BICHAFORK: Tinashe – "Joyride"

Pedimos que você aperte os cintos, mantenha os olhos fixos na estrada e prepare-se para a viagem da sua vida, porque finalmente ocorreu o lançamento do JOYRIDE, o tão esperado álbum da menina mulher Tinashe! (Na verdade o álbum já saiu há duas semanas e essa review está atrasadíssima, mas vamos fingir). Para quem ainda não conhece, a Tinashe é uma das cantoras mais completas e carismáticas da atualidade, e que inclusive já protagonizou um sem-número de postagens aqui no site, algumas delas servindo como ótimas introduções sobre a cantora e também sobre o momento atual da sua carreira. Mas vamos ao que realmente interessa, e que neste caso é uma review #BICHAFORK apuradinha sobre como é o Joyride e se o álbum fez o requisito mesmo depois de tantos percalços em seu lançamento. E hmmm. Nós do Jesusworechanel temos sentimentos conflitantes.

Entre milhares de datas de lançamento que o Joyride já recebeu, a data original remonta a alguns anos atrás, mais especificamente em 2015 – porém a RCA, gravadora da Tinashe, enrolou tanto a artista quanto os seus fãs durante esse tempo todo, e só agora, depois de muita insistência por parte da própria artista e suas advogadas (sim, essa informação foi dada pela Tinashe no encarte do disco), o álbum finalmente pôde ver a luz do sol. Joyride traz 13 faixas, contando com músicas inéditas, algumas interludes e também singles previamente conhecidos como “No Drama” e “Faded love”. O álbum ainda conta com “Me So Bad”, single mais recente da artista e que é uma colaboração com os rappers French Montana e Ty Dollar $ign (e que por ser uma faixa com um grande teor comercial, acaba se destoando das demais, mas ganhou um clipe bem bonitinho onde podemos enaltecer a beleza da Tinashe).

Joyride não é nenhum Aquarius da vida, mas no fim das contas acaba agradando já na primeira ouvida e apresenta um material um pouco diferente do que a Tinashe andava fazendo – que é o caso da faixa “Stuck With Me”, uma das amostras mais diferentes do trabalho da artista até hoje, sendo uma colaboração bastante inesperada com a incrível banda sueca Little Dragon (dona de hits indie como Underbart). O trunfo dessa faixa (e o que a torna o standout do álbum) é o modo como ela mistura vários elementos do R&B junto ao EDM e também algumas sonoridades mais alinhadas ao pop alternativo. Já outro destaque do disco é “Ooh La La”, que tem sample de Dilemma do Nelly com a Kelly Rownland, trazendo um lado mais romântico do cristal e apoiando-se uma letra maravilhosa e que deixa isso bem evidente (além de ter os samples mais irritantes porém mais interessantes do R&B recente, com uma cama rangendo aqui e ali integrada às batidas da música).

Mesclado nisso tudo ainda há pontos altos com “Salt” e “He Don’t Want it”, que são duas músicas mais “lentas” e clássicas dentre a breve discografia da Tinashe – enquanto “Salt” é uma balada emocional e cheia de um sentimento muito cru de rancor e decepção, “He Don’t Want It” é uma música suave que remete bem diretamente aos trabalhos de R&B obscuro da artista em mixtapes como “Amethyst” e “Nightride”. Adiante, “No Contest” é uma faixa com vários altos e baixos em sua construção, mesclando o R&B com o Pop e com elementos do Hip-Hop trapzeira, mas no meio de tudo isso apresenta versos fortes, um refrão explosivo e um dos destaques líricos do disco, parecendo algo que facilmente integraria o “Aquarius”.

Além de ser a faixa que leva o título do álbum, “Joyride” é marcada pela semelhança com alguns trabalhos anteriores da Rihanna, esta que aliás chegou a receber a demo da música através do Travi$ Scott e acabou rendendo uma confusão com a própria Tinashe, que em recente entrevista afirmou que o rapper agiu de má fé e eles chegaram a não se falar por um bom tempo – mas que no fim ela pegou a música de volta e a rearranjou, deixando a canção com uma sonoridade mais sombria, que se destaca por ter uma letra forte e pelos seus gritos no refrão misturados a tambores. E sim, o vocal da Tinashe nessa música é MUITO similar ao da Rihanna, mas toca em pontos mais extremos do R&B que eu diria que Rihrih ainda não chegou a se aventurar. Imagina um featuring das duas nessa música? Avançando na tracklist, o álbum ainda conta com “Fires and Flames”, que é a faixa padrão de encerramentos sem grandes inovações (e sendo bem sincero, a música não é mesmo uma mostra da melhor forma musical da Tinashe, mas pelo menos finaliza o disco tentando manter o mínimo possível da delicada coesão dele).

Os problemas do Joyride variam entre a fluidez do álbum falhando em alguns momentos (especialmente por posicionamento equivocado de músicas na tracklist, como “Me So Bad” atrapalhando a tracklist exatamente no meio dela) e entre seu aspecto curto, já que na prática o disco só possui 10 músicas, enquanto três outras faixas são intro e interludes. Dentre essas faixas transitórias, a que mais se destaca é “Ain’t Good For Ya”, que merecia ter se tornado uma música completa e não apenas uma simples interlude, visto que ela tem um grande potencial e termina exatamente em seu melhor momento.

No fim das contas, o Joyride cumpre seu papel como aprofundamento dos talentos da Tinashe apesar de alguns erros de percurso (desculpa mas esse disco dá muita margem pra piada sobre trânsito), e por baixo disso tudo isso, o disco nos deixa a grande lição de nunca desistir dos nossos sonhos… já que né… a Tinashe enfrentou pelo menos 3 longos anos de perrengue com a sua gravadora para conseguir pôr esse álbum nas lojas, e só por esse fato ele já merece um pouco da nossa atenção. Apesar de realmente não suprir grande parte das expectativas dos fãs, Joyride ressalta o amadurecimento da menina mulher Tinashe e nos deixa ainda mais ansiosos para saber como vai ser o futuro dela como musicista assim que ela puder lançar um terceiro álbum sem obstáculos e mantendo sua visão artística intacta.


Tinashe, “Joyride” (2018)
Gêneros: Pop, Hip-Hop, R&B
Destaques: “Stuck With Me”, “Ooh La La”, “No Contest”
Nota: 8.3