TRACK REVIEW: Ariana Grande – "No Tears Left To Cry"

“No Tears Left To Cry” é um R&B/dance sem grandes pretensões que, ao propor elevação coletiva de espírito, vocaliza satisfatoriamente as incertezas atuais: choramos e vivemos e sobrevivemos em meio ao inexplicável. Tensões políticas que refletiram tragicamente na carreira de Ariana Grande entralaçaram-se ao atual cenário de incertezas em boa parte do mundo, especialmente para mulheres e minorias, seu público-alvo.

É difícil ver alguém que ainda tenha algo ruim a dizer sobre Ariana Grande. Enquanto suas correspondentes, as “ex-acts” Selena Gomez, Demi Lovato e Miley Cyrus passaram por distintos processos de reinvenções musicais que deram ou não certo, Ariana manteve-se fiel ao público musical que conquistou de início e expandiu seu alcance, pouco a pouco, hit após hit. Desde o primeiríssimo single – esconde tudo antes de “The Way” na fanbase –, a identidade Mariah Carey condensada numa menina que parece o próprio bambi de botinhas, gatinha do Brooklyn, influenciada pela cena R&B e hip/hop dos anos 90 norte-americana está presente. Sua chave foi apenas aprimorar o que já era bom e dar refinamento ao material, à si, e traçar uma carreira única, comparada às outras. Isso, é claro, veio com muito planejamento empresarial e dinheiro por trás pois disso é feita a trajetória de uma artista pop mas convenhamos: é muito mais fácil gerenciar o legado e impacto da marca se o produto for genuinamente bom. Dos dias incertos do “Yours Truly” até a perfeição pop aclamada do “Dangerous Woman”, Ariana sempre teve tudo o que precisava mas precisava apenas ter seu material mais lapidado. Sua voz e sua controversa dicção são inconfundíveis e em 2018 os gays precisavam dela de volta.

De vez em quando, presenciamos o lançamento de uma obra – música, filme, série – que vocaliza muito especificamente o sentimento coletivo do momento. Rumo ao lançamento de seu 4° álbum, tensões políticas refletiram tragicamente na carreira de Ariana Grande e entrelaçaram-se ao atual cenário de incertezas em boa parte do mundo, especialmente para mulheres e minorias, seu público-alvo. O resultado é “No Tears Left To Cry”, um R&B/dancezinho reconfortante sem grandes pretensões que propõe elevação coletiva de espíritos mais do que bem-vinda. A euforia de “Problem” – certamente um dos maiores momentos e lead singles de uma popstar nesse século – e a perfeição matematicamente pop de “Dangerous Woman” estagnada por má promoção, aquele clipe tosco etc, não estão presentes. E foi #1 sem dúvidas: a naturalidade da mensagem de que todos vivemos e sobrevivemos após nos esgotarmos de lágrimas é simples o bastante para ressoar mundo afora e tocar muitos corações. É de substancial importância que uma cantora que, sem querer, acabou carregando mundo afora a bandeira do feminismo e pautas progressistas como a causa LGBT para os adolescentes, visto os ataques em Manchester, comece a “campanha” do seu novo álbum com algo que não ignore os eventos e que também não capitalize-os de maneira que insulte a nossa inteligência – seja essa inteligência qual ela for. Em tempos de Taylor Swift massacrada pelos quatros continentes por ser (curiosamente/convenientemente) alienada à política e surfar em seu privilégio de loira do pop/country, é também muito esperto.

A sonoridade também ajuda a elevar a faixa a outro patamar: é quase que uma irmã mais bonita e UK garage-ish de “Be Alright”, que já era um 90’s excelente 10/10, e que por vezes soa como um hit realmente moderno de Mariah Carey (não tem como não comparar, ainda mais com uma música tão especificamente anos 90), produzida talvez pelo Disclosure. Há ainda uma coisa na melodia muito específica do final dos anos 90, talvez algo do “The Velvet Rope” da Janetzão Jackson. A pegadinha da mudança de BPM no início da música e a inicial impressão de que a faixa seria uma baladinha sentimental também são característicos dos 90’s; dão ênfase na importância de deixar-se levar e aproveitar este estado de espírito mais leve e “enxuto”, de certa forma. E, é claro, ainda temos o curioso caso de plágio que a internet já descobriu: Ariana Grande foi atrás do catálogo do Fábio Jr. em busca de uma boa melodia pra um hit #1 na Billboard.

O pior é que realmente parece demais. @_@ Se os produtores de Ariânus nutrem tamanho carinho pelas sofisticadas partituras românticas do pop brasileiro poucos realmente sabem mas nada é impossível para esses hitmakers Hollywoodianos safados que buscam seu ganha-pão das mais distintas fontes. o BREVE: Fábio Jr. processa Ariana Grande por plágio, etc.

A exuberante maturidade em cada aspecto de “NTLTC” também é impressionante: tudo colocado no pacotinho de letras, melodias, vídeo, fotos, etc, tá tudo muito bem feito, parabéns. Temos Adriane elegantíssima em todos os looks num vídeo claramente caprichadíssimo no budget depois das bombas que ela andava ganhando da gravadora – e dirigido pelo cara que já fez muita coisa ruim sim mas mais recentemente dirigiu HUMBLE. do Kendrick então os maconheirinho branco da PUC pira e olha só a credibilidade Pitchfork chegando aí galeraaa!!! Temos fotos belíssimas e levemente conceituais embora um pouco escuras o que deixa elas meio comprimidas nas redes sociais MAS. DEIXA. PRA. LÁ. EU NÃO SOU SOCIAL MEDIA DESSA MENINA ELA NÃO TÁ ME PAGANDO. deixando os dias terríveis das eras passadas pra trás, felizmente. Tem até uma dica de que teremos militância pró-LGBT nessa era com os conceitinho arco-íris, vamo ver como vai ser. A campanha com as hashtags, e emoji de lágrima (ou pingo de chuva), e texto/imagens invertidos foram muito bem feitinhos e tal mas é claro que já saturou pois campanha publicitária só é divertida pra quem está ganhando dinheiro com ela e não é o nosso caso.

Em suma, estamos ansiosos pela nova era e se o novo disco for tão bom quanto ou melhor que o “Dangerous Woman” já temos um forte candidato a AOTY em mãos. Parabéns, lenda viva de rabo de cavalo. Ariana Grande é resistência, Ariana Grande é emoji de lágrima, Ariana Grande é texto invertido, Ariana Grande é canceriana pequena.