Fantasmas do catálogo da Netflix: Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo

Eu não sei exatamente quando isso aconteceu, mas faz algum tempo que eu me reconheço como uma pessoa anti-Netflix. Talvez isso ocorra pelo fato da plataforma ter um catálogo pra lá de limitado, uma presença irritante nas redes sociais e a capacidade ímpar de produzir conteúdo original extremamente duvidoso – mas talvez ou apenas talvez isso tudo seja fruto do meu ódio gratuito por coisas populares que é desencadeado pela minha semi adormecida síndrome de underground. Vai saber?

Dada essa questão, é bastante contraditório que basicamente todos os meus textos fora da aba de música nesse singelo blog são sobre peças de entretenimento originais ou distribuídas pela Netflix. sigh. Além disso, também é comum que eu fique repetidas vezes navegando indefinidamente pelo catálogo da plataforma na esperança de que algo bom venha a surgir dali, geralmente sem sucesso. Foi em um desses rolês degradantes em busca por entretenimento de fácil acesso que eu esbarrei sem querer em “Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo” (“I Don’t Feel at Home in This World Anymore” no original, ou só “Don’t Feel At Home” por questões de praticidade). O título acionou rapidamente algo na minha cabeça: eu já havia ouvido falar sobre o filme durante o ano passado, com todo o hype que ele teve desde que ganhou o grande prêmio na categoria drama do Festival de Sundance, mas não tinha conseguido exatamente me animar com a existência da obra a ponto de considerar pelo menos colocar ela na minha watchlist.

Tudo mudou quando eu descobri que “Don’t Feel At Home” é o debut diretorial do Macon Blair, que é um ator não lá muito prestigiado na indústria americana do cinema, mas que fez alguns filmes independentes (ou pseudoindependentes) que eu amo, como “Projeto Flórida” e as obras color-coded dirigidas pelo Jeremy Saulnier, “Sala Verde” e “Ruína Azul” (que por sinal é um dos meus filmes favoritos até hoje). Parece que o Macon Blair gostou da ideia de “Ruína Azul”, já que “Don’t Feel At Home” claramente carrega algumas semelhanças com o clima de violência criado pelo Jeremy Saulnier especificamente para esse filme de 2013 – mas isso só vem ao caso depois, porque em primeira instância, “Don’t Feel At Home” é um filme de… comédia.

O plot gira em torno de Ruth (Melanie Lynskey), uma assistente de enfermagem que leva uma vida pra lá de mediana no subúrbio de alguma cidade aleatória dos Estados Unidos (e ao que tudo indica, também enfrenta problemas com saúde mental). O panorama muda quando a casa dela é arrombada e certos itens são roubados – literalmente um laptop, antidepressivos e prataria velha que pertencia à avó dela – o que é sucedido pela ação infrutífera da polícia, que se mostra totalmente desinteressada em resolver o caso. Essa situação serve como impulso para que a protagonista tente solucionar o furto por conta própria, contando posteriormente com a ajuda de Tony (Elijah Wood), um neopunk cristão e weirdo da vizinhança.

A comédia se desenrola nos primeiros atos do filme exatamente pelo modo como o furto desses itens (tecnicamente irrelevantes e substituíveis) acaba gerando uma repercussão tão grande em Ruth, e como a personagem lida com a própria descrença no mundo e na humanidade exatamente por conta de acontecimentos “pequenos” mas irritantes desse tipo. E sim, isso parece um mote bobo, mas é bastante entendível – a frustração da personagem com essas coisas “sem grande relevância” é o ponto de identificação do filme, mesmo quando tudo começa a tomar proporções exageradas por conta disso. A dinâmica dos protagonistas também é um ponto interessante para a comédia, e aqui o Elijah Wood dá a performance mais memorável dele desde que eu apaguei a existência do ator após a triologia de Lord of the Rings uns 15 anos atrás.

Mesmo iniciando com esse tom de “dark comedy”, cheio de absurdos mínimos que entretém com um humor sutilmente pessimista, “Don’t Feel At Home” faz uma transição de gênero bastante crucial do segundo para o terceiro ato, virando um thriller violento que maximiza o nível das situações absurdas que formam a identidade do filme. A transição é gradual, não se apegando a soluções fáceis de roteiro para esse objetivo (como um plot twist, por exemplo), mas ainda assim conseguindo criar um clima instigante o suficiente e mantendo uma coesão necessária com tudo o que foi apresentado nos atos anteriores, o que ajuda a dar uma unidade à obra e não deixar ela desconexa apesar de abarcar dois gêneros quase antagônicos.

E é… “Don’t Feel At Home” é competente em vários níveis, mas ainda assim o filme me passa a impressão de ser um tanto quanto subestimado – creio que não pela crítica (os 88% de aprovação no Rotten Tomatoes e o prêmio no Sundance Festival dizem tudo), mas sim pelo público, que provavelmente ou não compra o clima da obra ou não se impressiona pelo mote simplório e petty que “Don’t Feel At Home” apresenta. Como diria o @goticaino em sua review no Letterboxd: “dá pra acreditar que tudo nesse filme acontece por causa de prataria?”. Talvez isso resuma muita coisa sobre a impressão que ele dá em primeira instância. Ainda assim, competência do Macon Blair transparece em todos os 96 minutos do longa, e sim, junto com “Lady Bird”, talvez esse seja um dos meus debuts diretoriais favoritos de ótimos-atores-que-eu-já-amava-antes-de-virarem-ótimos-diretores.

Por fim, sim (!!) o filme está lá na bendita plataforma de streaming que eu amo odiar, provavelmente escondido em alguma categoria cheia de material duvidoso ou alguma aba negligenciada, o que justifica o título desse texto.

Me siga no Letterboxd.

#jánãomesintoemcasanessemundo #idon39tfeelathomeinthisworldanymore #maconblair #elijahwood #melanielynskey #netflix #sundance

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