seu épico média-metragem de acompanhamento: “Dirty Computer – Emotion Picture“.

Alguns precedentes são interessantes para entender como o Dirty Computer se encaixa no atual estado da indústria musical: empoderamento negro e de demais minorias, por mais que tenha sido um tema recorrente na série Metropolis da Janelle – e no trabalho de outros artistas mais… hm… vanguardistas – agora é um assunto bem mais pop, alçado ao mainstream por materiais como o “Lemonade” da Beyoncé, o “DAMN” do Kendrick Lamar e até o “Blonde” do Frank Ocean. Com esse background, Janelle encontrou um cenário bem mais confortável para expandir sua visão artística sem precisar se “autocensurar” ou ser contida em relação a certas temáticas, utilizando agora uma dialética menos metafórica e mais “urgente” em comparação aos seus trabalhos anteriores.

Ainda no território Beyoncé-y da coisa, o “Emotion Picture” de Monáe bebe muito da influência de álbum visual semicinematográfico que a Queen B reformulou e popularizou – e também, claro, de outras obras do mesmo nicho, contemporâneas ou não. O destaque vai para o “Lemonade“, especialmente pelo fato de que esse trabalho da Beyoncé se propôs, entre outros objetivos, a celebrar a negritude e pôr em pauta as dificuldades e as lutas da parcela negra da população americana – o que a Janelle também pauta e expande de maneira considerável no Dirty Computer. A diferença óbvia entre os projetos é que, enquanto o “Lemonade” tem um conceito mais loose, sendo uma sequência de clipes ou microclipes com estética similar e ligados por uma progressão narrativa e um mote em comum, no PC sujinho da Janelle, mesmo que um pouco do “padrão Lemonade” aconteça aqui e ali (especialmente com os clipes lançados anteriormente), o material possui alguns parâmetros bem mais convencionalmente ligados à arte cinematográfica popular: fala, atuações, roteiro típico de filme e, se forçar, dá até pra extrair uma estrutura de três atos dali.

No média metragem, Janelle interpreta a androide Jane 57821 (referência direta às faixas “Sincerely Jane” e “57821” das Suites I e III do Metropolis), prisioneira de um regime ou entidade totalitária que pretende apagar suas memórias e reprogramá-la. Por trás disso, uma realidade social distópica e opressora em que as autoridades perseguem outros indivíduos/androides no intuito de reprimir seus traços de individualidade – e é essa individualidade, essa representação do “outro”, que serve de veículo para Monáe alegorizar repressão que minorias diversas sofrem cotidianamente nos dias de hoje. Durante o processo de “apagamento da individualidade” de Jane, suas memórias são revisitadas pelos reprogramadores, o que é a desculpa perfeita para que o material exiba alguns dos clipes anteriormente lançados e também outros inéditos – e nisso temos “Crazy, Classic, Life” e “Screwed“, exclusivos do filme e que dão seguimento narrativo aos já conhecidos clipes de “Make Me Feel” e “Pynk” (que ganha até um verso novo na versão do Emotion Picture).

Nem todos os clipes revisitados no filme são tidos como simples lembranças: “Django Jane“, por exemplo, é encarado pelos reprogramadores como um sonho da Jane e não como uma lembrança de verdade, o que justifica um pouco a estética do vídeo e o fato dele estar lá mesmo não fazendo nenhum grande sentido narrativo em suas imagens. A mesma justificativa é utilizada sem tanta eficácia com clipe de “I Like That“, que eu diria ser a parte mais destoante do projeto inteiro (apesar de ser exatamente o trecho em que a Janelle serve os melhores LEWKS). Demais canções do álbum (ou partes delas) ganham um tratamento visual mais diretamente ligado à ambientação primordial do filme, como “Take a Byte”, com Monáe performando a música entre os scans e castigos bondage da prisão distópica, e “Americans”, que serve como faixa de fundo para os momentos finais e emocionantes da película.

Um dos aspectos mais fortes no Emotion Picture é a parceria artística entre Monáe e a atriz Tessa Thompson (conhecida por interpretar a personagem Valkyrie no universo cinematográfico da Marvel e a vilã trash Charlotte Hale em ❤ Westworld <3). Os rumores sobre um relacionamento romântico entre as duas artistas já datam de alguns anos (!), e isso parece ser amplamente confirmado no filme, onde Thompson interpreta Zen, uma também androide subversiva e eventual interesse amoroso de Jane. As duas personagens vivem um relacionamento intenso que forma boa parte da base narrativa da história, apesar de algumas vezes elas também se entrelaçam com outro protagonista do filme, o androide ̶h̶u̶n̶k̶z̶ã̶o̶ Ché – o que não acontece com uma configuração de um triângulo amoroso, mas sim com a configuração de um poliamor descompromissado, dando uma abordagem bem direta sobre um dos temas elencados para o Dirty Computer: a panssexualidade da própria Janelle.

Mesmo com a importância de Ché para certas partes do filme (especialmente no segmento de “Make Me Feel”) é Zen quem tem maior destaque e desenvolvimento dramático na obra, rendendo todos os momentos e reviravoltas importantes dos 48 minutos de vídeo – e mesmo que eu não ache a Tessa Thompson uma atriz lá muito habilidosa (a atuação dela é meio desconfortável em alguns momentos aqui, sem contar o quanto ela é tryhard em Westworld), a química dela com Janelle em todas as cenas que elas dividem é indiscutível, o que ajuda a criar uma ligação emocional mínima do público com as personagens e tornar essa obra um pouquinho mais especial.

Os visuais, proposta e narrativa (excetuando o posicionamento temporal equivocado de “I Like That”), provam que “Dirty Computer – Emotion Picture” é o maior acontecimento pop visual desde que o “Lemonade” atingiu as telas da HBO três anos atrás, além de ser uma das melhores venturas de cantoras no âmbito da atuação vinculada à música. Talvez o impacto e popularidade desse trabalho de Monáe não sejam tão fortes quanto os da Beyoncé (é claro, afinal a Janelle nunca foi um grande sinônimo de amplo sucesso no meio mainstream), mas ainda assim creio que a influência e talvez um futuro status cult da obra sejam suficientes para propagar os feitos dessa fase da Janelle. Embora a abordagem sobre alguns temas e estética geral tenham mudado um pouco, Janezinha continua fiel à sua obsessão pela Ficção Científica, explorando o Afrofuturismo e modificando certos paradigmas desse um gênero cinematográfico e literário que é quase que predominantemente dominado por artistas brancos. YASSSS.

E agora que a Cindi Mayweather cumpriu o seu destino e que a Jane 57821 conquistou arduamente a liberdade, resta a curiosidade para saber quais outras narrativas a mente criativa de Janelle irá explorar daqui pra frente.

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