Lykke Li – Hard Rain/Deep End

A Lykke Li vem bombardeando o público de tristeza romantizada e sentimentos negativos sobre amor e separação há pelo menos uma década, quando lançou mão de uma atmosfera de melancolia palatável tanto em seu primeiro EP, o “Little Bit”, quanto em seu (ótimo) álbum debut, o “Youth Novels”. A partir disso, seu foco foi solidificar essa atmosfera e delinear uma personalidade musical em cima disso, o que aconteceu de forma bastante bem-sucedida nos álbuns seguintes, “Wounded Rhymes” e “I Never Learn”, que elevaram as ambições de Lykke a outro nível, rendendo hits como “I Follow Rivers” e alguns dos melhores recortes de sua discografia, como “Sadness Is a Blessing” e “Just Like a Dream”. Esses álbuns juntos formam o que a própria artista define como uma “triologia” sobre o período intenso e frustrante que foi a sua experiência como uma mulher de 20 e poucos anos – mas agora que a triologia chegou ao fim e a Lykke ultrapassou a casa dos 30, o que restou disso e o que há pela frente?

Confesso que assim que saíram as primeiras informações sobre o quarto álbum da cantora, “so sad so sexy” (tudo em minúsculo pois estética), o que me bateu foi uma curiosidade sobre os próximos passos que a Lykke daria, principalmente no que diz respeito à forma como ela conseguiria abraçar uma evolução artística mais radical sem perder suas características definidoras como musicista. Algumas pistas foram lançadas ao longo do caminho: em entrevistas anteriores ela chegou a declarar que andava acidentalmente fazendo músicas que soavam bastante “pop”, e no meio de tudo teve a rápida existência de seu projeto paralelo, o LIV, que veio com músicas psicodélicas e acessíveis, mas que não ignoravam a personalidade já conhecida da sueca e até abriam novas possibilidades de expressão para a sua criatividade. E… bom… o momento chegou.

Depois de um teaser misterioso e muitas bordas brancas no instagram, os primeiros fragmentos do “so sad so sexy” estão aqui na forma dos singles simultâneos “hard rain” e “deep end“. As duas faixas tiveram impactos parecidos pra mim: são abruptas, representam uma mudança inesperada de direcionamento musical e definitivamente causam um estranhamento que eu não diria ser exatamente positivo.

hard rain” é produzida do Rostam, recente ex-integrante do Vampire Weekend e que no ramo da produção já assinou trabalhos de atos como Charli XCX e HAIM. A faixa abre com um pad atmosférico sutil inserido para criar um clima melancólico e ao mesmo tempo dar destaque aos vocais de Lykke, que entoam uma lamúria repetitiva acompanhada de muitos vocais de fundo com leves efeitos de vocoder. Tudo soa promissor até o primeiro verso da canção revelar uma bateria de trap digna das faixas do Drake. Sim, isso é o prelúdio da aventura da cantora nas batidas sujas do hip-hop eletrônico.

Enquanto o trap era algo promissor em 2014, quando a Lykke ainda se lançava em um alt-pop mais orgânico no “I Never Learn”, agora não dá pra dizer outra coisa sobre o gênero além de que ele definitivamente datou – e essa questão, combinada com a estranheza que é ouvir batidas trap no trabalho de uma artista até então pouquíssimo alinhada a tendências recentes da indústria musical, tornam a experiência de ouvir “hard rain” no mínimo… desconfortável. Outros detalhes também incomodam: o tom da canção é apático, a estrutura é desconexa e muitas escolhas duvidosas são jogadas aqui e ali no meio do caldeirão de ideias que povoa o single. Rola até um pseudorap no meio da música com uma voz duplicada e distorcida que remete diretamente a qualquer clichê recente de artistas urban.

Sobre clichês urban, “deep end” parece ser a mais certeira nesse quesito. Tudo nessa faixa é milimetricamente planejado pra soar como um mashup perfeito entre uma música da Lykke Li e o ritmo/apelo dos trabalhos mais pulsantes do The Weeknd ou PARTYNEXTDOOR. A composição do refrão, que repete rapidamente as linhas “Swimming Pool / Swimming Pool / Indigo / Deep Blue” é uma reprodução até meio descarada da idealização mais básica que o ouvinte pode ter de um refrão cheio de swag de uma canção de hip-hop, dando uma impressão final tão sem impacto que isso acaba enterrando o jogo de palavras e rimas interessante que é feito nesse trecho da música. Até o vocabulário da artista muda com a nova sonoridade, e em “deep blue” ela solta uns “bae” aqui e uns “ya” ali pra mostrar que tem a ginga que as batidas de trap necessitam – o que é beeeeem awkward.

No fim das contas, fica a impressão de que a Lykke anda desperdiçando o próprio talento com algo que já foi explorado recentemente por outras artistas femininas do mesmo nicho – e geralmente com resultados mistos e esquecíveis. Sim, pois “deep blue” representa, em linhas gerais, o que a Lana Del Rey já fez nas faixas mais puxadas para o trap do disco “Honeymoon”, como “High By the Beach” e “Freak”, ou mesmo o que a BANKS andou fazendo a carreira quase inteira, a exemplo de “Trainwreck”. Vale pontuar também que agora a Lykke faz parte do catálogo da gravadora RCA, e talvez isso explique esse mergulho dela na música urban, pois apesar de todos os pontos ruins comentados nesse texto, “hard rain” e principalmente “deep blue” representam o material mais radiofônico possível da artista desde o Magician Remix de “I Follow Rivers”.

Indo bem ou indo mal, o “so sad so sexy” sai no próximo 8 de junho, contando com produtores como Jeff Bhasker (Natalia Kills, Jay-Z & Kanye West) e Malay (Frank Ocean, Lorde), além de uma colaboração com o rapper Aminé.

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