Discothèque #5: Throwback vs. Retrofuturismo

A música pop/indie VIVE de revival: a gente tem Neo-psicodelia daqui, Shoegaze dali, e tudo parece ter um foco enorme de três décadas que foram essenciais para o desenvolvimento da música de ampla penetração como a gente conhece hoje em dia: os anos 60, 70 e 80. As tendências de revival são, como basicamente qualquer tendência do universo musical, cíclicas – mas ainda assim elas se entrelaçam de tempos em tempos, e tudo vira uma bagunça quente de referências ao passado que são usadas de uma infinidade de maneiras a depender dos artistas que traduzem elas.

Dentre esse rolê todo, o meu recorte favorito é claramente o revival de estéticas e sonoridades oriundas dos anos 80 (que eu inclusive já enderecei na primeira edição dessa mesmíssima coluna), e o motivo é simples: os anos 80 possuem um efeito de nostalgia ENORME na minha experiência musical, mesmo que eu não tenha vivido ou sequer nascido nessa bendita década. Identificar essa questão também é algo que não exige grandes reflexões: o impacto dos anos 80 na música é muito intenso e duradouro, já que essa foi a década em que houve a fomentação e solidificação do que a gente conhece como música pop hoje em dia – sonoridade, imagem, configuração da indústria e até padrões de apresentação ao vivo, tudo isso se consolidou lá na época das ombreiras e das leggings neon. Daí, claro, os hits que se tornaram clássicos para os meus pais vieram todos de materiais oitentista, e por entrar em contato com eles, tudo o que envolve esse corte histórico acaba ganhando um tom de nostalgia nos meus ouvidos.

E é… enquanto o revival oitentista não pegou com muita força no pop mainstreamzão atual (mas ainda teve um ou outro bom exemplo, além de grandes exceções, tipo o material inicial da Lady Gaga ou o pop que a Kylie Minogue fazia de bom anos atrás), no universo indie ele virou quase que regra desde meados de 2011 e 2012, de onde surgiram exemplos infinitos de gente surfando nessa ~vibe~ como M83, CHVRCHES, Chairlift, Tennis e por aí vai. O retrowave (usando sintetizadores como elemento principal) se tornou uma coisa de lá pra cá, ficando no centro do que é o revival oitentista. Ainda assim, pela gama de gêneros que tiveram apelo pop nos anos 80 (R&B, funky, boogie, technopop, new wave), esse revival felizmente nunca fica limitado a um espectro sonoro só, e talvez seja exatamente por esse motivo que ele se tornou tão duradouro (sim, dê uma olhadinha no feed de música indie/alternativa do seu Spotify a qualquer momento e se prepare pra pegar pelo menos umas 4 ou 5 recomendações com aquele quê de obsessão pelos anos 80).

Quando pensei em criar a edição da Discothèque desse mês em volta dessa temática, elenquei como exemplos dois álbuns que eram meus absolutos favoritos no quesito revival e que também eram minhas ideias máximas de excelência musical nostálgica (sim, pois afinal a Discothèque é uma coluna de recomendações musicais direto do meu baú de artistas favoritos e subestimados). Porém, enquanto ouvia os disquinhos e planejava como começar esse texto, percebi logo o quão antagônicos eles eram na forma como lidam com o revival – e isso deixou claro pra mim um tipo de padrão constante que existe em qualquer lançamento dessa década que ponha os pés na onda de revival. Esse padrão é a diferença de abordagem que os dois álbuns possuem em relação ao som oitentista: enquanto o primeiro se propõe a fazer algo minunciosamente inspirado na década de 80 a ponto de parecer de fato SER produzido exatamente nessa época, o segundo se propõe a pegar sonoridades oitentistas e dar um twist eletrônico e contemporâneo, levando sons datados a um patamar pseudofuturístico. Essas são basicamente as duas vertentes comuns do revival oitentista, que para fins práticos eu posso chamar respectivamente de “Throwback” e “Retrofuturismo“.

O Throwback é radicalmente devotado a soar como algo diretamente saído de alguma fita cassete de 1980, e isso se reflete principalmente em suas táticas de produção que são geralmente executadas com modo a reproduzir as técnicas da época – daí o Lo-Fi Pop e o Lo-Fi Rock, que são nada menos que músicas de hoje em dia sendo mixadas e masterizadas propositalmente com efeitos de “baixa fidelidade/qualidade de áudio” no intuito de parecerem fiéis a uma idealização de nostalgia. Ritmos como o R&B e o funky a la Prince são os mais favorecidos no Throwback, principalmente pelo fato de se utilizarem muito mais fortemente de instrumentos “orgânicos” – guitarras, baixo, instrumentos de sopro, strings (mas o synthpop vez ou outra também acaba entrando no meio pois hm… o synth É a década de 80). Kindness, Jesy Lanza, Selebrities e Kristin Kontrol (e a própria banda dela, o Dum Dum Girls) são só alguns dos exemplos que me vêm imediatamente à cabeça em relação a essa vertente. Até o vaporwave seria um gênero (“gênero”) musical totalmente pautado na ideia de puro e radical Throwback.

Em contramão, o Retrofuturismo é um conceito bem mais loose, visto que qualquer coisa produzida hoje em dia com inspirações em décadas passadas é de certa forma retrofuturista. Esse é um termo que eu peguei totalmente emprestado das artes visuais, e no contexto original serve pra definir a arte gráfica pré-anos 90 que apresentava representações do futuro (e todas essas representações tinham elementos meio anacrônicos e retrô – mesmo na época em que foram produzidos). No meu exemplo musical, o Retrofuturismo é um termo que serve pra definir artistas que usam influências de décadas passadas mas tentam aliar isso a elementos e técnicas de produção atuais, imprimindo uma marca avant-garde a esse material – mesmo que ele beba muito fortemente de tendências do passado. É difícil conceituar isso sem dar alguns exemplos, e o melhor deles seria o Daft Punk, que traduz a disco music dos anos 70 e 80 para os dias de hoje com elementos mais recentes na cronologia musical, como o vocoder e instrumentações eletrônicas diversas. AlunaGeorge e LaRoux (ambos nos primeiros álbuns apenas), Simian Mobile Disco, Cut Copy, of Montreal, Caribou e até a Robyn no Body Talk são as minhas ideias mais claras do que o Retrofuturismo musical pode significar.

Definir esses conceitos de Throwback e Retrofuturismo não é nada além do fruto da minha mania de pôr dinâmicas musicais em caixinhas, o que torna mais fácil a minha compreensão de certos movimentos musicais, como esse zeitgeist do revival oitentista. Os conceitos aliás, além de partirem apenas da minha própria percepção musical e não serem nomenclaturas “oficiais”, também são altamente maleáveis: é possível ter artistas que explorem mais de uma dessas vertentes em seus trabalhos – como acontece por exemplo no “Boo Boo”, último álbum do Toro y Moi, que é quase que completamente dedicado à vibe do throwback, mas no meio disso começa a pender para o retrofuturismo com “Windows”, uma música construída toda com sintetizadores oitentistas, mas que usa efeitos de autotune e vocoder herdado de produções recentes do R&B “atmosférico”.

Toda essa contextualização feita acima é apenas uma introdução para entender melhor o contexto dos álbuns que eu irei destrinchar nas próximas edições dessa coluna, cada um explorando uma dessas vertentes do revival como eu falei anteriormente (sim, esse é um assunto pedantemente dividido em três partes). E só para não deixar essa Discothéque #5 totalmente dull e com cara de que não fala nada com nada, seguem abaixo duas playlists com as músicas que, pra mim, melhor representam as ideias de “Throwback vs. Retrofuturismo” – e que também servem como um esquenta para as próximas edições. See ya.

#discotheque #indie #neonindian #bloodorange #synthpop #matéria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s